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210 paginas.
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N.» 10 — Rosa e Ninette, de A. Daudet.
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N." 36 — Historias de Frades, por Lmo d'As8umpcão.
N." 87 — Opras primas, por Chateaubriand.
N.« 38 — O Exilado, romance histórico, por Manricia C. de Figueiredo.
N." 89 — Poema da Mocidade, por Pinheiro Chagas.
N.« 40 e 41 — .á Vida em Lisboa, por Jnlio César Machado.
N.* 42 e á3 — Espelho de Portuguezes, por Alberto Pimentel.
N • 44 — A Fada d'Auteuil, por Ponson du Terrail, traducçâo de Pi-
nheiro Chagas.
1^-" 45 - A Volta do Chiado, por Beldemonio (Eduardo d» Barros Lobol .
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N.« 19 — Um Búlgaro, por Ivan TourgueneflF.
N.o 20 — Memorias d'nm suicida, por Maiime du Camp.
N.» 21 —Forte como a morte, por Guy de Maupassant.
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N.* 26 — Magdalena Férat, por Emilio Zola.
N.» 27 — Os Reis no exilio, por A. Daudet
N.» 28 — Divida de ódio, por Jorge Ohnet
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OBRAS
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CAMILLO CASTELLO BRANCO
EDIÇÃO POPULAR
CORRESPONDÊNCIA EPISTOLAR
VOLUMES PUBLICADOS
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II— As três irmans.
III — A engeitada.
IV — Doze casamentos felizes.
V — O esqueleto.
VI— O bem e o mal.
VII — O senhor do paço de Ninães.
VIII — Anathema.
IX — A mulher fataL
X — Cavar em ruínas.
XI e XII — Correspondência epistolar.
CORRESPONDÊNCIA
EPISTOLAR
ENTRE
mi num mu i mm
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CAMILLO CASTELLO BRANCO
ESCRIPTA DURANTE OS DOUS ÚLTIMOS ANNOS DA VIDA
DO ILLUSTRE ORADOR
^57'OLXJ3S/^E I
SEGUNDA EDIÇÃO
LISBOA
Í^ARCERiA António Maria Pereira — Livraria Editora
Rua Augusta — 5o, 52 e 54
1903
LISBOA
Typographia da Parceria António Maria Pereira
Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.°
JOSÉ CARDOSO VIEilIA OE MO
«. . .Não me lastimes. A lastima é de
chumbo para as consciências fortes,
para os espíritos que amaram immen-
samente o seu ideal, para os corações
que se deixaram crivar por causa d'esse
amor. . . A tua phrase passará no meu
tumulo como a briza de Deus, e afu-
gentará os corvos de me irem roubar
com a sua sede os orvalhos mandados
ás letras cavadas do meu epitaphio.»
j. c. VIEIRA DE CASTRO. — Conscienctã.
Illr' e F^.^^ Snr.
António Manoel Lopes Vieira de Castro.
Se o espirito do nosso querido José viesse d^ou-
tros mundos, attrahido pela invocação d' alguém
que o chora; — se elle visse estes livros, como o
sudário em que nos deixou as suas lagrimas de
sangue — tomai- os-hia das minhas mãos, e iria
depôl-os sobre o coração de V. Ex."^
Se eu podesse ajoelhar diante da sepultura do
nosso infeli{, em Loanda, dir Ihe-hia: ^' Meu fi-
lho, a parte, digna de benção, que eu tenho n^esta
obra do teu martyrio, é o dedical-a ao teu maior
amigo na vida e na morte— aquelle a quem tu
chamavas o ^^ exemplo da tua honra e o teu braço
colossal e inquebrantável contra a desgraça.,,
Permitta Deus que estas paginas não levem
mais cerrada condensarão de tristeza aos eternos
lutos da sua saudade, meu nobre amigo.
S. ^Líc^xvtí de. Scv9e.,
(^amt'm> (^ash^ ^/ora
anco.
(2^ (^(íaue/de 'ffeic/e O c/e maio f/e lé^y/-.
Faz hoje quatro annos que Vieira de Cas-
tro abriu uma sepultura, fechou n'ella um ca-
dáver purificado da deshonra pela compai-
xão, e começou a sua agonia de dous annos e
meio.
Aquella senhora^ se a sua funesta estrelia
não se apagasse n'esse dia, estaria hoje na ge-
hena onde ardem as repulsas da virtude. A
sociedade das mulheres honestas dar-lhe-hia o
absintho do desprezo quando ella já não tivesse
lagrimas com que mitigar o ardor da sua ver-
gonha. Se a precita exclamasse: «Eu de-
linqui; mas o remorso rehabilitador fez-me
digna de vós!», ellas bradar-lhe-hiam : «Não!
se a cruz do opprobrio te averga, prostra-te,
morre ! »
E ella, se reagisse á ignominia, iria acossada
até ao prostíbulo; e, desde o limiar do inferno
10 Correspondência epistolar
das esposas réprobas, olhando para a socieda-
de, cruel no ódio, crudelissima no desamparo,
diria: «Se meu marido, convertendo em si
uma parte da vossa ira e do vosso desprezo,
me houvesse morto, que farias tu, ó mundo?
Se te não fiz mal, porque me insultas? Se o
coração, que apunhalei, me afogou com um
hausto do seu próprio sangue, com que direito,
ó sociedade, matarias o homem que me sacri-
ficou a ti, opinião publica!»
Para as peccadoras vivas — a ignominia, os
círculos todos do inferno social. Para as pec-
cadoras, punidas pela mão que as acariciara —
o espectáculo das carpideiras de landeau e
break ás portas dos templos, a oração, a missa,
a sacrílega alliança da piedade com o ódio, os
resplendores eternos mediante a recommenda-
ção de taes patronas — validas do céo.
Vieira de Castro, quando matou a esposa
que idolatrava, não era o louco da honra^ co-
mo ahi disse o seu insigne defensor. Se a tri-
bulação o houvesse alienado, a lei devolvêl-o-
hia á sociedade, dizendo-lhe: «Gomo mataste
sem a consciência da tua deshonra; — como
não matarias, se tivesses juizo; — vai-te em
Correspondência epistolar ii
paz; que nós, os jurados, só pedimos o de-
gredo e a morte dos maridos que sacodem o
jugo da deshonra com a luz da razão na cons-
ciência. Se ousasses confessar que vias em ti
a ignominia immerecida e em tua mulher o
ultrage irreparável, quando a arrancaste de ti,
como Laacoon desdaria os nós da serpe, en-
tão, desgraçado, irias morrer em Africa. Nós
cá absolvemos os doudos, e condemnamos os
honrados.»
Montesquieu parecia assentar um paradoxo,
quando dissera: Os três tribunaes da Lei, da
Religião e da Honra não podem uniformisar-se.
E não.
— Como defenderias o teu crime? — per-
guntei a Vieira de Castro em uma das minhas
cartas.
Respondeu :
«Eu defenderia o meu crime pelos dous motivos
que o inspiraram. Defenderia, não. Explical-o-hia.
«Esses dous motivos foram : o amor despeda-
çado em mim; o único respeito e o ultimo, e o
único possível por mim prestado á mão homicida
d'esse amor.
«Esta a base da defeza. A única. Em mim, se
entende ; porque, em mim, esta é que foi a verdade !
12 Correspondência epistolar
«Eu defenderia o marido que matasse, se esse
marido tivesse morto por ter amado, e por salvar
o único respeito compativel, na memoria e no tem-
po, com a lembrança da senhora que trouxera no
mundo a amctade do seu nome.
«Provaria a sublimidade do marido que, tendo
feito sempre da esposa a sua amante dilecta, quan-
do a viu peccadora irredimivel, lhe provou ainda
o infinito do seu extremo, fazendo-a martyr, sal-
vando-a n'um relâmpago das diatribes humanas,
impondo-a á piedade do mundo, e atirando com o
seu espirito para o seio immenso de Deus.
«Esta a defeza.
«E qual a prova da d feza? A premeditação.
«A premeditação é a máxima eloquência, a má-
xima dignidade, a máxima apotheose, o máximo
tormento — a augusta, a divina santificação d'estes
crimes.
oE' o máximo tormento; — porque premeditar
é assistir um com o corpo frio e os olhos volvidos
para dentro, e os ouvidos estupidamente attentos
ao ruir infernal dos pedaços do coração uns con-
tra os outros, e por cima desse lago de fogo a
razão implacável como o Satanaz vingativo, cor-
rendo atraz d'aquelles pedaços, e trovejando lhes
em cima das quedas o epithaphio das alegrias se-
pultadas, á mistura com a chamma vermelha dos
impropérios que hão de ser os goivos d'essas mor-
tes illustres ! Premeditar é experimcntarse um
assim voluntariamente, entre fogos e gelos ; atirar
corti o seu corpo, sem intervallos, para lagos e
vulcões, retalhando-se por martyrios que não cou-
beram nos infernos de Dante e Milton, inferiores
por ventura aos que espalhou na região das trevas
Correspondência epistolar i3
a cólera suprema ; e ser martyr assim, é ser heroe
a cada hora, luctador diíferente a cada instante,
segurando a razão para ler nas paredes rubras do
seu inferno, a sentença já em nenhuma instancia
revogável da sua desgraça ! E' ser heroe d'este ta-
manho, sem nenhum outro tablado senão os pavi-
mentos alcatificados aonde muitas vezes expiraram
os beijos do seu amor, quando a sua meiguissima
ternura corria folgazã de rojo com elles, á procura
dos seus pés adorados ; sem nenhum outro publico
senão o cadáver inerte de si próprio ; sem nenhuns
outros echos fora de si, senão o fragor tumultuado
das catastrophes interiores, e o infernal alarido da
gargalhada publica, ao fazerem-lhe á sua impia
fome praça aberta d'essas ruinas sacrosantas, alu-
miadas para a vista dos estúpidos e dos perversos,
pelo coronal d'esse craneo sublime aonde todas as
angustias se atropellaram ; mas aonde todas tiveram
logar e momento para fallarem, sem que Deus per-
mittisse que nenhuma d'ellas nem todas ellas jun-
tas, lhe lascassem uma fenda por onde desappare-
cesse o orgulho, o amor e a honra; — craneo su-
blime aonde qualquer dos infames da ruidosa turba
metteria despejadamente a sua vela de cebo nas
clandestinas elaborações de suas deshonras e pro-
tervias.
«Premeditar é ter a gente dentro da cabeça um
conciliábulo de espíritos diabólicos, e com o nosso
coração apertado nas tenazes esbrazeadas de cada
um d'elles, avançar um e dizer-nos : «Não mates
porque só Deus pôde matar !» E outro : «Na sepul-
tura que tu abrires, cahirá também a tua razão que
alli despenhará a infâmia estimulada pelo teu de-
saggravo!» E outro: «Que importa a deshonra ?
14 Correspondência epistolar
quantos são mais ricos por amor d'ella?» E outro
a final : «Quem ha de crer n'esse paradoxo que,
de parceria com o teu inculcado talento, vivia esse
coração delicado em cujas cinzas queres envolver
as de todo o teu ser, na ultima e na mais estúpida
labareda do teu amor? Espanca essa nuvem, des-
graçado ! Poe no lugar d'esse teu melindre piegas
a tolerância das deshonras dissolutas, e apaga esse
rubor infantil da tua face na pallidez cynica da de-
vassidão elegante ! Que monta isso ? Que sacrifício
fazes ? correrás mais seguro a novos triumphos,
terás menos disputada a coroa de novas glorias, e
até, e sinceramente, crê, hão de mais verdadeira-
mente estimar-te aquelles para quem já a honra do
teu lar não possa ser uma inveja e um desespero !
Se, desvairado, obedeces á tua fúria homicida, a
tua expiação será sem nome. Treme! Lamber-te-
hão de toda a parte as línguas de fogo; e tu, Me-
zencio de uma nova e mais cruel agonia, sem mo-
vimento em meio d'cllas, atado no teu corpo como
ao teu próprio cadáver, com toda a tua sensibili-
dade para soífrer, sem átomo de força para reagir,
assistirás assim, mudo, inerte, despedaçado, ao
esphacellamento satânico de todas as tuas carnes,
ao espicaçar de todas as tuas fibras, uma a uma,
ao enxovalho brutal de tuas mais nobres dores,
ao escarneo cruel das tuas melhores virtudes, ao
prostituir, ao chacotear, ao apedrejar de tudo quan-
to em tua vida e no teu amor, e nas tuas aspira-
ções, e nos teus affectos, sentiste sempre em ti
de bom e de grande, de virtuoso e de puro, de
elevado e de nobre, de óptimo e de justo. Que im-
porta e que vale um amor que se extingue ? Por
cada ideal que se esvae, mais uma victoria contra
Correspondência epistolar i5
a matéria ! E tu, homem d'este século, não pode-
rás fugir á_ philosophia d'elle, que n'outras luctas
te recusará os applausos de que tem vivido e viverá
a tua alma, se tu o affrontares, atirando-lhe á cara
a condição escripta que elle põe aos teus novos
triumphos — condição reconhecida e aceite por tantas
eminências ante as quaes tu és publico apenas, e
por tanto, publico^ cujo anonymo nenhum valor
denuncia \ mas que se- contenta em ser eminente,
no desassombro com que entra na partilha das tor-
pezas communs.»
Martyrios que não couberam no inferno de
Dante — disse elle. «Dante não pintou os sup-
plicios todos dos condemnados da morte: ha
ahi condemnados da vida que percorrem cír-
culos de maior inferno que os da Divina Co-
mediayy — disse Lamennais.
Como são tristes estas flores do talento or-
valhadas de sangue!
Não bafejara Deus ao espirito do homem
imagens tão coloridas para esclarecimento de
tamanhas desgraças. A estupefacção, a atro-
phia da alma, o terror tácito deveram ser a
expressão única d'aquelle homem, se, por de
j6 Correspondência epistolar
sobre todas as voragens abertas, elle não sen-
tisse a robustez da dignidade, sopesando os
pavores do degredo e da morte.
A loucura da honra ?!
Não. Era o profundo e lucidissimo senti-
mento do seu ultrage e do seu desforço. Os
dementes não escrevem assim; não descem até
ao fundo do seu abysmò, com a lâmpada da
razão, encadeando as primicias do seu infor-
túnio, e concluindo por se offerecerem ás pre-
sas da justiça, salvando a sua victima de peor
cadafalso — o dos insultadores, e, peor ainda,
o das insultadoras.
Eu não sei se a opinião publica, em sacrifí-
cio ás suas aras immaculadas, quer que se lhe
inculque a loucura de Vieira de Castro, quando
obrigou a mulher a transpor primeiro que elle
as portas da eternidade.
Mentir-lhe ! — para quê?
Pois a opinião publica não o matou, justa-
mente porque elle não estava doudo?
E, se estava, se assim vos praz insinual-o
a vossos maridos, senhoras, porque lhe an-
dastes cavando a sepultura com a hypocrisia
nos templos, e a injuria no cárcere, e as de-
clamações nas salas, e o estylete hervado no
soalheiro dos jornaes !
Vieira de Castro é morto; e toda essa jolda
de infames sem caridade nem remorso está vi-
Correspondeficta epistolar 77
va, medrada, com o seu arnez de hypocrisia,
com o seu despejo invulnerado.
Louco . . . aquelle! seria, como todos os ho-
mens de génio que não lograram nunca inocu-
lar no cérebro o regimen, o methodo das ca-
beças atiladas, des bonnes caboches ordinaires,
dizia Victor Cousin.
Louco, sim — disse Henri Blaze — como as
profundas naturezas em que certas faculdades
particulares, certas forças, se desenvolvem a
expensas da harmonia geral.
Recordemos. Busquemol-o na mocidade, na
alegria, nas chimeras, nas bizarrias, nas isen-
ções, no denodo das suas sympathias, na co-
ragem das suas opiniões, nas luctas com o
senso- vulgar, nas reacções contra as trivialida-
des, em fim, na porfia com que procurava a
felicidade e ao mesmo tempo a repellia.
Recordemos.
Ainda não contava dezeseis annos Vieira de
Castro, quando traduziu a Solidão^ de Zimmer-
mann. Que havia commum entre aquella crian-
ça e as meditações hypocondriacas do medico
allemão ? Que consonância inexplicável de sen-
timentos entre a juventude alegre e rica do
VOL. I
i8 Correspondência epistolar
collegial de Nosssa Senhora da Lapa e as con-
centrações lúgubres do philosopho sombrio que
morrera doudo, quando procurava a razão das
suas trevas ? Nunca elle m'o explicou. Disse-
me que o livro lhe dera as primeiras lagrimas
do espirito, que se anteciparam n^elle as lagri-
mas do coração ; que, terminada a leitura, de-
sejara a soledade absoluta, como se houvesse
vivido muito, e sentisse no peito as cinzas
quentes das suas esperanças, e a convicção de
uma irremediável desgraça.
Eu não o conhecia, n'aquelle tempo, em 1 8 ^4.
Via-o nas janellas da sua casa, que abriam so-
bre a quinta do Pinheiro, onde eu morava.
Observei que elle não desfitava de mim a lu-
neta com uma fixidez que me lisongeava. E,
ás vezes, ouvia-lhe as gargalhadas de jovial
applauso, quando eu cavalgava um mau ca-
vallo em pêllo; e, remettendo em desenfreado
galope por baixo do esgalho de uma arvore,
me pendurava no ramo, e deixava em vertigi-
nosa liberdade o cavallo.
Eu tinha 27 annos mais pueris que os deze-
seis d'aquelle menino que vertia intelligente-
mente as mysanthropias de Zimmermann.
No Nacional^ onde eu escrevia, sahiram ano-
nymos os folhetins do incógnito traductor da
Solidão, Figurou-se-me que alguns dos derran-
cados leões de i83o, espreitando o céo pela
Correspondência epistolar ig
floresta do seu tédio da vida, nos queria guiar
a nós, os rapazes de 1854, aos invernos algi-
dos do coração, ao desengano das cousas boas
e más que ora enfloram, ora ensilveiram as ve-
redas da mocidade. Quando, porém, me asse-
veraram que o interprete do solitário germâ-
nico era o rapazinho louro que se ria do meu
selvagismo de gineta e estardiota, desejei estu-
dar aquelle espirito que emmurchecia envolto
em grinaldas de rosas.
Volvidos dois annos, vi-o n'um theatro. Ain-
da o não conhecia pessoalmente. Mostraram-
m*o, exagerando-lhe as verduras amorosas com
uma actriz, não sei se dançarina, se dramá-
tica. O que quer que fosse alvorejava hyper-
bolesde enthusiasmo no moço imberbe, — ex-
plosões não aconselhadas por Zimmermann,
mas frizantes com os dezoito annos, embora,
trovejadas de cima das cadeiras daplatêa. Mui-
ta palma, muito tó, muita flor com fitas bara-
tas, louvores e satyras já eloquentes, muita me-
taphora, muita moeda falsa de sentimentalismo,
brindes á franceza em cêas menos nocivas aos
bons costumes que aos estômagos portugue-
zes, e mais nada. Vieira de Castro alegrava-me,
dava-me inveja da sua jovialissima estouva-
nice, radiava juventude em redor de si.
O tribunal da opinião publica chamou-ologo
á barra. Todos os membros do dito tribunal,
20 Correspondência epistolar
maiores de quarenta annos, reprovaram que
José Cardoso Vieira de Castro tivessse dezoito
primaveras, aggravadas pelo delicto de balbur-
diar nos theatros, de expor o seu coração en-
tre gargalhadas nos camarins, de incommodar
ás três horas da manhã a digestão eosopôrle-
thargico dos hospedes da Estrella do Norte.
Foi na Estrella do Norte que eu failei com
Vieira de Castro, em iSSy, quando elle reco-
lhia riscado da Universidade porque, a impul-
sos de generosa indignação e com a omnipo-
tência da palavra, obrigara o corpo docente a
reparar a injustiça — injustiça, ao parecer de
Vieira de Castro — feita ao snr. doutor Augusto
César Barjona de Freitas. Barjona entrou re-
habilitado no magistério; o académico que elu-
cidara a razão obcecada dos cathedraticos foi
riscado. Este contrasenso — a admissão de
um e a expulsão do outro — não foi explicado:
é um paradoxo exclusivo da vida de Vieira de
Castro, tecida de brilhantes fios, mas com lou-
vores excepcionaes, somente seus.
Elle não se deplorava do seu infortúnio, re-
iatando-me, sem se envaidecer, o arrojo de
reprovar uma decisão que prejudicava a car-
Correspondência epistolar 21
reira de um homem, nem sequer seu conheci-
do ! Que alma tão descabida n'estes tempos em
que apenas temos o snr. Viale a fallar-nos em
falsete de almas gregas, e o snr. João Félix a
dar-nos ingrammaticalmente varias noticias
das almas romanas !
O livro intitulado Uma pagina da Univer-
sidade foi o desafogo e a consolação do brio,
injuriado pela suspensão biennal da sua carrei-
ra e mais ainda pelo silencio cobarde de tantos
que o incitavam e applaudiam nas suas ousa-
dias imprudentes. Se Vieira de Castro, em vez
de grande e recto animo, fosse dotado dejuizo
são, e egoismo discreto, incommodára-se tanto
do snr. Barjona preterido no magistério como
de Coriolano expulso de Roma. Dous annos
sacrificados a um rapto de generosidade, e de
respeito á justiça; e cá por fora o mundo a re-
muneral-o com a reputação de estúrdio... Al-
gum raro amigo, sem lhe applaudiro feito, não
podia reprovar-lh'o. Seria isso atirar-lhe para
dentro do coração febril de impulsos nobres
este chumbo derretido que nós cá dizemos á
franceza, saber-viver^ e á portugueza, o arran-
J0'de-cada-um. Aqui está uma phrase bem es-
parramada que parece ter sido arranjada para
nós na torre de Babel, quando se formaram os
idiomas.
O arranjo-de-cada-um: cousa que nem Viei-
22 Correspondência epistolar
ra de Castro nem eu percebíamos. Quem tinha
parafusado bem no miolo da phrase era o snr.
doutor e secretario doestado Barjona de Frei-
tas, quando Vieira de Castro estava no Limoei-
ro. Dir-se-hia que nunca setinham visto nem na
estrada plana dos que se encontram honrados,
nem nas encruzilhadas escusas onde se topam
os aventureiros que arpejam noite alta, as suas
loas ás Julietas de bric-à-brac. As senhoras que
não entenderem isto, pois que são do tempo em
quearainhaBerthaíiava..., Deus as conservelá.
Eu já devia ter declarado que não vou es-
crevendo gradualmente a biographia de José
Cardoso Vieira de Castro. Estou a bosquejar
reminiscências. São flores murchas que vou en-
feixando á tôa, conforme as encontro á volta
da lousa tumular do rapaz que fui. A biogra-
phia do meu perdido amigo ou está brilhante-
mente escripta por seu irmão António — mo-
delo de irmãos extremosos e homens honrados
— ou nunca se escreverá. António Manoel Lo-
pes Vieira de Castro concluiu a historia d^ seu
irmão no dia em que o condemnaram — em
que o mataram. (Veja nota i .^). O que elle não
disse é o inexprimivel. As ascensões e os ba-
Correspondência epistolar 23
quês, os extasis e os abatimentos, o que houve
de céo e inferno na vida dç José Cardoso, é um
pego de amarguras insondável, segredo como
o das reacções travadas entre Deus e as legiões
réprobas que lhe disputam a prêa humana.
Não sei se Vieira de Castro conseguiu de-
linear o esboço da sua vida interior. Entre os
papeis subtrahidos ao vendaval que lhe disper-
sou o espolio, quando o cadáver transpunha os
umbraes do cemitério de Loanda, ha um fra-
gmento indicativo de trabalho premeditado ou
perdido.
Diz assim:
Estas paginas são o escorço biographico de José
Caridoso Vieira de Castro Menos ainda que isso.
São apenas o arcabouço dos lances mais notáveis na
vida de um homem sepultado dentro de si próprio
aos trinta e um ânuos. São escriptas para serem
lidas mais tarde, quando chegarem d idade adulta
umas criancinhas que jd hoje tra\em no mundo o
nome doeste morto. A ellas pertencem os enthusias-
mos., as rllusôes, os sonhos, as realidades^ os trium-
phos, as agonias, os sobresaltos, as dores, os júbi-
los, as gloriaSy o go^ar e o padecer d'essa existên-
cia, ao mesmo tempo tão longa e tão curta ! Algu-
ma d'ellas poderá refazer um dia a biographia de
seu tio 7i'esses apontamentos soltos, dispersos e mal
combinados, como foram, na existência de Vieira de
Castro, incongruentes, pouco lógicas e contradicto-
rias as suas grandes amarguras e as suas grandes
alegrias.
24 Correspondência epistolar
• E mais nada
Se foi a morte que se lhe atravessou, quan-
do elle queria dilacerar-se nas garras da recor-
dação, houve-se generosamente a morte. O
apagar-se aquella vida é a prova divina da
existência de outra. O homem não se fez a si,
nem este mundo, por si só, justifica a perfei-
ção de Deus.
Não lhe escrevo, pois, a serie de successos
quer lógicos, quer inconsequentes. Revivo-o
nos seus vestígios; resurge no meu coração;
vejo-lhe as tristezas recônditas e as explosões
de alegria; ouço-o, tenho na audição interior
o timbre da sua voz tão nitida, como nos
dias de 1866, quando elle se sentava a esta
mesma banca, n^esta mesma cadeira, e me sor-
ria, nas manhãs de agosto, d^aquelle leito que
alli está.
Aqui tenho o livro que foi parte na sua
flagellação, quando o retalhavam alli no tri-
bunal, amarrado ao banco. Intitula-se: Ca-
MiLLO Castello Branco (noticiã de sua vida e
obras),
A historia mais obvia doeste livro é a ami-
zade indulgente, o valor desassombrado de
uma opinião, o aífecto vehemente descaptivo
Correspondência epistolar 25
de respeitos, e todo embebecido no infortúnio
de um amigo.
Mas o livro tem origem que Vieira de Cas-
tro não contou, receando que lh'a tomassem
como desculpa.
Estas palavras de uma pagina do livro a
ninguém transluzem a dor occulta: É-me defeco
o fa{er publica^ ainda mesmo tiveste lugar ^ a
confidencia ... O leitor cale os insultos da curio-
sidade^ levando-me em bem o generoso intuito de
aforrar á partilha de uma angustia que eu sei
lhe havia de magoar a sua extrema sensibilida-
de. Bella ironia! A extrema sensibilidade do
publico! E doesse publico me levara, n^aquella
hora, o meu amigo uma proterva calumnia, e
tal que eu nem na fronte dos meus inimigos
queria que a justiça de Deus ou dos homens a
gravasse.
Referiu-me com intercadencias de hesitação
que nas praças, nos botequins e nas salas se
contava o seguinte:
Que eu, confidente e depositário das cartas
que uma senhora casada escrevera a um ho-
mem ausente, ameaçara essa senhora de reve-
lar ao marido a culpa indicada nas cartas, se
ella continuasse a repellir-me; e que a senhora
ameaçada, aceitando metade da minha infâ-
mia, transigira com a proposta. Eis ahi des-
carnadamente a ignominia com que tentavam
26 Correspondência epistolar
suffocar-me uns homens que hoje me apertam
a mão. E certo que as lagrimas me sufFoca-
ram. Vieira de Castro viu-as; mas a minha
grande angustia era por ella, e não por mim;
por ella tão incapaz da cobardia de succum-
bir ao biltre que a, envilecesse com taes amea-
ças, como valorosa para aífrontar o descrédito e
a pobreza. K tudo ella tinha affrontado n'aquelle
dia. Estava sem património, sem familia, sem
ninguém: tinha apenas de seu e por si o co-
ração e o trabalho do homem que fizera de
seu peito, culpado mas leal, a ladeira do abys-
mo d'ella.
Não me lembra o que respondi a Vieira de
Castro. Abri a minha gaveta, desatei dous pa-
cotes de cartas datadas e numeradas nos so-
bre-escriptos, e disse-lhe:
— Aqui tens a minha correspondência com
essa senhora — as suas e as minhas cartas.
Lê-as tu, desde a primeira que escrevi e a pri-
meira que recebi. Não posso dar-te outro tes-
temunho contra essa calumnia, que eu, por
amor á minha espécie, seria incapaz de inven-
tar em uma novella. Eu não posso metter na
cabeça de cada homem que me ultraja o raio
da luz da justiça mediante uma bala. Antes
quero recapitular na tua razão e na tua cons-
ciência, a consciência e a razão dos meus ami-
gos e inimigos.
Correspondência epistolar 27
Vieira de Castro leu as primeiras cartas,
e exclamou com vehemencia da alma indi-
gnada:
— Deixa-me esmagar esta injuria que é
atroz !
— Não! nem uma palavra! Bem vês que eu
não devo permittir que essas cartas sejam li-
das. E não tenho outra justificação. O homem,
que recebeu cartas d^essa senhora, vive e sabe
que em meu poder não está nenhuma. Elle me
defenderá quando a curiosidade dos meus de-
trahidores o interrogar. Não escrevas nem fal-
les a tal respeito.
Desde este lance, conheci que Vieira de
Castro acrisolara por mim o sentimento da es-
tima alliado ao da compaixão. Teve dó do ho-
mem que a sociedade aviltava diífamando-o,
ferindo-o no seu ultimo baluarte — o amor
próprio, o orgulho até de haver amado com
quanta honra um amor reprehensivel pôde ser
indultado na consciência — honra, que tem
hoje a prova de dezesseis annos.
— Hei de escrever o livro da tua vida —
voltou Vieira de Castro — Não fallarei doeste
ponto negro; mas ha de vir um inimigo que
ponha o ferro em braza no meu escripto,
a calumnia queimar-nos-ha a ambos, e tu en-
tão...
— Me defenderei, se poder dizer á minha
28 Correspondência epistolar
cúmplice: «Consente que eu me arranque este
punhal das costas, porque a ferida tanto dila-
cera na tua dignidade como na minha. Mu-
lher que succumbisse a ameaças de tal vi-
leza, seria tão sem brio, tão sem pudor, e
tão execravel como o homem que a subju-
gasse.»
São volvidos dezeseis annos. A infamação
nunca foi impressa; mas ha almas negras que
ainda a escorrem na lingua farpada como a
peçonha da vibora.
Meus amigos e meus inimigos! se, por vio-
lências de uma paixão brutal, exacerbada pela
embriaguez, eu resvalasse á infâmia de forçar
a resistência da derradeira mulher na escala
das perdidas — Deus sabe quem são as perdi-
das! — ; ao despertar d'esse infernal aturdi-
mento com a consciência do meu crime, liia-
tar-me-hia com asco de mim próprio. No re-
gaço d'essa senhora, tão cruelmente aviltada,
tenho dous filhos. É para meus filhos que eu
escrevo esta pagina que me pareceu até hoje
impossível. Receio que elles ainda tenham de
ver a serpente da calumnia a rojar-se na se-
pultura de seu pai. Sinto-me no cabo da vida;
e tenho maior pejo da posteridade que dos
meus contemporâneos. Quero que estas crian-
ças saibam d'este livro que o pregão afFrontoso
aos calumniadores foi escripto quando ainda
Correspondência epistolar 2g
viviam as pessoas que podiam desmentir-m'o.
No punhado das minhas cinzas hão de estar
as de sua mãi — esta levantada alma que ainda
não verteu uma lagrima na voragem que lhe
devorou os respeitos do mundo, e a pérfida
riqueza com que seus perdoáveis pães a vio-
lentaram sem dó de sua innocencia e formo-
sura dos dezoito annos.
O talento de Vieira de Castro era porten-
toso.
Aos vinte e três annos cobria de pérolas as
paginas dos seus livros, sem as haver colhido
nos livros alheios. Só com a phantasia, com o
milagre do génio, estrellava de esplendores,
de locuções titânicas as cousas mais triviaes do
pensamento.
Os livros do seu estudo eram poucos e fú-
teis n'aquelle tempo. Francisco Manoel do Nas-
cimento dava-lhe arrobos de admiração de en-
volta com frouxos de riso, quando o reliamos
na quinta do Ermo. — Sabes tu! — dizia-me
elle — isto de bem escrever é um lavor mecha-
nico sem o talento de bem imaginar. Ha phra-
des de bronze, e phrases de flores : umas pe-
sam as outras perfumam. Eu quizera antes ser
3o Correspondência epistolar
florista que fundidor. Acho mais artistica uma
grinalda de boninas que uma Flora em busto
de ferro.
E, não obstante, os moldes, de seus escri-
ptos e discursos eram clássicos, e ás vezes su-
perabundantemente enfronhados de purismo.
Mas a phrase, o torneio da dicção resaltava
gentil, luxuriante, com uns requebros origi-
naes de tanta graça que a mim me fazia pena
a certeza de que, mais tarde, os atavios todos
d'aquella rnusa loura e pueril se haviam de fe-
necer, assim que a politica — devassa que tos-
quia todos os Sansões da poesia — lhe cortas-
se os voadouros.
Não foi assim. Vieira de Castro, quando en-
trou ao parlamento, contava vinte e seis annos.
Florescia em toda a pujança de seiva. Era ins-
truído nas sciencias politicas, sem as profun-
dar. Lia a pagina primeira, a pagina cem, e a
trezentas de um livro. Sabia-o todo. Percebera
a lógica, a travação, as primícias e os corolla-
rios do author Se lhe pedisseis um juizo de
Barrot, de Mezières, de Guizot, dar-vos-hia a
substancia, o ouro acendrado do livro, da
theoria, do systema que adivinhara folheando
os titulos dos capitulos.
Aqui tenho a collecção dos seus Discursos
parlamentares.
Deixem-me dizer assim : este livro contém
Correspondência epistolar 3i
os embryões da catastrophe de Vieira de Cas-
tro. Esta aurora allumiou o seu ultimo dia fe-
liz. Foi ella, a estrella maldita que o levou ao
Brazil no encalço da gloria. A gloria recebeu-o
nos braços, e cobriu-lhe a fronte de ouro e bri-
lhantes. Era já muito, eram extraordinárias as
blandicias da sorte com um talento de Portu-
gal. Parece que a Fatalidade adormecera. Eis
que se avisinha o Destino com o ramo das flo-
res pulveviseidas do seu veneno. Eile inhalou-as ;
concebeu a paixão, deu sua alma ás deli-
cias e torturas do amor. Cantou a sua felicida-
de em hymnos de graças a Deus que lhe dera
uma esposa, e com ella uns júbilos tão des-
medidos que receava morrer da congestão da
felicidade *.
Quando aqui me resoaram n'estas monta-
nhas as estrophes de Vieira de Castro, eu en-
carei no seu retrato e disse-lhe : Desgraçado, ou
tu has de fa\er de tua mulher um génio .^ hom-
breando-a comtigo^ ou ella te ha de descer do teu
génio até ás proporções de um marido vulgar !
Vem aqui ao propósito dizer que Vieira de
Castro, antes de sahir para o Brazil, esteve
commigo alguns dias. Nunca proferiu palavra
* Vejam-se as cartas escriptas a seu irmão António, e im-
pressas no Processo e/u/^ame/j/o. Veja-se também, adiante,
a carta escripta desde New- York a Victorino da Motta.
32 Correspondência epistolar
que revelasse intento de procurar mulher no
Rio de Janeiro;
Dominava-o uma chimera mais intangivel,
mais inexequivel que topar esposa no Brasil.
Premeditava vender dez mil exemplares dos
seus Discursos^ e resgatar as suas terras one-
radas de dividas. Eu rira-me dos cálculos do
talento, que está sempre ás avessas do talento
dos cálculos. Se elle me tivesse dito que ia á
conquista do vello deouro, euresponder-lhe-hia:
«Vai, novo Jasão, mas não leves os livros que
representam as riquezas do talento pobre.»
O que bem me lembra, e uma carta d'elle
me recorda é que chorei ao dar-lhe o abraço
de despedida: «...Estou atravessado de sauda-
des — me escrevia elle do Porto. — Os teus so-
luços e as tuas lagrimas commoveram-me pro-
fundamente, e por vezes me ennevoaram os
olhos pelo caminho. Quando se merecem d'es-
sas provas a homens que tem soffrido como
tu, é que algum bocadinho de coração puro
tem a gente... Ai! o meu quartosinho de Sei-
de!... Nunca tive saudades assim, senão quan-
do me mandavam criancinha de ferias para
o collegio...« Dias, depois, ao embarcar para
o Rio: Adeus, meu excellente amigo; se eu
conhecer um dia de que ponto do céo brilha
o raio da felicidade, correrei a Seide a apon-
tar-t'o.))
Correspondência epistolar 33
Não voltou a Seide... É que não vira no céo
o ponto refulgente da felicidade.
Ainda em 7 de novembro de 1866 lhe lem-
bra no Rio o quarto da sua cama vestido de
roseiras «...Agora, um grito do coração: Choro
por Seide! Quando nos abraçaremos nós ahi?
O que eu tinha a contar-te!... Aqui ha gran-
des almas!...
Confrontemos os estylos de duas cartas. A
de solteiro, quando entrava no parlamento, e
a de casado quando chegava ao Porto. «Vou
morar na casa mais linda que tem Lisboa para
um rapaz 1 E' no Monte de Santa Catharina ao
portão de ferro. Que surprehendente mara-
vilha ! Era casa soberbissima para nós, no
coração da cidade, a lavar os pés no Tejo, e
a enxugar a cabeça nas nuvens do céo ! Não
imaginas que linda casa vou ter ! Como alli me
ha de alumiar as noites a alegria do estudo, e
o anjo louro da gloria que me negacêa desde a
infância com as glorias do parlamento ! Vem
para a minha companhia !» Agora, a carta do
Vieira de Castro, casado, millionario^ com o co-
ração duplicado no seio da esposa adorada :
«Eu continuo a ser para essa casa o mesmo,
quero dizer : que quando bato á tua porta levo
sempre uma tristeza commigo. A tristeza é o
meu capital precioso, que ninguém me quer e
que eu não dou a ninguém senão a ti. Os
VOL. I 3
34 Correspondência epistolar
únicos dias felizes que recordam as minhas re-
miniscências de solteiro são teus, devo-t'os...»
A proeminente physionomla do discorrer de
José Cardoso Vieira de Castro era o colorido
da palavra, a área larga do pensamento, o pe-
ríodo enérgico e cadente, a apostrophe impe-
tuosa, o rapto da imagem, o rythmo lusitano
da forma, a boa erudição em referencias e ci-
tações, o ardor civico nas crises do patriotis-
mo, a destimidez no alvoroço das tempestades
que levantou no parlamento. Coração, poesia,
paixão, orgulho, sarcasmo, ironia, violência, to-
dos estes heterogéneos raios de luz estavam
fermentando o primeiro orador portuguez, sem
assombro de Garrett, de Rodrigo da Fonseca,
de Rebello. Nenhum fora tão espontâneo, tão
repentista e tão eloquente.
É notabilissimo o seu discurso acerca da li-
berdade de imprensa. Grande subtileza de ra-
ciocínio, clareza, rigor deductivo, primorosa
arte em redarguir e concluir.
Um intelligente admirador de Vieira de Cas-
tro, apreciando o homem illustre que se apa-
gara a um sopro de desgraça trivialissima, di-
zia-me em uma carta escripia no dia da con-
Correspondência epistolar 35
demnação : «Foram uma tempestade politica
os dous annos parlamentares de Vieira de Cas-
tro. O orador só pôde ser cabalmente visto a
uma cambiante luminosa. Ahi, porém, foi elle,
a um tempo, o todo e a parte. Os seus Discur-
sos são a chronica e a synthese esplendida das
commoçóes da tribuna portugueza n^aquella
época de paixões. As 2 5o paginas d'este livro
Scão amenissimas, posto que, a espaços, relam-
pagueadas de fulminações. Ha ahi Murillo e
Miguel Angelo. Os fogos do Synai, e as candi-
díssimas frontes dos anjos. Nem a tribuna an-
tiga nem a tribuna moderna nos dão melhores
modelos de eloquência^ escreveu António Ro-
drigues Sampaio. Quando o orador tiver pas-
sado para o lugar aonde a justiça humana
exige que se escondam de uma vez os grandes
talentos que ella ha de celebrar em duradoura
apotheose, o livro de Vieira de Castro será
francamente proclamado o primeiro monu-
mento da eloquência politica portugueza.»
É uma dor que punge e consola reler este
livro, ouvil-o, vêr-lhe o movimento dos lábios,
dos olhos, o gesto, todo elle redivivo, porque
o tempo lhe não deliu em minha alma o mi-
36 Correspondência epistolar
nimo traço das suas feições. N'esta casa de S.
Miguel de Seide ha ainda um pailido crepúsculo
da sua alegria de ha seis annos.
Quarenta e quatro dias antes da sua moFte^
me escrevia elle: Seide! a pedra e os cyprestes!
Ah! não volto ahi mais. Não cabe essa felicidade
no meu destino! Fujamos doestas memorias que
me despedaçam!
A pedra é uma lapide tosca em que está o
seu nome. Os cyprestes plantára-os alli mão
fatidica, em dias tão felizes! O nome do bem-
vindo do meu coração festejado em uma py-
ramide de granito do feitio de um sepulchro,
assombrada de araucárias que tem o lúgubre
aspecto dos cyprestes ! Um paradoxo a receber
uma restea de luz fúnebre vinda da Africa, do
cemitério dos degredados!
Os seus últimos dias da juventude foram os
que elle aqui viveu. Eu, pelo menos, nunca
mais o vi alegre d'aquella sua ridentissima ex-
, pansibilidade que tinha condão de incutir ale-
gria nos tristes.
Nunca mais aquelle gracioso espirito do pa-
radoxo na conversação; as imagens hyperboli-
cas do phantasista radioso; os resaltos inespe-
rados dos epithetos picarescos, realçados pelo
tregeitar que, na móbil physionomia de Vieira
de Castro, era o mais percuciente gume das
suas satyras, sempre elegantes.
Correspondência epistolar 3j
A primeira vez que o vi, de volta das suas
viagens, e com fama de rico, imaginei que o
ouro o revestira da gravidade mal encarada
que é a liga d'este metal nos carões de chum-
bo. Creio que lh'o disse no nosso usual estylo.
Sorriu Vieira de Castro com a melancolia dos
que não querem carpir-se, por amor próprio e
pejo de não serem tão felizes quanto os incul-
cam e lh'o imaginam. E uma das feições do
orgulho. É uma valentia ostensiva, e uma pro-
funda miséria humana.
— Eu sou pobre — disse Vieira de Castro.
— Pobre!
— Pergunta-o aos meus credores e a meus
irmãos — insistiu o meu amigo, como quem
segreda uma confidencia. — Casei com uma
criança adorável, embalada no luxo, nas indo-
lencias do Brazil, e nos caprichos da abun-
dância. Quero educal-a, como se educa uma
filha; mas não posso desfazer com preceitos
de economia os hábitos adquiridos, ou as es-
peranças prefiguradas. Tenho carruagem, por-
que é ainda cedo para eu insinuar a Claudina
que não a podemos ter, e não sei quando te-
rei valor nem arte para lh'o dizer.
Sei que elle lh'o disse, um dia, na quinta de
Moreira, dissimulando a insufíiciencia dos meios
com outras considerações em que predominava
a impertinência de criados.
38 Correspondência epistolar
— Pois sim, Jucá — accedeu com uns me-
neios infantis e mórbidos — vende o trem, se
queres, mas compra-me vestidos com o di-
nheiro.
Esta cousa fútil não é meramente uma
criancice. Aos vinte annos não ha crianças.
O reviramento da indole folgazã de Vieira
de Castro fez-se súbito na intuspecção de que
não era amado. Se o cegasse o orgulho, basta-
ria o amor a descondensar-lhe as névoas. No
espirito inculto d'aquella senhora não havia
gomos que íiorejassem aquecidos pelo talento
do marido. Era uma creatura mais ignorante
que o vulgar das portuguezas medianamente
educadas. Os dous intellectuaes, os triumphos,
a fama gloriosa de Vieira de Castro eram-lhe
cousas de todo o ponto descuriosas, vãs e sem
préstimo na sua felicidade. As cartas amoro-
sas que ella lhe escrevera em solteira, com
uns requebros de dengosa meiguice, denota-
vam alma precocemente afistulada de perfídia
porque mentiam a um homem que na inge-
nuidade dos seus amores era d'uma candura
pueril.
Disseram ahi que o casamento de Vieira de
Correspondência epistolar 3g
Castro já da sua origem vinha empeçonhado
pela coacção da esposa. Entre as mais dilace-
rantes frechas que lhe desembestou a villana-
gem estava essa cravada no seio do meu ami-
go. Devia de ser violentada a mulher que lhe
escrevia, em solteira, as cartas impressas a pag.
44 e 45 do Processo e julgamento, Procurem-as
lá, que eu acho-as irrisórias para serem reedi-
tadas.
Ó grandes espíritos, quanto é triste vêr-vos
apoucados, rasteiros e postos ahi de supeda-
neo á primeira mulher que vos enliça com
umas trivialidades amoriscadas, como que fei-
tas para estudantes de lyceu!
Os instinctos desleaes d'esta senhora trans-
pareciam. Houve pessoas da convivência in-
tima de Vieira de Castro que vaticinaram o
desastre, e outras que viram com espanto a
realisação do vaticínio, tão cedo. O assombro
não era já do delicto : era da pressa. Ninguém
o preveniu contra a infâmia que vinha, nem o
avisou quando a infâmia lhe cuspiu o estigma.
A amizade deplorava-o ; mas o decoro impu-
nha silencio aos que o consideravam a ellq
marido vulgar, e a ellauma peccadora na via
dolorosa das Magdalenas.
Elle abriu os olhos sobre o seu golfão, quan-
do o coração o levou alli de rojo. Suspeitava
da perfídia. Tinha sentido nos braços a mulher
40 Correspondência epistolar
regelada para o amor honrado. O que algum
dia lhe parecera desamor, era já a expressão
do tédio, sem ao menos dissimular-se nas ca-
ricias artiíiciaes da culpada tranzida do re-
morso ou ameigada pela compaixão.
E, como voragem daignonimialhe devia ser
sepulchro, não se despenhou sósinho.
O desgraçado não consultou ninguém, não
chorou em braços de algum amigo. Amorda-
çára-o o honesto pejo da sua desventura. An-
tes quiz incutir terror que compaixão. Não po-
dia confidenciar a sua dôr a alguém, pois que
a sua ignonimia havia de ser notória e lançada
ao dragão que ceva a sua fome no escândalo
e a sua sede nas lagrimas. Tudo lhe serve, ti-
rante o desforço em que ha sangue. Afora o
sangue que lhe faz pavores, para tudo tem as
suas gargalhadas, tanto mais estridulas quanto
de mais alto lhe baquêam as victimas nas
garras. Elle conhecia a sociedade. E, cuidando
que immolava a esposa á sua honra, — é triste
dizer-se! — foi, em grande parte, á sociedade
que elle a sacrificou, pensando que um cadá-
ver, embora manchado, era sacratíssimo ; e
um homicida, embora repulsivo, respeitável e
nunca escarnecivel. Não se illudira. Foi assim.
Ella coberta de bênçãos, elle de maldições; ella
suífragada nas igrejas, elle insultado na im-
prensa e no cárcere.
Correspondência epistolar 41
D'esse holocausto á sociedade estão ahi três
paginas perduráveis de Ramalho Ortigão. Era
já morto o desterrado, quando este grito de
justiça, trovejou nas cavernas da opinião :
«Assim acabou pois na indiíferença ou no des-
dém da publicidade o homem publico que mais
ruído teve em voha do seu nome, aquelle dos nos-
sos companheiros de trabalho e de lucta intelle-
ctual que mais viveu nos applausos da celebridade
e nas commoçóes da gloria !
«A amizade não deixará de vir amanhã trazer a
esta desafortunada sepultura o doce tributo das
suas lagrimas. A opinião porém essa ahi a estamos
vendo já na sua definitiva attitude, de olhos enxu-
tos e de coração calado, perfeitamente indifferen-
te, diante do cadáver d'aquelle, cujo maior defei-
to, e talvez o único, foi ter amado a opinião — de
mais !
«Eu, que estou na amizade pessoal, direi aos que
estão na opinião publica : sois cruéis na vossa indif-
ferença, porque sois cúmplices na desgraça que ar-
rancou esse homem tão novo, tão exhuberante de
mocidade, de talento e de vida, ao seu amor, á sua
familia e á sua pátria. Porque elle rendeu-se intei-
ramente, inexperiente e desarmado, desde os pri-
meiros passos que deu no mundo, á consciência da
opinião e ao julgamento do publico. Foi, mais que
ninguém, do seu tempo e da sua sociedade. Em
quanto outros luctavam tenazmente contra a cor-
rente das idéas, dos princípios e dos sentimentos
consagrados, elle arrojava-se ao largo, entregando
o seu baixel á providencia da onda. O seu cami-
^2 Correspondência epistolar
nho foi sempre para aquelle ponto onde os vossos
applausos pareciam denotar que se achava o trium-
pho. Guiado pelas vossas acclamações suppunha
que a verdade estava no foco ruidoso e ardente
onde a gloria apparccia.
«Devotou-se-vos integralmente essa alma infantil
e cândida. Acreditou na vossa politica, na vossa
arte e na vossa honra. Ora a vossa politica era uma
intriga de partidos degradante e baixa. A vossa arte
era uma velha convenção doutrinaria e emphatica.
A vossa honra era uma versão da cavallaria feita
com as accommodações necessárias para uso de
burguezes bondosos e pacíficos, — um mixto de
alta barbárie e'de estreita civilisação — os cavallci-
ros da tavola redonda interpretados pelos irmãos
terceiros de S. Francisco.
«Um dia este homem, que fora tantas vezes o
vosso Ídolo, achou-se repentinamente repellido por
vós como um monstro. E todavia elle estava ainda,
então como sempre, na lógica fatal do seu destino.
A sua intelligencia tinha-se-vos sacrificado. Sacrifi-
cou-sc-vos também o seu coração. Nos arrebata-
mentos vertiginosos da sua eloquência, nos denodos
da sua palavra e dos seus escriptos, nos ostentosos
requintes da independência e da isenção, nos re-
pentes mais altivos e mais ruidosos das opiniões e
dos actos, nos mais frequentes e extraordinários
sacrifícios que pôde fazer a abnegação e o desin-
teresse, elle mostrou sempre, nos seus triumphos,
nas suas derrotas, e até na sua derradeira catastro-
phc, que considerava a sociedade uma cousa digna,
austera, inilludivel e sagrada. E eis aqui, resumida-
mente, como no meio das influencias de uma opi-
nião profundamente desorganisada se eleva ou;se
Cor^respondencia epistolar 43
despenha no conceito publico o mais coherente e o
mais honrado caracter !
«Quando é que nos applaudis, e quando é que
nos condemnaes ? K mesma linha de conducta le-
va-nos á victoria e leva-nos igualmente ao abysmo.
O successo é uma charada.
«O tribunal chamado da opinião publica não tem
por tanto razão de ser ; não se pode aceitar, nem
admittir. Uma sociedade que tão claramente pa-
tentêa pelas suas caprichosas incoherencias carecer
dos princípios em que se basêa a fiel, a perma-
nente, a immutavel interpretação do dever, não
tem opinião. A consagração da collectividade das
incompetências, das inepcias ou das maldades é
um opprobrio. Quando quizerdes convencer-nos de
que vos assiste o direito de nos julgar no mal, pro-
vai-nos primeiro que tendes e que exerceis a facul-
dade de nos guiar para o bem. . .»
As deliberações de Vieira de Castro, pro-
fundas e decisivas, eram-lhe suggeridas por
um só oráculo: a consciência d'elle, e só essa.
Não sei se lh*a formara a sociedade, se o ins-
tincto insopesavel. Na craveira da sua honra
não punha mão a prudência nem a razão
alheia. Consuhava-se e arrojava-se para o alto
ou para os abysmos. Em dous dos Discursos
parlamentares transluzem, ou, mais pontual-
mente, formulam-se as suas máximas em actos
44 Correspondência epistolar
aífectos á dignidade: ...Acima de tudo^ o foro
da minha consciência., para cujas sentenças só
reconheço uma instancia superior, que é Deus...
— Porque a crença é puramente o foro intimo, e a
minha consciência respeitável como a consciên-
cia de todos^ e respeitável.^ porque é ella no ho-
mem o sacrário único onde Deus reside., e por
tanto inviolável como todos os sacrários...
Aqui é mais solemne a condição da sua Ín-
dole isenta : Quando tenho de dar um passo na
minha vida publica ou particular^ em questões
de honra e de dignidade, não conheço ninguém
acima, nem abaixo de mim; é a minha consciên-
cia que consulto, e inspiro-me d^ella *.
Quando Vieira de Castro chamava telegra-
phicamente iseu irmão António — a luz, a un-
ção, o amor immaculado de sua alma — a pre-
sença d'este austero caracter não valeria a des-
persuadil-o do desforço resolvido. Sei que An-
tónio Vieira de Castro exacerbando as angus-
tias do infeliz com phrase ou gesto de assom-
bro e reprovação, recuou diante de um impeto
vertiginoso.
Que infinito inferno mandou Deus na se-
guinte noite áquella casa da rua das Flores !
O representante do ministério publico, no
* Discursos parlamentares. Sessão de lo de fevereiro de
i865, pag. 14 e i5. Sessão de 10 de março de i863, pag. 71.
Correspondência epistolar 45
supplicio do julgamento, despojando- se da ca-
ridade, da rectidão e da sinceridade, fallou
assim : José Cardoso Vieira de Castro^ depois
de consultar os amigos a quem relatou o seu
horrivel crime resolveu entregar-se aos tribunaes
e não fugir ; assim ofei depois de dormir mais
uma noite perto do cadáver da esposa.
Dormir ! Que a justiça divina dê uma hora
d^aquelles somnos aos que vestem a toga como
saião de verdugo, e lançam o dardo da calum-
nia a um rosto em que ha lagrimas.
Quem dissera ao delegado que Vieira de
Castro «dormira mais uma noite perto do ca-
dáver da esposa ?»
Ninguém. Inspirou-lh'o assim a musa da
Eloquência. A terribilidade da imagem soc-
correu-o na penúria da argumentação honesta.
Na tela grosseira do entendimento do jury qua-
drou-lhe pintar a esposa morta, e ali perto o
homicida a dormir.
Trapacisses d'esta ignóbil estofa, cá fora dos
tribunaes, chamam-se calumnias, e responsa-
bilisam. Lá dentro, gozam foros de recursos
oratórios ; chamam-se argumentos, e cobrem o
impudor do seu rosto com o capuz da rheto-
rica.
Ah! a noite seguinte á morte de D. Clau-
dina, um só homem nos poderia dizer, mi-
nuto por minuto, como ella correu para Vieira
4^ Correspondência epistolar
de Castro, se esse, que lhe assistiu e o acom-
panhou até ao arraiar da manhã, salvasse a
memoria doesse trance, d'essa vertigem des-
cendente n'uma espiral de dilacerações horren-
tissimas que se elevava até Deus e baqueava
até ao abysmo ora em gemidos abafados, ora
em convulsões de pavor!... Aquella noite, An-
tónio Vieira de Castro, meu excruciado ami-
go!... se a vissem como eu a entrevi, ao tra-
vés das suas lagrimas e da pallidez da sua
face!...
# *
A phantasia dos noticiaristas divulgou um
quadro mavioso em que Vieira de Castro ap-
parecia no fundo da tela, e toda a primeira luz
batia na cara de um padre. Contou-se que um
sacerdote minhoto, amigo do illustre preso
desde a infância, quando soubera da desgraça
do seu companheiro de annos em flíôr, se po-
zera a caminho de Lisboa, desamparando os
parochianos que pastoreava, e fora levar ao
Limoeiro lábios consoladores, olhos trémulos
de lagrimas, cousas divinas da religião de Je-
sus, bálsamos cicatrizantes para feridas de re-
morso, emoUientes mysticos para corações ri-
jos e incontritos : em fim, pintaram o padre de
tal feitio que por pouco me não fui depôs elle.
Correspondência epistolar ^7
a fim de furtar ao meu pobre José uma par-
cellla do amor d'aquelle certo Pollux na hora
incerta.
N'este entretanto o meu amigo, que lera a
noticia, escreveu-me duas linhas risonhas, ga-
lhofando da invenção dos diaristas. Havia com
eífeito um padre que nunca em sua vida co-
nhecera Vieira de Castro. Estava em Lisboa
requerendo uma vigairaria, quando Vieira de
Castro entrou no cárcere. Apresentou-se-lhe
pedindo-lhe o seu valimento no bom despacho.
Fora ao Limoeiro como quem ia seguro de en-
contrar em casa o protector. Depois, como o
despacho se demorasse, e os recursos se ex-
haurissem, ia jantar com o preso; e, por ulti-
mo, quando a sua inactividade intellectual Ih©
pegava de enferrujar as molas da eloquência,
pediu a Vieira de Castro que lhe fizesse ser-
mões.
E, com certeza, o admirável talento e be-
nigno coração do meu amigo fez sermões ao
padre. Escreveu cinco se bem me recordo.
E de todos apenas encontrei, nos papeis vin-
dos de Loanda, um fragmento do sermão da
Soledade. Dizia assim :
«A oração é o elo invisivel que prende o espi-
rito do homem á immensidade de Deus ! é o raio
luminoso que ata invisivelmente a commoçao, a
4^ Correspondência epistolar
supplica, o terror, a gratidão humana, á augusta
complacência, á piedade, á misericórdia divina!
«Rebenta na amplidão dos mares a fúria dos va-
galhões contra a nau, desmastreada já e a pique
de perder-se ; é negro o céo, torvo o abysmo, de
fogo a atmosphera ! Ajoelha, chrisião, e ora, e o
mar ficará de leite, e o céo sorrir-te-ha, e os tro-
vões fugirão á tua prece como o Satanaz das im-
precações ao aspecto das cruzes, e ao echo dos
cânticos sagrados !
«Rasgam-se de repente os seios da terra despe-
. daçada n'uma das suas revoluções geológicas, racham
a pino as montanhas, e sobem das fauces temero-
sos os volcões, e as chammas pavorosas ! O ter-
ror humano ajoelha, e ora. O volcão parou e Deus
pôl-o assim, immovel, esplendido, atado ao seu li-
mite, temeroso ainda, mas inoffensivo, incruento !
«A peste assola as cidades, a guerra extermina
os homens, o ódio aniquila as raças, a natureza
lucta pavorosamente com as artes, os perigos e as
ruinas amontoam-se, a razão desfallece, os braços
pendem sem esperança e sem força ; e tu, homem,
que pedias tudo ao génio, á sciencia, á tua ambição
investigadora, ao teu único explorar; tu ajoelhas
alfim, oras, supplícas, mas com a fé ardentíssima
que transpõe as cumiadas dos montes, e os milagres
resurgem, e as forças voltam, e a esperança rea-
lisa-se, e os prodígios assombram, e assombram-te !
«Orar, orar, christãos, é vincular Deus á nossa
vontade, prendel-o na nossa alma, e ancorar no
seu infinito a barquinha do nosso futuro !
«Mas, se é impura a tua alma e o teu lábio, chris-
tão, quem ha de interceder por ti, com melhor es-
perança de que Deus te escute ?
Correspondência epistolar 4g
«Ah ! no seio onde todos os vicios se purificam,
onde todos os ódios se fazem amor, e a impiedade
se converte em devoção, e a soberba em humil-
dade, e a injuria em blandicias, e a raiva em lagri-
mas ; na que foi sempre virgem, sempre pura, a
encarnação do amor infinito, e da infinita dor !
(Virgem santissima, perdoa, se a minha pallida
eloquência ousa definir-te !)
«No seio d'j&7/a, a Santa das santas ! Ella, amor
infinito, que por isso tem um perdão para cada cul-
pa ! Ella, infinita dor, que por isso já nem outro
bálsamo conhece ás angustias próprias senão a con-
solação das angustias alheias !
«Oh ! a mais sublime de todas as martyres ! Põe
o seu seio á humanidade peccadora e aíílicta, e diz-
lhe : se tens uma supplica para meu Filho, e teu
redemptor, pousa-a em cima das minhas dores ; e
Elle ha de aceitar a tua supplica para não aggrava»
as dores da mãi !
«Dores de Maria ! Oração christã que pões n'es-
sas dores a tua esperança, que maior apotheose do
que explicar-vos assim, poderá fazer-vos a palavra
humana ?
«A oração, senhores, é toda essa immensidade
de confortos, de glorias e de sentimentos puros,
cuja virtude eu profundamente sinto, e pessima-
mente explico !»
As cartas de Vieira de Castro são a voz que
vem de além-mundo chorar ainda á beira da
sepultura de sua mulher.
VOL. 1 A,
5o Correspotidencia epistolar
Se elle vos não disse nunca o entranhado
amor que lhe tinha, vêde-o n^essas confissões
a um homem, um dos mais Íntimos seus, o
mais valido nas suas magoas, e ainda o mais
secreto confidente nas excellencias e nos de-
feitos da sua compleição.
Como as cartas, a cada pagina, descrevem
o que havia communicavel e exprimivel na sua
desgraça, estou dispensado de tentativas mal-
logradas. Se Othelo escrevesse quatro linhas,
depois da catastrophe, essas diriam mais que
a tragedia do seu immortalisador.
Das oitenta e seis cartas, que possuo, parte
d'ellas foi queimada quando escolhia as im-
j^ressas n'este livro. Eram umas em que elle
antepunha a palavra confidencial^ porque ha
dores que um desgraçado revela a outro, quan-
do se entra da desconfiança que Deus o não
vê nem ouve. Mas as restantes são muitíssi-
mas, porque os dias do martyrio foram muitos
e o martyr a miúdo encostava a cabeça no meu
peito.
Não posso publical-as chronologicamente
como foram escriptas, e em perfeita ordem,
porque as do anno de 1871 não tem data.
Dir-se-hia que as horas, os mezes, a luz e a
noite, o tempo, em fim, parara para o homem
empedrado entre duas voragens.
As que eu lhe escrevi numerou-as elle até
Correspondência epistolar 5i
cento e quarenta e quatro; mas, os espoliado-
res dos haveres de Vieira de Castro, em Loan-
da, guardaram quatorze. Eram provavelmente
pessoas amantissimas do dinheiro dos mortos
e dos autographos dos vivos.
Uma das omittidas e mais plangentes cartas
que elle me enviou do Limoeiro está datada
no dia em que uma bem composta matrona
acaudilhando outras menos gafas alli entrou
para o insultar.
Decorridos poucos dias, o fogo, que lhe vul-
canisára o cérebro, esfriara. O penitente sorria
para o fundo do cálix, que offerecia aos ma-
nes da esposa vingada pelas Eumenides. Elle
mesmo vos conta a sua ternura, e descreve se-
renamente esse lance, que nos mette em riste
a ferocia dos tempos de bronze com a pregoa-
da caridade de hoje em dia. Eis as palavras
do grande infeliz, no ultimo anno de sua vida,
as ultimas que escreveu e imprimiu na sua pá-
tria:
«Succedêra isso n'um cárcere, no dia em que en-
trava Deus ás cellas dos encarcerados. Era o dia
da communhão, o dia em que as portas das prisões
recuam de par em par a dar passagem á hóstia
consagrada, o symbolo da reconciliação entre a
culpa do homem e o perdão de Deus.
«Contra os ferrolhos de um d'esses cubículos tu-
multuavam as mulheres e tumultuava nos lábios d'el-
^2 Correspondência epistolar
las o riso, o ultraje, a curiosidade insultadora, o
despeito mal reprimido. Dentro d'esse cubiculo mo-
rava um desgraçado immensamente respeitável.
«Era um homem de 32 annos, e que ao tempo
da sua idade acrescentava já outros dez annos de
degredo, que elle aceitara com a mesma tranquilli-
dade com que esperava ainda mais cinco que, an-
tes de nova sentença, o consenso unanime lhe pro-
phetisava e promettia. A curta historia de sua vida,
c a immensa catastrophe da sua ultima data, esta-
vam amplamente publicas. N'uns melancólicos tra-
ços se pôde contrahir essa historia. Propiciára-o
Deus para que desde os 19 annos, por uns movi-
mentos apaixonados de sua alma, assignalasse sym-
pathicamente a sua carreira entre os moços da sua
pátria. Por vezes a fortuna lhe sorrira. Também
por vezes brincara com elle a gloria. A final um
dia uma labareda estúpida se atêa com todos os
materiaes do seu auspiciado destino, e ao sumir-se
nos ares a derradeira chispa do pavoroso incêndio,
veio a saber-se que com as cinzas evoladas para as
nuvens do Senhor subira também a esposa estre-
mecidissima d'elle, d'elle que ficara alli de pé, cal-
cinado, com tudo queimado dentro de si, e podendo
ver com os olhos do rosto n'aquellas carbonisadas
ruinas todo o interior de sua alma, do mesmo modo
com que horas antes contemplava na vida palpitante
d'esses lemures o céo todo inteiro da sua felicidade
sem balizas ! Sabia-se que esse homem, desgraçado,
ou louco, se atirara de cabeça para o fundo n'uma
voragem sem redempção ! Soubera-se também que
amara immensamente, e que para salvar a immen-
sidade do seu amor n'uma memoria e n'um perdão,
bem ou mal, crera que lhe cumpria abrir uma se-
Correspondejicia epistolar 53
pultura d'onde, como n'uma taça, Deus recebesse
para o seu seio uma existência que já não tinha
thalamo na terra, e que depois, com essa sepultura
defendida pelo seu peito, assim se quedara sempre,
firme, tranquillo e mudo, deixando que repetidas
vezes contra si se esgotasse o montão de pedras ás
mãos da calumnia e do ódio. Tudo isto era sabido,
e muito mais.
«Quando esse homem appareceu diante da jus-
tiça, e da lei, deram-lhe a palavra para defcnder-
se, e elle pediu, instou, supplicou que lhe não infli-
gissem o mais acerbo dos tormentos, na palavra,
que tantas vezes lhe fora contentamento e jubilo
bom ou mau orgulho. Só mais tarde quando lhe
leram o veredictum que importava a pena do seu
desterro, então sim, resurgiu serena a sua physio-
nomia, e a sua voz, sem affectação nem ironia, na-
tural e firme, pôde agradecer ao jury as delibera-
ções que o condemnavam. Por uma mutação pro-
fundamente commovedora, e de enternecimento
singularissimo parecia que o magistrado presidente
do tribunal lhe tomara conta das lagrimas, em
quanto fallava. Era certo que em vez do réo era o
juiz que chorava. Tudo isto fora sabido.
«No dia immediato o assombroso causidico d'esse
homem, tomando forças da mesma angustia que o
seu cliente lhe inspirava, consolava-o dizendo-lhe a
propósito de uma resposta a um quesito: «Fizeram
a maior justiça ao teu caracter: aquella resposta foi
uma veneração para ti e para as tuas memorias!»
E o cliente redarguia: «Meu querido amigo, crê
pela salvação da minha alma, eu senti em mim o
virtuoso desejo de beijar a mão a cada um d'aqucl-
les jurados cuja pena lavrou o meu direito de jul-
54 Correspondência epistolar
gar quem eu matei.» E Jayme Moniz, tremulo, ex
citadissimo, cresceu com a sua luminosa fronte aci-
ma dos hombros, nos do seu cliente, apoiou e es-
tendeu em duas parallelas os seus braços longos e
nervosos, e fitando bem nos olhos d'elle os seus
olhos inundados de dor e de enthusiasmo, disse-
Ihe n'uma apostrophe cortada por um gemido: ^Do
que eu tenho profunda pena é de te vêr perdido para
a palavra do meu paii /» Tudo isto era também sa-
bido.
«Quando esse homem se levantava pela ultima
vez ao cabo de três dias do seu julgamento, todo
o mundo ouviu silvarem-lhe aos pés, esganadas no
seu derradeiro estertor, as cabeças das viboras com
que por mais de meio anno o enfaixou a calumnia
impunemente, e sem nenhum desforço d'elle ; e an-
tes d'isso ouvira pela sua honra jurar o seu defen-
sor que aquelle réo lhe pedira de joelhos que só
n'esse triumpho pozesse a mira, que por parte d'el-
les dous de mais nada se curava n'aquelle tribunal,
e que abandonasse o seu delicto vivo, inteiro e pal-
pitante nas garras famélicas dos seus delatores. Era
tudo isto sabido.
«Findo esse julgamento, o silencio que o prece-
dera nos prelos destemperou n'uma trovoada inces-
sante. Os protestos conglobaram-se de toda a par-
te. Havia um homem condemnado, mas ninguém
queria que o julgassem capaz de igual severidade.
A's portas do tribunal confessavam todos que uma
votação de todos seria favorável ao condemnado.
Pelas senhoras das galerias affirmou uma que alli
teria unanimidade a absolvição. Ao cárcere corre-
ram no dia immediato caracteres dos mais puros,
pares do reino entre elles e dos mais considerados
Correspondência epistolar 55
na honra publica, a confessar que iam alli em pe-
nitencia de se haverem deixado illudir pela infâmia.
De toda a parte as adhesóes e as lagrimas. Das
ilhas portuguezas, de todas, os manifestos mais
vehementes, mais apaixonados, mais affectuosos e
estremecidos.
«Ainda na véspera, de uma d'essas ilhas, de An-
gra do Heroismo, um diploma popular, no qual se
alardeava que era a desgraça a que aquelle povo
escolhia com amor para se acercar do vulto d'ella.
Da America ouro e brilhantes postos sobre a for-
mosa cabeça aonde se gerara a apotheose para o
caracter illibado e redimido! — Tudo isto era sa-
bido também.
«O dia da pavorosa scena do cárcere fora o dia
8 de maio, do mez primeiro que tu amarraste á tua
chronica. Mas esse dia, sabes tu, fora o mesmo
que doze mezes antes afogueara o quadrante a
chamma d'aquelle grande incêndio do desventura-
do. Era o primeiro anniversario do seu trespasse
d'elle, a que o destino, por umas cruezas sem me-
moria, quiz que o próprio morto ficasse assistindo
em vida pelo tempo adiante.
«Que dia! que horas as d'esse dia! que momen-
tos os d'essas horas ! que instantes n'esses momen-
tos! A pancada dos relógios das torres coava-lhe
aos ouvidos as betas candentes d'aquelles mesmos
sons no mesmo dia do anno extincto. O ar revolu-
teava, e redemoinhava em derredor d'elle, como
alguma cousa espavorida, e enleava-o, abraçava-o,
enroscava-o, para lhe triturar lentamente, e fio a fio,
as fibras da alma e as do corpo. Era o anniversa-
rio de sua própria morte, alguma cousa de mons-
truosamente internai na escaleira dos nefandos mar-
56 Correspondência epistolar
tyrios. Por isso, e só por isso, eu te diria que era
immensamente respeitável esse infortúnio. E não
era ?
«Mas mais, a cclla d'aquelle preso é que era sa-
cratíssima ! Porque dentro d'ella guardava um de-
posito seu a justiça humana, e fora velava por esse
deposito a providencia dos sentenciados. Vá. Diga-
me a tua alma se ha arca no mundo para resj)eitos
mais altos. Pois bem. Umas mulheres houve que
apodreceram todas essas memorias e tradições ao
tábido hálito de suas almas obduradas, esbofeteando
a Providencia á porta d'aquella cella, e assobiando
lá para dentro, no seu escarneo, em horas mais
longas que a eternidade, a gargalhada e o ultraje.
Grupos de mulheres, entendes ? Não havia, não
houve nunca um homem no meio d'ellas !
«Pensarás que estou atraiçoando a verdade em
favor da minha refutação. Bem. Dou-te uma tes-
temunha insuspeita. E' do funccionalismo, e das
letras como tu; ha quatorze annos escriptor.
Chama-se o dr. Ferreira da Gosta. D'elle ouvi-
ram uns, que m'a recontaram a mim, a seguinte
scena.
«O teu collega teve de abrir passagem contra
a onda, e não sei se ao pôr a mão nos ferrolhos
da porta involuntariamente prendeu as mechas sol-
tas da ultima cabeça que a curiosidade revezava
na clareira da chave. Entrou. O amigo d'elle, e o
teu, estava só, de pé, com o punho esquerdo a am-
parar-lhe o corpo, fincado sobre a carta interrom-
pida em que o preso estava enthesourando para su^
mãi as lagrimas d'aquelle dia. Vêl-o foi o mesmo
que lançar-se-lhe nos braços, e exclamar-lhe quasi
desabridamente : «Obrigado, meu velho amigo, sal-
Correspondência epistolar 5y
vaste-me de enlouquecer, quem sabe ?» E o dr.
Ferreira da Costa disfarçou por longo tempo a im-
pressão estranha das respostas incongruentes que
lhe dava o desgraçado. Pergunta-lhe como elle o
viu, como por 6o minutos o teve diante de si, e
quantas vezes o outro lhe repetia, mesmo diante
de quem mais chegou depois : «Tu não sabes, nem
eu talvez, o bem que me fizeste. Foi Deus que te
guiou aqui.»
«Já ahi estava o homem que eu te oífereço,
quando se passou o caso que vou referir-te.
«Os i5 degraus da escada que defronta com a
cella do teu amigo estavam tomados por um ran-
cho gracioso e alegre de meninas louras, que do
alto do patamar dominava uma mulher enorme, a
qual d'alli lhes atirou para cima da alegria d'ellas,
e do seu chilrear despreoccupado dos pensamentos
da outra, as seguintes palavras, textuaes : Então !
tem lá dentro umas tahoinhas, e um tapete ? Quem
lh'as substituirá por um chicote !
«Ha apostrophes que são como os tremores de
terra, fazem o terror e o silencio. As donzellas fi-
taram-se melancolicamente, e uns dous infelizes,
companheiros do preso, que sem perceberem a ma-
levolencia de uma pergunta tinham confirmado o
que a mulher asseverara, sahiram d'alli com os ou-
vidos queimados pelo simoun da asquerosa contu-
melia bufado dos lábios da Tesyphoné !
«E as meninas desceram a escada, por onde pa-
teou atraz d'ellas a mulher do tal dito. E mais
adiante, consternadas, e rodeando-a, perguntaram-
Ihe ellas, que historia tão má era a d'esse preso
que tamanhas severidades aífrontava. E a velha,
porque era velha essa mulher, lá foi contando, ao
58 Correspondência epistolar
que parece, a historia pedida, áquella innocente e
indefeza colmêa de noivas futuras J»
Não se olvide uma pagina também pere-
grina d'aquelle talento, inflexível ás torturas.
O Club Angrense enviára-lhe n'aquelle mesmo
dia o diploma de sócio honorário. Vieira de
Castro, retrahindo as lagrimas sob a mão de
bronze da sua honra, escrave a seguinte carta
de agradecimento, assombrosa de magoa, de
paixão e conformidade:
Snr, presidente da assembléa geral do Club Po-
pular Angrense, — No dia 7 do corrente mez de
maio recebi das mãos do ili.'"" snr. Joaquim Coe-
lho de Andrade e Santos a carta com que v. exc.^
se dignou remetter-me o diploma de sócio honorá-
rio do Club Popular Angrense, encarregado pela
assembléa geral do mesmo club.
Quantos motivos, exc.'"*^ snr., se accumulam
para que esta honra tenha o melhor lugar do meu
coração! Entrou ella a alumiar as minhas trevas no
dia em que as dores do meu infortúnio renasciam
na sua máxima intensidade pela commemoração do
seu primeiro anniversario. Vinha enviada d'uma
cidade por ventura a mais fidalgamente brazonada
entre as relíquias históricas d'esta nossa pátria, e
Consciência, por Samuel.
Correspondência epistolar 5g
a mais estremecida nas tradições da minha familia
desde que meu querido e chorado pai, o snr. Luiz
Lopes Vieira de Castro, ahi deixou nas saudades
de todos os corações, e d'ahi trouxe com as suas,
o nome abençoado e estimadissimo de magistrado
integerrimo. Procedia, não d'um individuo, d'uma
d'essas raras almas que pousam por milagre nas
grades dos encarcerados a apontar-lhes o pequeno
ponto do céo retalhado por ellas, mas de muitos
individuos, da alma coUectiva composta de muitas
almas, que eu sinceramente penso e creio que deve
de ser enxame de espíritos de eleição, para virem
assim tão condolentemente, até á ante-camara da
sepultura d'um homem quasi morto, a pousar-lhe
com a maior dignidade, e com o máximo carinho,
o bálsamo de suas confortativas honras no vivo das
suas chagas !
Depois, exc.™*^ snr., succedeu ainda que, no dia
immediato áquelle em que eu recolhia nas minhas
mãos e no meu aífecto o vosso alto testemunho,
por occasião de se celebrar n'esta cadêa a exposi-
ção ostentosa das physionomias e dos nomes, das
naturaUdades e dos crimes dos desgraçados irreme-
diáveis, se atropellaram afora do meu estreito cár-
cere não sei quantos grupos de mulheres sem cari-
dade, as quaes sibilavam pela fechadura da minha
porta os ditas da sua curiosidade insultadora,
rematados pela apostrophe impudente de uma,
cujos cabellos brancos tornavam mais negra a sua
cólera, e que eu aqui não ponho em escripta por
honra de todas as mulheres nascidas que não são
aquella, e por interesse da minha desgraça que re-
serva para as suas contas íinaes com Deus o preço
d'esse nefando insulto desacompanhado dos casti-
6o Correspondência epistolar
gos com que certamente o infamariam todas as al-
mas piedosas, se por ventura o conhecessem, mas
attenuando assim, o que não quero, as dores com
que eu o devorei na minha solidão e no meu silen-
cio.
Nas superstições da minha desgraça chego ás
vezes a suppôr, ex.*"'^ snr., que as honras que eu
de vós recebia no dia 7 eram já providencial ante-
paro contra os convicios do dia 8.
Por todos estes motivos eu peço ao exc.'"" snr.
presidente da assembléa geral do Club Popular
Angrense faça bem scientes os seus consócios do
muito em que a minha alma transborda de gratidão
pelo alto favor com que me distinguiram, e que
terá sempre dos primeiros lugares ao lado de ou-
tros favores em que Deus tem permittido que se
ampare o meu infortúnio.
Permitta porém v. exc.*^ que eu agradeça, mas
não aceite, as palavras finaes da carta de v. exc.^
com que em seu nome, e no da assembléa geral
do Club Popular Angrense, se digna exaltar o que
fui, no meu passado, entre os littcratos e os politi-
cos do meu paiz.
Gomo escriptor, o mais medíocre de todos, eu
pude apenas deixar consignado nas ultimas paginas
escriptas na minha felicidade, o voto espontâneo,
sincero e crente pela futura republica. Gomo poli-
tico, e orador favorecido pela attenção dos seus
auditórios, apenas me coube a alta honra de defen-
der sempre, quanto em mim cabia, a causa da de-
mocracia e do povo portuguez, e a coragem so-
menos de accusar por vezes, violentamente no par-
lamento e nos comicios populares, a causa das
monarchias e dos reis.
Correspondência epistolar 61
Creia v. exc.% e a assembléa geral do Club Po-
pular de Angra do Heroísmo, que eu os tenho a
todos na minha mais intima consideração e estima*
Deus guarde a v. exc.^ — Cadêa de Lisboa, 10
de maio de 1871. — José Cardoso Vieira de Castro.
Exc.^^*^ snr. Matheus Augusto, presidente da
assembléa geral do Club Popular Angrense.
Hoje recebo de Victorino da Motta, dilecto
amigo de Vieira de Castro, uns threnos que
choram sobre a immorredoura memoria do
martyr. Eu não tenho, além do coração, lugar
de maior honra que lhe dê a estas paginas
que vem ungidas de lagrimas, senão este livro.
Victorino da Motta privou com Vieira de
Castro como de coração para coração, como
dous. talentos desabrochados á um tempo, flo-
rescidos no mesmo abril, amantes dos mesmos
livros, sonhadores da mesma felicidade.
Que entranhados e tantissimos amigos teve
aquelle adorável desgraçado!
Dobar-se-hão os annos. Aquelles, que hoje
lhe dão vida nas suas recordações dolorosas,
terão passado, e Vieira de Castro será ainda
pranteado na historia da tribuna pátria, na
harpa do poeta e nas formidáveis cóleras da
tragedia.
02 Correspondência epistolar
Nas dores d'aquelles que o amaram, a pos-
teridade, desempeçada dos rancores que ainda
hoje se assanham nas trevas, comprehenderá
quanto Vieira de Castro foi honrado e querido.
«Swr. Camillo Castello Branco.
«E' o nome que vai escripto no topo.d'estas pa-
ginas, e não o signatário d'ellas, que pede a v. ac-
ceite este modestissimo trabalho.
f A memoria do* nossa amigo, e a minha saudade
infinda, serão bastante garantia para que v. acolha,
sob a égide do seu talento, estas singelas recorda-
ções dos seus humildes camaradas de ha i5 annos,
na redacção do Atheneo,
«A V. como o mais prestimoso amigo do desgra-
çado que choramos, e como mais estrénuo defen-
sor das suas altas virtudes, serão consoladoras to-
das as reminiscências d'aquelle martyr.
tSou, etc.
<iA, Victor ino da Moita,
JOSÉ CARDOSO VIEIRA DE CASTRO
tLevantemos uma lapide tumular, escondida nas
arêas ardentes do solo africano.
«Jaz ahi a ossada de um vulto enorme, que nas-
cera para ser uma das mais brilhantes glorias da
sua pátria, e a quem a fatalidade arrastou á infini-
dade do infortúnio.
«Talento vigoroso e esplendido acareára a admi-
ração enthusiastica do povo pela sua eloquência
Correspondência epistolar 63
tribunicia: grangeára o respeito publico pela sua
probidade immaculada ; merecera a sympathica de-
dicação de todos pela cultura esmerada do seu ele-
vado espirito.
«Entre os braços da familia que elle amava e os
carinhos da mai que o estremecia, acordava sempre
na ante-manhã de venturas ridentes.
lAfastado das lides insanas da politica militante,
acercava-se da feliz atmosphera que o rodeava, e
inspirava ahi o oxygeneo da sua felicidade.
«Julgava-se venturoso.
cMal diria elle que as flores viçosas da sua pri-
mavera se enlaçariam em breve a um ramo fúnebre
de cypreste.
«Mal pensaria o desventurado que ao mavioso
canto do rouxinol se succederia um furacão tremen-
do, espantoso, medonho.
«Nos limpidos horisontes do seu futuro não se
divisava um floco de nuvem, que lhe prenunciasse
um desprazer.
«A opulência da ventura tornava cada vez mais
espesso o véo que encobria o sudário da sua des-
graça.
«Aquelle coração abrazava-se em sede de gloria.
«Não saciado ainda com os triumphos alcançados
no parlamento do seu paiz, foi procurar á America
novas ovações.
«O tracto da peninsula era curto para fartar as
aspirações vastas d'aquelle grande espirito.
«Ura dia, quando a capital do império brazileiro
pasmava diante do verbo eloquente de Vieira de
Castro, illuminaram os esplendores do seu génio o
rosto d'uma mulher formosa.
«Amaram-se.
64 Correspondência epistolar
«As procellas do espirito cambiaram-se em tem-
pestades do coração.
cBafejavam-lhe as auras tépidas d'aquelles paizes
um porvir de fortunosa bonança.
«A aureola de gloria permutou-se em coroa de
noivado.
«Entre-abriam-se as rosas para lhe oífertarem os
seus aromas rescendentes^ aplacaram-se os mares
para navegar sereno o barco que os conduzia ; pra-
teára-se a lua d'um brilho ineífavel para levantar
os relevos d'uma physionomia angélica.
«A noiva feliz e orgulhosa pisava na sua passa-
gem tapetes de Suza, e repousava languidamente
a cabeça sobre ottomanas d'ouro.
«A America do norte abrira os seus portos aos
viajantes felizes, e offertava-lhes a vastidão de suas
florestas virgens para theatro dos seus idyllios de
amor.
«Raiava-lhes nos horisontes de todas as latitudes
o sol da felicidade.
«No Novo-mundo ou na Europa, nas cidades ou
nos desertos, nas florestas ou nos mares, apparecia
sempre a esteira da mais prospera ventura.
<De Nev^-York escrevia elle a um amigo seu :
uMeu querido V.
«Sinto-me extremamente feliz.
«Tenho uma mulher que me estremece e a quem
eu beijo até á fímbria dos seus vestidos e até nos
vestigios dos seus passos.
«Receio que venha alguma nuvem negra toldar
este éden de supremas felicidades.
«Não me esqueço nunca de ti.
Correspondência epistolar 65
«Entre as caricias da mulher e a dedicação de
um amigo, como tu, ha uma distancia cheia de sau-
dades pelo teu coração.
«Mando-te o nosso retrato.
«Parto brevemente para Portugal.
«Junto do meu berço, quero aberta a minha se-
pultura.
«Adeus.
«Abraça por mim as tuas formosas criancinhas,
e lembra-lhes todos os dias o nome do teu hospede
impertinente de ha 4 annos.
«Vou residir na quinta de minha mãi, em Morei-
ra, perto do Porto. Quero vêr-te alli e abraçar-te.
«Escrever-te-hei logo que chegue a Lisboa.
«Teu velho amigo
(íJosé.T>
«Singrava rápido, pelas aguas do Atlântico, o
navio que embalava durante a viagem, em ondas
de meiga ternura, os cônjuges afortunados.
«A quinta de Moreira estava esplendidamente
preparada para os receber.
«Desprendido das ambições da gloria e afastado
das vicissitudes da politica, sequestrára-se do buli-
cio do mundo, alimentando-se do amor da esposa.
«Ao mesmo amigo, que lhe noticiava a morte do
pai, respondia elle de Moreira :
a Meu querido M.
«A's tuas desgraças respondem as minhas. Cho-
ro a morte de meu sogro, a mais bella alma que
conheci no mundo, e o melhor amigo que eu tive.
VOL. I 5
66 Correspondência epistolar
«Foi para mim uma grande perda !
«Nunca te esqueci, meu querido. Muitas vezes
recordo o teu nome.
«Doia-me até a lembrança de que te não hou-
vesse chegado ás mãos o retrato que te mandei de
New- York.
«Tenho immensas lagrimas para o óptimo velho
de teu pai.
«Estou a ver aquella santa physionomia, que
nunca teve uma levissima ruga para o hospede im-
pertinente do filho.
«Como vossês se pareciam!
«N'isso éreis ambos árabes !
«Eu não apago nunca do meu coração os dias
bons da tua casa.
«Também choro a tua santa mãi.
«E talvez façamos mal.
«Quem sabe se, elles por sua vez, chorarão lá
em cima esta nossa estúpida peregrinação ?
«Não tenho aqui os meus livros.
« Mandar- te-hei — Discursos parla meutares, — Dis-
curso da caridade, — Republica, e o Discurso do
meeting do Porto.
«Eu parto para Lisboa por todo este mez, e ten-
ciono fixar alli a minha residência por alguns mezes.
«Se tens de vir ao Porto e queres dar-me uma
grande consolação, vem a tempo de passar commi-
go alguns dias.
«Para ti, para tua esposa, para as tuas filhinhas
e antigas amiguinhas minhas, muitos affectos nos-
sos, meus e de minha mulher.
«Adeus. «Teu amigo
{<José,9
Correspondência epistolar òy
«N'estes tempos, ainda as lagrimas do infortúnio
se não vertiam no cálix das flores murchas da sua
primavera !
«A ambrósia e o néctar distillavam-se dos lábios
da esposa em dulcissimos beijos e em sorrisos ca-
rinhosos.
«Gastava-se depressa a vida n'aquella febre de
affeicÕes vehementes.
>
«A formosa Lisboa encampava, com ares de
rainha do mundo, ás velleidades da indigena da
America.
«Assentiu desgostoso ás exigências da esposa o
marido imprevidente.
«O Tejo desdobrava-se em fitas de prata. Lisboa
sorria-lhe ao longe com os seus theatros e as suas
soirées esplendidas.
«O brilho da corte apparecia-lhe em sonhos, como
fascinação deslumbrante ; e depois. . . partiram.
«Os grandes crimes é força que sejam perpetra-
dos nos grandes centros.
«A'quella alma impudica era mister um vasto
theatro, onde fizesse plena exhibição da sua immo-
ralidade.
«O desgraçado seguia imprecavido a estrada da
sua desventura.
«Confiado no amor da mulher, que todos os dias
lhe mentia a fé d'um amor jurado, caminhava im-
perterrito atraz da sua desgraça.
«Semelhava um sahimento fúnebre, precedido
por um demónio, que arrastasse na sua cauda a
ossada de um cadáver.
«Um dia, varou-lhe o craneo uma suspeita negra.
«A monstruosidade d'um nefando crime depa-
rára-se-lhe vultuoso, agigantado e informe.
68 Correspondência epistolar
«Amedrontava-o a terrível realidade, e o hor-
rível despertar d'um sonho feliz. . .
«O cérebro queimava-se em torrentes de lava
destruidora, e o coração refrigcrava-se, ainda, nos
frescores da esperança.
«A duvida era um supplicio atroz ; e, do cume
d^essa montanha enorme, era forçoso descer para
os jardins de suprema felicidade, ou precipitar-se
nos abysmos d'uma terrível verdade.
«Era certo o opprobrio : o precipício abría-se-lhe
temeroso, mas, para aquelle génio de fogo, não havia
a hypothese de uma vacillação, sequer.
«A voragem d'uma cratera começava a sorrir-
Ihe seductora, e a fascinação do abysmo attrahía-o
irresistivelmente.
«N'aquella organisação violenta cada impressão
era um abalo, e cada sensação uma paixão.
«Sentia pulsar as artérias e correr o sangue nas
vêas, e assemelhava as suas funcções physicas a
uma perpetua tempestade interior.
«Começou então uma lucta tremenda entre a di-
gnidade e o amor.
«A cabeça refervia-lhe n'um remoinho de pensa-
mentos ínfernaes, em quanto o coração transbor-
dava de misericórdia e de perdão.
«A tempestade bramia por sobre aquella cabe-
ça desvairada, e fulminou uma existência serena e
feliz.
«O raio estalou, abrindo no rastro de fogo duas
sepulturas.
«Foram poucos, os que poderam apalpar as ago-
nias excruciantes d'aquella alma dilacerada.
«Poucos dias depois do succedimenio nefasto,
que lhe toldara para sempre as manhãs da vida.
Correspondência epistolar 6g
escrevia elle a um amigo, orvalhados com lagrimas,
os periodos que seguem :
«Ai, meu filho, tu que foste, e que de certo és
marido, como eu sei, adivinha qual será a consola-
ção derradeira de uma existência, que mostra para
um ponto do céo os seus braços presos pelas gra-
des d'um calabouço, a um espirito que se amou
immensamente, e que deixou de si, para memoria
eterna, um céo e um inferno ; o céo de umas ale-
grias phantasiadas, immorredouras, o inferno, onde
tudo isso foi lambido por uma labareda estúpida !
«Deixa-me correr estas lagrimas. Perdôa-me, se
desvairo.
«No teu peito ponho eu todos os meus gritos,
como elles se me alevantam da alma despedaçada.
«O que eu queria dizer-te, é que tenho sido eu
que tenho confortado os meus amigos contristados.
«Não te atormentes, pois, meu irmão de ha 5
annos!»
«Ninguém ha ahi que desconheça as ingentes
agonias, que estrangulavam aquella grande alma
nos cárceres do Limoeiro.
«Era o dia 8 de maio.
«Essa data recordava ao desventurado um terrí-
vel anniversario.
«Um anno antes contara elle, n'esse dia, as ho-
ras por séculos infindos e os momentos por com-
pridas eternidades.
«Foi n'esse dia que se incendiou um thalamo
nupcial, devorando, na sua chamma esverdeada, duas
opulentas existências.
«Foi n'esse dia que se cavaram duas sepulturas.
70 Correspondência epistolar
immensas como sorvedouros, que enguliram, pelas
suas largas gargantas, duas formosas creaturas.
«N'esse dia, depositava o desditoso as lagrimas
de seus olhos nos seios de sua extremosa mai,
quando lhe pareceu ouvir os sons de estridulas
gargalhadas a repercutirem se nos corredores do
cárcere.
«Era feminino o timbre das vozes que chasquea-
vani e que riam!
»E' que esse dia era de festa na prisão.
«Abriam-se escancaradas as portas do Limoeiro
para dar passagem á hóstia consagrada, symbolo
de redempção e amor para as almas atribuladas.
«Accorreu de tropel, e em chusma, a turba das
mulheres honestas da capital, ás portas d'aquelle
medonho antro.
«Arreceavam-se de transpor os áditos da mas-
morra as virtuosas matronas.
«Segredava-lhes a consciência que, nas suas cos-
tas, se correriam os pesados ferrolhos da prisão.
«O appetite do insulto despertou-lhes a coragem
tibia, decretando vilipendiar o desgraçado.
«Entraram. . .
«A' porta da cella estreita, que fechava a liber-
dade a um dos maiores desgraçados d'esta década,
redemoinhavam e contorciam-se como serpentes
essas hordas de mulheres famintas de curiosidade
desbragada, que se arremettiam, agglomeravam,
aggrediam, acotovelavam e arrojovam para se subs-
tituírem á clareira da fechadura.
«Este bando de megeras ia levar ao calabouço
do condemnado a maldição do insultuoso escar-
neo.
«Nos lábios d'essas pesiaes, resequidos já pela
Correspondência epistolar 7/
hediondez do vicio, pairava a negrura da zombaria
e da mofa.
«O desventurado aspirou até ao cabo essa atmos-
phera d'impropcrios, de mistura com os gazes pesti-
lentos d'aquellas boccas podres e corrompidas.
Publicou-se mais adiante, em Lisboa, um opús-
culo que o author, penna vigorosa e enérgica, ap-
pelidára Consciência.
«Vem escriptas aili com absyntho, as dores que
acicataram n'esse dia aquelle pobre coração.
«Ouçamos por momentos os gritos angustiosos
d'aquella alma esphacellada *. . .
«Ahi estão os lamentos do martyr agonisante nas
paginas da Consciência.
«Era ignóbil aquclla cruz para se arrastar ao
cume do Calvário! .
«Era aquclla sccna própria d'um canibalismo es-
túpido e vergonhoso.
«As pantheras espreitavam as viagens da victi-
ma, que se contorcia em dolorosas angustias, e
escutavam os gemidos estertorosos do martyrio,
que lhe infligiam as suas aduncas garras !
«E' mister uma heroicidade santa para curtir em
si aquellas dores terebrantes.
«Caracter brioso e altivo, nunca pensara domar-
se ás bofetadas ignominiosas da plebe latrinaria.
«Era muito outro então o tribuno vehemente.
«Alquebrára-lhe a desventura a valentia do gé-
nio, e passara uma lima grossa por sobre os picos
alcantilados da sua vaidade.
«A audácia do homem que affrontára afouto as
* Eliminamos os períodos que eram parte das pungentes
paginas que já deixamos trasladadas da Consciência.
7^ Correspondência epistolar
tempestades do parlamento, e que se alevantára
enthusiastico nas salas da universidade, succumbia
débil, e curvada, aos apodos das mulheres devas-
sas.
«E' que a chamma da desgraça havia lambido
as azas á altaneira águia.
«No mesmo dia em que foi julgado, dirigia elle
a um amigo velho a carta que segue :
«Lisboa. — Sabbado.
<íMeu querido filho,
«Sahi do tribunal condemnado e honrado.
«Estou bem com Deus, com a minha consciên-
cia, e com os homens, a quem não tenho ódio.
«Desejo partir quanto antes.
«Não poderei abraçar-te, meu querido amigo !
«Deus nos dê vida e saúde, e poderemos ainda
consolar as nossas velhices com tantas recordações,
que me estão afogando o coração.
«Recebi o teu telegramma.
«Beijo-te c abraço-te.
«Adeus, meu filho.
«O céo não desampara todos os anjos d'essa
casa, que se me está toda repetindo na memoria
com pungentíssima pena.
«Adeus, meu querido.
«Teu do coração
(kVieira de Castro*
«Aquella alma recebeu contente no pescoço a
corda do suppliciado, mas repelhra para longe de
si, as nojentas calumnias, e as injurias contumelio-
sas d'uma raça infame de detractores.
Correspondência epistolar i3
«O jury quebrara os dentes ás víboras que que-
riam mordel-o na sua reputação immaculada.
«Jayme Moniz, o talentoso académico, disse ao
condemnado no dia do seu julgamento : «Fizeram
a maior justiça ao teu caracter •, a resposta do jury
foi uma veneração para ti e para as tuas memo-
rias ; mas do que eu tenho immensa pena, é de te
ver perdido para a palavra do meu paiz !»
«Mais tarde enviava elle ao seu inconsolado amigo
os tristes períodos que se seguem :
^Meu querido amigo,
«Só hoje te respondo, mas todos os dias tenho
contemplado a Providencia na tua carta.
«Grande alma a tua, nobre e grande coração o
teu, meu velho !
«Não sou de todo infeliz.
«Não o é aquelle a quem Deus concede vêr, á
luz do máximo infortúnio, a mais apaixonada das
dedicações.
«Abraço-te e beijo-te, minha adorável fronte,
aonde se pousaram as derradeiras vistas da minha
vida de rapaz !
«Mas não, meu filho, não digas mal d'esta socie-
dade, que me condemnou.
«Podia talvez ser menos deshumana, podia, mas
não digas que foi injusta.
«Castigaram o meu delicto, mas salvaram-me das
injurias, com que me crucificava a maldade e a
mentira.
«Sei^ que me deviam a reparação, mas podiam
convencer- se da minha justiça e escondei a.
«O mundo dá sempre tão pouco, que é preciso
agradecer-lhe isto, que é muitíssimo !
']4 Correspondência epistolar
«Ha de consolar-te saber uma cousa.
«A desgraça fez-me bom.
aSinto melhor a minha alma pela dor; vejo mais
claro na eternidade, com as pálpebras cerradas ao
peso da escuridão do meu destino.
«Não tenho ódios ; fazem-me chorar, quando me
dizem que é unanime o sentimento inspirado pelo
meu infortúnio.
«Eu devo á minha condemnação a força, a paz,
a tranquillidade, que talvez a liberdade não podesse
dar-me.
«Não venhas aqui, meu filho ; não venhas, que
eu tenho medo de diluir essas três cousas nas la-
grimas irreprimíveis do teu peito.
«Sou eu que irei ahi. Eu sim.
«Diz-me a crença em Deus, que d'aqui a lo an-
nos te visitará na tua casa, que é tanto tua, como
da minha memoria, e que poderei beijar a mão d'es-
sas meninas, então senhoras, protestando-lhes pelo
meus cabellos brancos, e pelas dores da minha
desgraça, altas virtudes da santa que ellas não co-
nheceram bem, e que eu vi fazer a felicidade de
um dos mais inspirados amigos da minha mocidade.
«Deus não pôde mentir-me n'estas doces vi<jÕes
da minha modesta esperança.
«Deus sorri-me ; se assim não fora, porque não
houvera eu enlouquecido ou expirado ?
«A minha consciência está cheia do seu direito ;
a minha alma cheia das suas dores ; e meu cora-
ção esmagado debaixo de ambas.
«Aqui tens o teu hospede de ha 5 annos.
«Dize ás tuas filhas que peçam a Deus, que eu
d'aqui a lo annos possa bater á vossa porta, não
levando nem mais nem menos do que isto.
Correspondência epistolar jS
«Adeus. Beijo-te, meu filho. Beijo essas crian-
cinhas, cujas imagens se cingem aos derradeiros
contentamentos da minha vida.
«Falla-lhes alguma vez do desgraçado
d Vieira de Castro,-»
«Haverá coração que resista a derramar uma la-
grima perante a immensidade d'esta suprema dor ?
((Haverá granito que resista aos raios d'esta fa-
talissima desgraça ?
«O fel da desventura a verter-se, todo inteiro,
no coração angustiado da victima, e haverá punhal
a que se aguce a ponta para se lhe cravar no
peito ?
«Clemência e piedade implorava o desventurado,
que ha pouco ainda, no zenith da sua gloria, arrastava
as multidões compactas, acorrentadas á eloquên-
cia da palavra, e fazia acuar a maiorias facciosas
com a sua presença na tribuna do parlamento.
«O Creso de glorias tribunicias, vem pedir de
rastos a esmola d'uma phrase que o console.
((O orador temido e respeitado pelos represen-
tantes do seu paiz estiola se nas trevas d'uma ca-
verna, e exora a Deu^ termo da sua peregrina-
ção na terra.
«Corta-se-nos o cérebro, em talhadas de sauda-
de, ao relembrarmos as gloriosas phases da vida
de Vieira de Castro.
«Um dia a faculdade de direito, inconsciente ou
vingativa, havia, constituida em jury, votado con-
tra a admissão no seu grémio, d'ella, de um dos
mais conspícuos talentos da nossa pátria. Era Au-
^6 Correspondência epistolar
gusto Barjona, essa formosíssima intelligencia, que
desagradou á esquálida ignorância dos bachás scien-
tificos.
«A mais vasta sala da universidade fora o thea-
tro escolhido para este supremo escândalo !
«A mocidade estudiosa pejava todos os ângu-
los do amplo espaço e ouviu contristada o veredi-
cium solemne d'aquelles juizes.
«Vieira de Castro estava também alli.
«Áquella Índole de fogo, não lhe sofFreu o animo
esta afifronta á intelligencia.
«Levantou-se inspirado, ardente c altivo, e esma-
gou, debaixo do peso de apostrophes violentas,
este desamor ao talento.
«A* audácia d'aquelle nobre caracter respondera
a tibieza dos professores.
«A faculdade reconsiderou na vergonha da sua
sentença, e levantou da cabeça do cpncorrente o
estigma indelével de reprovação.
«Conhecem todos as funestas consequências que
trouxe ao dedicado moço esta acção desinteressada.
«O conselho dos decanos, reunido em sessão se-
creta, decretara inquisitorialmente a exclusão da
universidade, do orador apaixonado !
«Isto não passa de ser espantosamente ignóbil !
«Como depressa se apagou aquella brilhante es-
trella, deixando um rastro luminoso na curva da
sua orbita !
«Como depressa se extinguiu aquella existência
amoravel, legando no seu occaso uma saudade im-
morredoura !
«Nas compridas noites de insomnia, abafado pe-
las pesadas abobadas do cárcere, ainda pôde al-
guém recolher as lagrimas d'aquelle martyrio lento,
Correspondência epistolar 77
no cálix da amizade, e tragal-as depois, como con-
solação á dor que lhe lacerava o espirito.
«Houve ainda alguém que sentiu ao longe as pul-
sações desordenadas d'aquellas artérias volumosas.
«Alguém houve ainda, a quem os ventos rijos do
sul arrojaram os soluços do seu passamento ; e a
quem as auras tépidas do outono trouxeram as sau-
dades da sua affcição.
«Era o dia i.° de novembro, e escrevera elle a
carta que vai seguir se.
<LMeu querido V,
«Não te esqueceste de mim, não?
«Nem eu de ti.
«Só hoje volto a escrever-te, porque tenho quasi
medo de ir empanar as claridades serenas dos meus
amigos felizes, com as trevas negras da minha se-
pultura.
«Estão quasi seis mezes completos do meu en-
carceramento, e já apenas sinto, e mal, a vida phy-
sica.
«O meu passado dá me um amigo, em quem eu
creio, como n'um irmão. E's tu.
«Tu, cujo coração eu estou ouvindo bater ao meu
lado esquerdo, á tua mesa d'essa casa, aonde eu
me senti acarinhado por santos e por anjos.
«Com quantas dores me pungem estas memorias,
meu querido amigo !
«Pois bem: tenho de te confiar a ti uma pequena
cousa, e pedir te uma grande honra.
«Se eu um dia tivesse de pedir á tua amizade,
que sahisses por pouco tempo de Villa-Real e que
viesses encontrar-me, ser-te-hia isto extremamente
penoso ?
j8 Correspondência epistolar
«Escreve-me e dize-me como passa tua mulher e
os novos filhinhos d'ella.
«Põe á roda de ti essas minhas formosas ami-
guinhas de ha quatro annos, e dize-lhes que ás 1 1
horas da noite do i.^ de novembro, me lembrei
d'ellas com lagrimas nos olhos.
«A mim disseram-me que és ahi muito estimado
e que Deus te abençoa o talento com muitas recom-
pensas.
«Fiz d'isto para mim uma santa alegria.
«Adeus, meu filho.
«Abraça-te o teu velho amigo
1 Vieira de Castreis
«Vai n'esta carta a lutuosa imagem que reflectia
o espelho limpido da sua alma.
Rastreára-lhe talvez pelo ccrebro a idéa do sui-
cídio ?
«Que pequena cousa iria elle confiar ao amigo, e
que grande honra desejaria receber?
«Escripta com lagrimas, a resposta do amigo
promettia-lhe uma dedicação sem limites.
«Se foi a idéa da morte que pairou sobre a fronte
escalvada d'aquelle desgraçado, ninguém o pôde
nunca adivinhar.
«Nunca poderá perscrutar-se este mysterio.
«E' certo, porém, que o infeliz aconchegava cada
vez mais á sua epiderme o áspero sudário que de-
via amortalhal-o.
«N'uma carta datada de Loanda, em 24 de maio,
dizia o desgraçado :
«Tenho soíFrido bastante. Tenho uma tosse que
me arranca lascas do cérebro.
Correspondência epistolar yg
«Devoro quinina.
«Ainda não tenho coragem para me demorar a
escrever-te.
«Começa a passar-me pelos olhos, cada dia e
cada hora, dos meus tempos d'essa casa, as pes-
soas, que morreram, as que vivem, a nossa alegria
e tudo !
«Se eu ahi te abraçarei ainda!
«Rogo a Deus pelas tuas filhinhas, pela tua com-
panheira, e por ti.
«O degredado é sempre para ti o mesmo amigo
<i Vieira de Castro,^
«Esgotava-se a tempestade d'aquella existência
tumultuosa n'uma chuva de lagrimas !
«A bonança sonhara-a o desventurado em sete
palmos de terra africana, onde um coveiro negro
lhe cavasse uma estreita sepultura.
«E assim foi.
«O denique é o epithaphio modesto da sua cova.
«Mas voltemos a aífrontar os mares revoltos do
seu infortúnio.
«O encarcerado digeria lentamente o veneno que
a maledicenica lhe propinava nos seus parcos ali-
mentos.
«O ar doentio das costas africanas parecia-lhe
salutar remédio para combater o gaz insalubre da
calumnia, que lhe assassinava o corpo enfraqueci-
do e débil.
«A anciã do desterro desenhava-lhe por um pris-
ma negro as cores do cárcere.
«Reçumavam humidade as paredes da prisão;
coava se a luz do sol pelas grades apertadas das
8o Correspondência epistolar
janellas *, despertava-lhe o ranger dos ferrolhos um
somno transitório ; acordava-lhe a voz das senti-
nellas o sentimento da liberdade.
«Quem lhe poderia roubar a posse das terras
do seu destino?
«Em 27 de maio de 1871, já cançado de esperar
pela decisão do tribunal de 2.^ instancia, soltava
mais um grito de desesperação.
«iMeu querido V,
«Agradeço-te a tua solicitude.
«Ainda não ha dia marcado para o meu julga-
mento, com quanto eu espere que seja breve.
«Os nossos desembargadores são pouco escor-
reitos, e precisam de mais de meio anno para po-
rem 10 annos de degredo em i5, ou toda a vida.
«Eu só lhes não perdoo a infâmia de me esta-
rem roubando a posse da Africa, que me deu a
primeira instancia.
«Pensei que o degredo pertencia ao degredado.
Pois parece que não.
«Respondo pelo correio ao teu telegramma.
«Recebeste uma carta minha que te mandei na
paschoa ?
«Adeus, meu filho.
Os meus respeitos e os meus aífectos ao teu santo
lar.
«Sempre teu
a José. »
«A carta que fora escripta na paschoa é ainda
um protesto contra a indolência dos juizes da re-
lação.
Correspondência epistolar 8i
«Lisboa 9 — 4 — 71.
<íMeu querido amigo.
«Ha dous dias que recebi uma cana tua, deli-
ciosissima do aííecto que tanto te mereço. Não te
esqueço nunca. O teu vulto e os meus dias d'essa
casa, são das memorias que mais lagrimas vertem
na minha alegria morta.
aA's vezes faço um esforço supremo para es-
quecer, e peço a Deus por piedade o que o Man-
tredo pedia aos espiritos.
«Ai, meu amigo !
«Tudo isso era para dizer-te que o meu silencio
SC alguma cousa te provasse, seria a intensidade
das minhas atormentadoras saudades ao recordar-
me de ti,
«E teu pai?
((Como me lembro d'aquella boa alma !
«E' domingo de paschoa hoje.
«Se Deus resuscita para os desgraçados, nos
meus lábios encontra elle o pedido da tua felici-
dade.
«Para mim nada peço.
«O que eu quero é que me deixem ir para o
meu degredo e quanto antes.
«Espero a decisão da Relação, que confirmará
ou aggravará a sentença segundo me consta. Se a
parte não recorrer para o supremo tribunal, por lhe
não convir, eu também não recorro e parto.
«E' este o meu desejo".
«Adeus, meu filho.
«Os meus respeitos aos pés de tua santa mulher
VOL. I Ó
82 Correspondência epistolar
e os meus carinhos todos ás tuas filhinhas, e ami-
guinhas minhas do tempo feliz.
«Teu amigo
d Vieira de Castro, -a
«O espectro da morte acenava-lhe de longe com
os ramos fataes da mancenilha.
«O corpo macerado na humidade d'uma prisão
infecta, já mal sentia, como elle confessava, a vida
physica.
«Gonsolavam-no tenuemente as dedicações dos
amigos e as publicações pela imprensa, que mira-
vam apenas á sua justificação, e que elle reputava
como os epitaphios da sua sepultura. Eram sim os
complementos da sua justificação \ não da justifica-
ção do seu delicto, do qual só Deus tinha a pedir-
Ihe contas, mas a justificação de todas as negras
perversidades, com que a maldade quiz infamar o
seu infortúnio immenso.
cEra o derradeiro serviço que prestavam á honra
da sua memoria os que de perto poderam auscul-
tar a generosidade d'aquelíe coração.
tAfóra estes allivios transitivos, ia sempre o des-
graçado arrastando uma agonia estúpida, em quanto
Deus julgasse que era cedo para lhe restituir no
céo a felicidade que lhe deixou incendiar na terra.
cNos últimos dias de cárcere, atormentava-o a
demora em Lisboa, e pungia-lhe viver no meio
d'aquelle antro immundo.
tNo dia 28 de agosto, escrevia a um amigo in-
consolável, os seguintes periodos :
Correspondência epistolar 83
(íMeu querido amigo,
a Parto para a Africa no dia 5.
«Levo commigo uma saudade immensa.
«Se um dia aqui voltar, correrei á tua porta, em
procura d'uma das raras reminiscências da minha
alma.
«Deus o queria, filho.
«Se morrer, pede ás li inhas amiguinhas de ha
6 annos, que lembrem a Deus o meu nome.
«A mim diz-me um fúnebre presentimento, que
um presidio d' Africa será a minha sepultura.
<Quero reagir contra o phantasma, que me es-
maga a minha consciência, e apparece-me em so-
nhos a alva branca dos condemnados.
«Olha, meu amigo, quando a mão descarnada da
morte me constringir as fauces, irradiarão três idéas
pelo meu cérebro, próximo a extinguir-se. São três
saúdes.
«Uma para minha mãi e meus irmãos, e outra
para seis amigos, que conheci no caminho do meu
Calvário \ a outra é para as tuas formosas filhinhas,
que fazem, como eu creio, a tua felicidade. A Je-
sus-Christo abriram um sepulchro junto da cruz,
onde tinha os braços cravados; a mim servirá de
epitaphio uma palmeira gigante, que estenda os
braços para o céo, exorando por a alma acabrunha-
da do maior desgraçado que pisou a crusta da
terra.
«Adeus. Vêr-nos-hemos na eternidade, se a minha
individualidade se não perder nos abysmos do nada.
«Envia-me nas monções da primavera uma das
fiôres da tua existência feliz, para que eu a leve
commigo ás trevas da minha sepultura.
84 Correspondência epistolar
«Estou cançado de viver e de pensar em ti.
«Nas tuas recordações levo eu na minha viagem
a ultima consolação.
«A saudade punge, mas também consola.
«Correm-me as lagrimas ao ter que despedir-me
de ti.
«Não sei se terei coragem para fechar esta carta.
«Pela ultima vez, adeus.
«Teu do coração
«José.»
«Partira o condemnado na galera dos desterra-
dos, caminho das praias africanas.
«A vastidão do mar e a immensidade do espaço,
saciavam de ar os seus pulmões sedentos de oxy-
geneo puro.
«A febre gerada por uma saudade infinita tinha
consumido aquella robusta compleição.
«O roble frondoso tombou alquebrado pelo tufão
da desventura.
«Diante da traição negra da mulher que amara,
não vacillou o seu génio impetuoso e ardente entre
os apupos das multidões e a suprema condemnação
dos homens.
«No sacrário da sua consciência immaculada es-
talara um pensamento infernal.
«O phantasma do ridiculo estorcia-se diante d'elle
em esgares zombeteiros, e apontava-lhe com o dedo
para um futuro de ignominiosas irrisões.
«Os fluidos venenosos começavam de encher-lhe
o craneo, e alli comprimidos, apertados, constran-
gidos, produziram a explosão medonha que ater-
rou Portugal inteiro.
Correspondência epistolar Sb
«A válvula de segurança, a razão, essa havia-se
fechado ao primeiro refluxo da onda dos vapores.
«Quem poderia medir a dor d'aquelle desespe-
ro, quando a sua mão nervosa suffocou na garganta
da esposa o ultimo grito das aífeiçÕes adulteras ?
«Ninguém.
uMais tarde conheceram-se, pelo rastro d'ella,
os vestígios insacaveis do martyrio que lancinou
aquella alma.
«Tem-se visto o ódio levar a mão estranguladora
ás fauces da mulher que se abomina.
«Tem-se visto o punhal afiado rasgar o peito da
mulher que se detesta.
«O assassino tripudia então sobre os cadáveres
das suas victimas, e traga com anciã o delicioso
néctar da sua feroz vingança.
«D'esta vez é o esposo que ama, a esmagar com
mão de ferro os vestigios materiaes da sua vergo-
nha.
E' o juiz que enlaça, ao collo de uma victima for-
mosa, a corda do carrasco.
«E' a justiça a castigar o crime ; a lealdade es-
trangulando a traição.
«E como elle amava aquella feia alma !
«Como elle bebia sôfrego dos seus lábios femen-
tidos, o absyntho da mentira !
«Como elle, temperamento ardente, estreitava
nos braços aquelle corpo de gelo !
«Misérias incomprehensiveis da ingenuidade hu-
mana.
«Ahi vae uma prova irrespondivel do culto inter-
no, que elle, o desventurado dedicava á esposa.
«Tumultuava o paiz em anciãs eleitoraes.
«A candidatura de Vieira de Castro, repercutida
86 Correspondência epistolar
em todos os ângulos de Portugal, impunha-se como
severa ameaça á situação governativa.
«Acontecia isto ainda nos seus tempos de felici-
dade.
«Interrogára-o um amigo acerca da veracidade
da noticia.
«Eis a resposta :
9.Meu querido M.
«Quinta de Moreira.
«Com grandes delicias da minha alma, recebi eu
a tua carta !
«Que inveja eu tenho á tua immerecida obscuri-
dade I
« Perguntas-me n'ella se quero ser deputado.
«Eu tenho uma esposa que me ama estremeci-
damente, familia que me estima, e terei talvez al-
gum filho, se Deus me quizer fazer essa mercê.
«Eu adoro a minha esposa e considero-me feli-
císsimo.
«Ir á camará é sacrificar a familia á pátria ^ e
quando a pátria é Portugal, equivale o nosso ca-
pricho, em sacrificar a familia a uma imperdoável
velleidade.
«Não chega a ser um crime, por ser uma cousa
principalmente insignificante.
«Se ventos adversos me não colherem os voos
audaciosos, aguardarei mais prosperas monções.
«Crê, meu feliz amigo, a familia e a independên-
cia constituem o meu único argumento para resi-
gnar a todos os encargos públicos.
«Estou agrilhoado ao amor d'uma esposa que me
ama, e diante da qual eu me ajoelho para lhe pe-
dir perdão da minha vida de rapaz.
«Adeus, meu filho, serás tu tão feliz como eu ?
Correspondência epistolar 8j
((Aqui tens o teu camarada na redacção do Athe-
neo !
«Transformou-se a coragem em fraqueza, a au-
dácia em imbecilidade.
«Não sei se foi castigo, se premio da Providencia.
«E' certo, entretanto, que eu não posso invejar a
sorte de ninguém.
«Adeus. Um beijo ás tuas filhinhas, e um abra-
ço para a sympathia do teu vulto.
«Teu do coração
Uoséy>
«O avarento de glorias e triumphos depunha aos
pés da mulher que amava, os sonhos dos seus the-
souros, e prendia á orla dos seus vestidos coroas
immarcessiveis.
((Mucio Scoevola, queimara a mão n'um brazeiro
ardente, immolando-se aos amores d*uma mulher
romana, que se chamava Glelia.
((Vieira de Castro, deixara incendiar a vida, o fu-
turo, a gloria e tudo peio amor da esposa que ado-
rava.
«Chenier e Ghatterton suicidaram-se. procurando,
na mortalha, o socego d'uma tranquiliclade eterna.
(T Vieira de Castro envergara o sudário d'uma pe-
nitencia estertorosa, macerando a alma com os ci-
lícios d'uma saudade immensa.
«A peçonha que lhe envenenara a alma, inocu-
lára-se-lhe no sangue e percorria, n'um grau rápido
e fatal, a torrente circulatória.
«O mundo, sempre, rígido e austero, constituira-
se em verdugo despiedado do homem, cuja culpa
única era ter esgotado até ás fezes a sórdida es-
88 Correspondência epistolar
sencia do mais asqueroso fel, e cujo único pecca-
do era ter pisado com os pés sangrentos e descal-
ços, os espinhos entalhados no rastro da esperança
que se lhe esvaecera no occaso.
«A critica do soalheiro, virulenta e podre como
ulcera sarnosa, saciava o estômago faminto nas vís-
ceras de uma victima, que trilhara sempre uma es-
trada lisa e coimbrã.
«O homem que santificara no sacrário da sua
alma uma aífeição estreme e pura, e resistira ás
seducções da gloria, que lhe estendia os braços, é
d'um desprendimento que espanta os tibios e de-
sarma a maledicência da canalha.
«Não succedeu porém assim ao meu desditoso
amigo.
«A opinião publica que desvairava em louca ebrie-
dade, á entrada de Jesus em Jerusalém, impu-
nha-lhe, poucos dias depois, ás costas um pesado
madeiro, em que iam gravadas letras de ignominia.
«Ao tribuno eloquente, que arrastava as multi-
dões na cauda da sua palavra, ao talento festejado,
que prendia as turbas pela magia da sua voz, tam-
bém a opinião publica lhe apparelhou a cruz do
aleive, e forjou os cilicios d'um immerecido ultraje.
«Aspirando ainda o suavissimo perfume das flo-
ridas rosas que entreteciam a sua coroa de noivado,
não pôde consolar-se da dôr suprema que lhe con-
frangia o espirito, morrendo-lhe a única afFeição que
o prendia á vida.
«Soltando dous suspiros de saudade que reparte
por Deus e pela memoria da única mulher que ama-
ra sobre a terra, espera que o estertor do agoni-
sante lhe suffoque nas fauces o derradeiro gemido
d'um eternal amor.
Correspondência epistolar 8g
«Houve alguém que comprou, á custa de lagri-
mas ardentes, a photographia d'essa dor vehemente.
«Ahi vão alguns períodos do desafortunado:
«Mez/ amigo,
«Pisei hontem o solo africano.
«Rescaldavam-me as arêas as plantas dos pés, e
a ardência do sol incendiava-me o cérebro.
«Quando de longe avistei o meu paradeiro, afi-
gurou-se-me logo um cemitério.
<As casas offereciam-me o aspecto de dolmens
druidicos e as palmeiras uma floresta de cyprestes.
«Se fosse alli um outro mundo, onde emancipa-
do de sarcasmos ignominiosos, a podesse encontrar
a ella^ formosa, como o meu pensamento a dese-
nha, e como a minha memoria a reflecte, acredito
que lhe perdoava !
«Admiras-te, meu filho?
«Espantas-te da minha fraqueza, ou pasmas
deante da immensidade do meu amor !
«Mataram-me, meu amigo ; e eu na anciã cruel
d'esta intima agonia, nem ao menos posso soltar
uma queixa contra os meus algozes.
«Que me perdoem elles, se me perpassa ás ve-
zes pela mente, alguma idéa de resentimento.
«Porque não aggravariam os meus juizes a mi-
nha pena, condemnando-me irremissivelmente á
morte ?
«Que mal fiz á sociedade para me deixar viver?
«Não ha nada mais do que arrojar com uma exis-
tência para os presídios da Africa, algemal-a aos
pulsos dos selvagens, incendial-a em torrões can-
dentes, suífocando á mingoa dos ares da pátria, res-
pirando os miasmas paludosos do desterro, sorven-
go Correspondência epistolar
do a longos tragos das fontes infectas um veneno
lento ?
«Ai, meu amigo e meu filho !
«Sahe amanhã o vapor D. Pedro! Que amargu-
ras soffrerá este pobre coração, ao vêr levantar ferro
a um barco que vai com a proa em direcção á pá-
tria ! Adeus.
«Se algum dia as minhas memorias te levarem a
visital-o, pede lhe para ti e para as tuas criancinhas,
uma saudade que te enviou um desterrado, que se
chamou um dia
<í Vieira de Castro.-»
aTumultua o coração do amigo em pulsações de-
sordenadas, inspirando o pulmão nas brizas do
Atlântico estes gemidos longinquos.
a Gemidos de suprema angustia, que com cedo
se permutaram em arrancos de moribundo.
«A pátria, que lhe fora madrasta, enviára-lhe, pela
bocca dos seus juizes, uma condemnação suprema;
a familia da mulher que elle amara no mundo, so-
prava aos ouvidos dos seus arautos calumnias des-
preziveis e infamantes.
«Lá mesmo, na posse do seu degredo, foram pro-
cural-o os libellos mais affrontosos.
«O projecto de rebellião contra a pátria fora o
ultimo insulto que affrontou aquellc martyrio im-
menso.
«O desventurado, a quem não sobravam alentos
para combater contra phantasmas impalpáveis, tor-
nava-se na bocca dos calumniadores ignóbeis, um
valente caudilho a propugnar pela independência
das nossas possessões ultramarinas !
Correspondência epistolar gi
«Era a suprema irrrisão da canalha vil e desbra-
gada.
«O sceptro de canna verde, cabia mal nas mãos
que se alevantaram, para fazer engulir a mentira
aos seus contumazes detractores.
«José Horta, então governador d' Angola, consti-
tuira-se eloquente advogado do desterrado, fazen-
do ver á luz da evidencia, a falsa monstruosidade
de taes protervias.
«Não bastara isto.
«A maledicência nas suas ferocíssimas invenções
engendrou nas trevas um outro aleive ainda mais
miserável.
«Começara de propalar-se de bocca em bocca, a
noticia de um novo casamento ao marido, que atra-
vés do espaço se prendia ainda ao espirito da esposa
morta. Era rica e opulenta a promettida noiva.
(íA torpe especulação da victima desafortunada,
era o poste ignominioso onde os phariseus preten-
diam amarrar o filho da desventura.
«As narinas dos diffamadores da honra alheia fa-
rejavam no rasto do condemnado as mais peregri-
nas contumelias.
«Vergava o corpo ao tremendo peso das inju-
rias; mas o espirito quedava-se sereno, como que
arredado das tempestades d'este mundo sublu-
nar.
«A morte batia nas azas negras, por sobre aquelle
craneo escalvado, pronunciando-lhe o noivado do
sepulchro.»
«Sorriam-lhe lá de cima as caricias da esposa que
elle tanto amara, e a alma obtemperava tibia ao
chamamento fatal.
«Na data de 25 de julho de 1872, vertia elle em
g2 Correspondência epistolar
Loanda, n'uma folha de papel vellino, as lagrimas
que vão seguir-se :
a Meu filho !
«Tu não sabes as dores da minha vida.
aPerdôa o meu silencio, porque eu amo-te sempre.
j Penso em ti frequentemente.
«Tenho soífrido muito.
«Avoejam-me pelo cérebro funestos presentimen-
tos.
«Vae-se apagando, pouco a pouco, a luz da mi-
nha vida.
«Com os olhos fitos na eternidade, vejo através
das trevas que me cercam, uma imagem querida,
que uma incomprehensivel fatalidade arremessou ao
regaço de Deus.
aConsome-me uma febre devoradora.
«A tosse dilacera-me o peito.
«Os médicos d'aqui receitam-me quinina, que é
quasi o meu único alimento.
aEu tomo-o já como um veneno, que acabe mais
depressa com esta existência triste e inútil.
«N'este equuleo de tormentos vem ainda perse-
guir-me o ódio infernal dos meus carrascos.
«O desvergonhamento não havia ainda tocado o
seu marco milliario.
«Era preciso caminhar um pouco mais avante.
*Não ha fel que a mentira não derrame sobre as
ulceras esbrazeadas do meu infortúnio.
«Julguei que as cinzas dos mortos tinham um sa-
cratíssimo direito ao respeito dos vivos, e que a
frialdade do meu cadáver repellira para longe de si
essa cáfila de nojentos vermes.
«Enganei-me, meu filho.
Correspondência epistolar g3
«As hyenas revigoram os seus alentos nas mi-
nhas carnes cadaverosas.
«Queres saber o que esses infames inventaram?
«Queres adivinhar qual o fecho que apparelha-
ram á abobada da minha desdita ?
«Queres apalpar as formas vultuosas d'este novo
ultrage?
«Pois bem; nas suas lucubraçôes infernaes for-
jaram a ignominia que mais podia mortiíicar-me !
Arrojaram aos quatro ventos do céo a noticia de
que eu estava próximo a contrahir um novo casa-
mento!
«A gentalha não se pejou de vomitar, pela bocca
asquerosa e fétida, este lixo immundo ! !
«Ao martyr de tantas dores era mister mais esta
prova terrível.
«Curti calado este novíssimo tormento e pedi á
minha consciência coragem para uma estúpida re-
signação.
«Os leprosos careciam do bálsamo das minha*
lagrimas para lhes fazer sanar as postemas nausea-
bundas das suas faces torpes.
«Cortou fundo o golpe no meu coração, já mor-
to, sem verter gota de sangue.
a Começo a crer na hora próxima da minha liber-
dade.
«O meu corpo está gasto, e a alma cançada de
tanto soffrimento.
«Morreu me de todo a esperança de que as tuas
filhinhas podessem ver ainda um dia os meus ca-
bellos brancos.
«Do teu amigo de Coimbra não restará em breve
mais que a triste historia da sua vida e o esqueleto
da sua memoria.
g4 Correspondência epistolar
«Ao escrever-te sinto a consolação das lagrimas.
«Eu devia luctar contra a morte, á espera de
que ambos nos encontrássemos no caminho da eter-
nidade.
«Lá nos encontraremos um dia, se as auras ce-
lestes reunirem os átomos dispersos das minhas
agonias com suspiros Íntimos da tua extremosa sau-
dade...
«Interrompi a minha carta para te dizer adeus
sem lagrimas.
«Fui suspirar nas praias africanas um alento de
suavidade.
«Os raios da lua d' Africa, queimam, como no
nosso saudosissimo paiz, abrazam os ardores do sol.
«As brizas do mar parecem-se com o simoun do
deserto.
«O solo rescalda os pés, como vasta lamina de
ferro candente.
«A atmosphera é uma labareda afogueada.
«O firmamento esbrazeado assemelha-se á ima-
gem do inferno.
«Não se respira aqui, abafa-se.
«As sombras das nuvens são tempestades me-
donhas.
«Cada relâmpago é um raio, cada trovão uma
convulsão da crusta terrestre.
«Aqui é cada momento um anno, cada anno um
século, c cada século o infinito.
«E' preciso conhecer-se o degredo para se aben-
çoarem os cárceres da inquisição.
«O pão é negro como um ethiope, a agua das
fontes envenena as entranhas da nossa raça.
«Em vez do trinar mavioso do rouxinol da nossa
pátria, ouve-se apenas o descante dos selvagens.
Correspondência epistolar g5
«Ahi o dia, aqui as trevas^ ahi a serenidade, aqui
a tormenta.
«Aqui é todo o pensamento uma reminiscência,
toda a recordação uma saudade.
«Ai, meu filho da minha alma !
«Deixa-me chamar-te assim para consolar a mi-
nha velhice prematura. Morre, mas não mates.
«Aprende na minha ultima lição e estuda n'ella
como n'uma Biblia santa.
«Esmaga dentro do craneo os relevos mais sa-
lientes da tua dignidade; suíFoca na garganta os
gritos da tua justa indignação \ parte a lamina do
ferro que pôde ser a garantia da tua honra envi-
lecida *, afivela no rosto a mascara do cynismo ; e
quando o mundo verter um escarneò no cálix do
teu infortúnio immenso, esgota até ás fezes com
um sorriso nos lábios a triaga das tuas amarguras.
«Esta carta é o testamento do teu velho amigo,
meu filho ! .
«Não sei se voltarei a escrever-te porque me
sinto já debruçado á beira da sepultura.
«Quando nas compridas noites de inverno reu-
nires, em volta do teu santo lar, a familia, que faz
a tua felicidade, lembra-lhe, sempre que possas, as
dores do meu Calvário.
«Adeus; aceita um abraço do teu
«Sempre amigo
<i Vieira de Castro.y
<Fôra este um dos últimos cantos, que alçara o
moribundo cysne nas margens do Zaire.
«Aquella alma estava prestes a alar-se para os
paramos celestes, e a embalar-se ahi n'um thalamo
gõ Correspondência epistolar
de venturas, que um destino fatal lhe roubou na
terra.
«Mentiram-lhe as suas esperanças, quando de
New-York dizia ao seu amigo:
«Quero junto do meu braço aberta a minha se-
pultura.»
«O coração alongava-se-lhe para o céo.
«A estrella que lá demorava em cima atraves-
sava, a todos os momentos, o vácuo da sua alma.
«Não ia em meio a flor de sua vida, e já o vento
outoniço começava de desfolhar-lhe as pétalas.
«Temperamento violento, índole apaixonada, alma
nobre, esplendido talento, coração aífectuoso, sem-
pre aberta a mão da caridade, fechado sempre o
peito a ruins instinctos, sempre o espirito a sonhar
na gloria, sempre a bocca a expirar fragrâncias, lá
fora íinar-se nos torrões africanos aquella existên-
cia luminosa.
«Perdôe-lhe Deus, já que os homens não po-
dcram perdoar-lhe, o delicto que commettera na
terra, pelas torturas que soffrera aquelle pobre co-
ração.
€ Houve um erro? Que maior expiação, do que
o degredo?
«Houve crime? Que maior pena do que os vaga-
res de uma agonia lenta ?
a Os sacrificadores antigos, cingiam nas frontes,
radiantes de fé, ramos de verbena, para immola-
rcm as victimas nos altares dos deuses.
«Os verdugos d'aquelle grande desventurado en-
feitavam de diamantes as cabeças esquálidas, para
tripudiarem em volta do seu patíbulo !
«Felizmente, que na esteira de sangue e lagri-
mas que deixou, após elle. Vieira de Castro, ger-
Correspondência epistolar gj
mina um formosíssimo prado de saudades, que a
sua memoria legou a todos que contrastaram o qui-
late das suas virtudes, ás quaes, um dia, a posteri-
dade fará justiça.
Vieira de Castro estava na Africa.
E os diífamadores, d^aqui mesmo, lhe des-
empolgavam ao coração de homem e á pro-
bidade de portuguez os dardos hervados da
aleivosia.
Uns davam-o casado ou de amores com uma
viuva rica.
Outros malsinavam-o de fomentar o des^
membramento d'aquella colónia.
Permitte-lhe Deus que se salve dos homens
no seio da eternidade; e então, como se o des-
graçado previsse a morte, enviando a António
Vieira de Castro o documento de sua defeza,
apparece uma carta do governador geral, pu-
rificando a memoria do degredado, que acu-
dira por sua honra, quando já não tinha ou-
tro património que herdar aos seus. Antepuz
então algumas linhas ao desaggravo instante-
mente reclamado por António Vieira de Cas-
tro. Fiquem aqui esses pregões como atalaias
das suas cinzas, e vergonha surda, intima e
dilacerante dos perversos que o calumniavam:
VOL. 1 7
g8 Correspondência epistolar
REPARAÇÃO
tDa Ga\eta do Povo de 26 do corrente, trasla-
damos um artigo que tem ligação com outro de
reparação, que o Primeiro de Janeiro publicou, a
uma calumnia oífensiva da probidade do snr. José
Cardoso Vieira de Castro. N'aquelle jornal lisbo-
nense apparecêra o boato, procedente de inexactos
informadores. Folgamos de ver que esse mesmo
jornal vem tão generosa quanto obrigatoriamente
desviar de si a responsabilidade da calumnia. Se-
ria indiscrição esperar outro proceder dos cava-
lheiros que redigem aquelle diário. Não é a com-
miseração que se levanta á beira da sepultura do
illustre condemnado pedindo á piedade publica que
dê por saldadas as contas do infeliz com a socie-
dade, tão pouco authorisada para lh'as pedir. É a
justiça e a honra que se postam ao lado da sepul-
tura de Vieira de Castro, obrigando a calumnia a
retroceder humilhada, e a ir cevar-se* no coração
dos vivos, visto que n'aquellas cinzas já não ha
fibras sensiveis onde cravar as presas. Aos que o
arremessaram ao degredo e á morte, povoem os an-
jos o seu dormir de alegres sonhos. Aos que rece-
beram dadivas generosas para o insultarem na im-
prensa, converta-se-lhes o ouro em regalias domes-
ticas e respeitos da rua. Ás damas descaroadas que
insultaram na cadêa Vieira de Castro, no dia da
communhão aos presos, doure-se-lhes a velhice de
honradas cãs, veneradas pelas honradas filhas. A
todos aquelles, finalmente, que arrancaram uma pe-
dra ao edifício que se desmoronou e esmagou aquelle
brioso homem, abra-lhes a sociedade os braços, e
chovam-lhes as delicias, as posições sociaes, os aca-
Coj^respondencia epistolar gg
taraentos, o ouropel com que se cobrem as ulceras
da infâmia.
«Lamentof.a celebridade irá seguindo de geração
em geração o nome do mais febril talento e scintil-
bnte orador que nasceu no Porto, desde que esta
terra pôde citar nomes distinctos na phalange dos
propagadores de idéas. O Porto fez-lhe ovações,
quando o ouviu ; e, se o não deplorou na morte
com testemunhos de publico sentimento, mais tarde,
as gerações por vir irão meditar nos trances d'este
desgraçado, cheio de esplendores, ao pé da urna
das suas cinzas.
«Levou-nos o coração depôs a saudade do amigo.
E' tempo de deixar que outros se acerquem da sua
sepultura com o voto de respeitosa reparação á me-
moria de Vieira de Castro.»
«Publicámos em tempo algumas noticias de An-
gola, das quaes fazia parte uma que se referia a
planos de independência attribuidos a um notável
degredado.
«Deu lugar esta noticia a reclamações por parte
do snr. António Vieira de Castro, que suspeitou
que era de seu irmão, o snr. José Cardoso Vieira
de Castro, que se tratava.
«Nôs respondemos sincera e lealmente áquelle
cavalheiro, dizendo que não era invenção nossa o
que se dizia com respeito aos projectos da separa-
ção da provincia de Angola do continente.
«Temos razões para crer que s. exc.^ não ficou
satisfeito com o que lhe respondemos, e hontem
foi-nos apresentada por um amigo commum uma
100 Correspondência epistolar
carta do snr. José Cardoso Vieira de Castro sobre
este assumpto dirigida ao snr. José Horta, e a res-
posta d'este cavalheiro. Estes documentos provam
plenamente, que, se com effeito havia quem pen-
sasse em desmembrar da coroa portugueza aquella
rica porção do nosso território, não era o infeliz
Vieira de Castro.
«Como pôde haver quem ao ler aquella noticia
tivesse apprehensões iguaes ás que teve o snr. An-
tónio Vieira de Castro, aqui declaramos que ella foi
fundada em informações menos exactas que havía-
mos recebido directamente de Loanda.
cE' explicita a linguagem do snr. José Cardoso
Vieira de Castro, e não menos a do snr. governa-
dor geral de Angola.
«Nós vimos as duas cartas, e podemos responder
pela authenticidade de ambas.
«Se estimamos sempre fazer justiça a todos, por-
que nos apraz cumprir um dever de honra, muito
mais grato nos é esse dever quando se trata de um
homem que já não existe, de quem fomos amigos,
a quem saudámos nos seus dias de maior gloria e
a quem abraçámos com as" lagrimas nos olhos,
quando elle, esmagado pelo peso de uma enorme
desgraça, nos prophetisava o seu próximo fim res-
pondendo-nos também com lagrimas ás nossas pa-
lavras de consolação, e dizendo :
«Depois d'isto ou a loucura ou a morte.»
«Por mais severo que seja o juizo que se faça do
acto praticado por Vieira de Castro, no que não
pôde haver discordância é de que poucos homens
tem havido mais infelizes do que elle !
«Mocidade e talento, vida e futuro tudo desap-
pareceu em menos de três annos !
Correspondência epistolar loi
fQue Deus na sua infinita misericórdia se amer-
ceie de quem tanto soffreu na terra, é o que do
fundo d'alma lhe pedimos.» '
Vieira de Castro escrevia em um pequeno
Album^ adquirido pouco antes de sahir para o
degredo, as impressões do momento, os traços
de projectados escriptos, as primeiras opera-
ções e facturas do seu commercio na Africa,
as suas despezas diárias, as verbas de dinheiro
recebidas de seu irmão António durante a pri-
são, os volumes da sua bagagem, o inventario
da sua roupa e dos seus livros, as visitas do
seu medico em Loanda. Está em meu poder
essa carteira.
Uma das paginas é assim escripta a lápis:
Viagem para Africa. De Lisboa a 5 de setembro
de iSji. Chegamos á Madeira a 7, d meia noite. A
S. Vicente a 1 3 ás 4 da tarde. Ahi ficamos. Pun-
gente approximação de duas datas l * Que amenis-
simo clima ! Sahimos a 14, ds 3 horas,
6^1%. S. Thiago, no dia j5.
* Presumo que a data cuja aproximação o punge, é a da
sua partida para o Brazil, em setembro de 1866.
102 Correspondência epistolar
A 27 chegamos ao l^rincipe. No dia 23, desar-
ranjo na ma china ao cahir da tarde. Andamos á
pela até ás 10 horas da noite do dia 26. Formosís-
sima a ilha do Principe! Jardim admirável! Vege-
tação esplendida, lembrando o Minho ; mas mais for-
mosa pela raridade das arvores e das cores, — Antes
da ilha está o celebre rochedo com a forma exacta
de um bonet de jockey.
Em outras paginas:
Le droit de tout homme d dire qiiand même sa
pensée. (Vide o prologo de Droits de r homme de
Pelletan).
Visitas do doutor Oliveira:
Primeira doença 3
Segunda »^ 2
24 e 25 de maio (1872) 2
Julho B S
Agosto I. 3
Agosto .) 4
5 de Mato de i8j2,
Despe:{as. Balanças para café,, Sj^ooo.
Seguem outras verbas miúdas de preparati-
vos para o seu negocio. Aperta-se-me â alma,
quando confronto as glorias, o esplendor, o
estrondo d'aquelle nome que reboava desde a
sala do parlamento por todo o paiz em i865,
e ia echoar nos prelos da America do sul, e me
Correspondência epistolar io3
figuro Vieira de Castro, sorrindo á desgraça,
n'aquelle humilde tráfego de mercadejar café !
Em outra lauda do Álbum:
Viagem a Capengo, Queimadas^ deserto, carava-
nas, cantilenas dos carregadores. Rios, precipícios,
luctas dos pretos^ roubos, A vile:{a do negro. Patru-
lhas. Cêa, Almoço. As comidas enxovalhadas pelos
dedos dos pretos. . .
Em Cazengo comprara Vieira de Castro por
1.200^000 réis uma casa térrea, em nome de
seu irmão António, com o intuito de alii se
fornecer de café, em transacções immediatas
com o gentio.
N'este crepúsculo da noite intellectual ain-
da fulguram uns lampejos do espirito que se dá
alôr para as regiões divinas :
Era uma collina alta, immensa, Íngreme, esguia,
a pino pelos ares fora, topetando com o seu coronal
de florestas nas nuvens do céo, cavando e mergu-
lhando com as rai:{es nos abjsmos do mar. E, no
cimo d'ella, alli. entre Deus e o homem, entre o in-
finito e o verme, tu^ arvore querida das minhas sau-
dades, meu cajueiro amigo, docel das minhas medi-
tacões.^ arca dos meus naufrágios^ lua das minhas
noites l O meu cajueiro! Tenho nas meninas dos meus
olhos a photographia da minha arvore. Rompia do
solo vermelho o seu tronco secular, e logo se desa-
pertava em duas vergonteas colleadas, como se para
104 Correspondência epistolar
dous amores o plantara alli a providencia do Se-
nhor! Erguia-se á altura dos meus cabellos, e logo
se recurvava por todas as partes ao derredor de
mim, beijando e marcando na terra a circumferen-
cia do meu mundo. Era denso ^ era espesso y era bas-
to: dir-se-hia a cabelleira enorme de um gigante. . .
Ai! meu cajueiro querido! Também eu te apago
muitas ve:{es a sede das rai\es com as minhas lagri-
mas; e, quando eu t'as via aljofaradas no peciolo
dos teus ramos, eu punha sobre a tua enfeitada ale-
gria a lu^ do meu sorriso.
Ai! minha saudade qne aqui vinhas conversar
commtgo ! Chora pelo desterrado que chamaste á im-
mensidade da tua dor! Ha céo e ha inferno! Entre
o céo e o inferno, entre ti e mim, ó visão tristissi-
ma^ estão as insondáveis trevas. Ai! meu cajueiro
querido!
Loanda, g de dezembro de i8ji.
A residência de Vieira de Castro era a mais
insalubre de Loanda. A casa é batida pelo
mar; e, ao fim da tarde, ennubla-se em ne-
voeiros. Elle mesmo em uma das cartas me
diz que o brazileiro que a construirá alli mor-
rera logo de febre perniciosa.
Não obstante, os primeiros mezes passou-os
saudavelmente, posto que nem o minimo cui-
dado tivesse comsigo, nem desse peso aos con-
selhos dos amigos. Duas e três vezes por dia
Correspondência epistolar io5
se banhava no mar que lhe espumejava de-
baixo da janella do seu quarto. Mandava abrir
todas as janellas a fim de que as correntes do
vento do mar se recruzassem. O melhor é mor-
rer^ dizia-me elle.
As febres appareceram-lhe em junho de 1872
e nunca mais remittiram.
Em fim de setembro d'aquelle anno fez uma
viagem rio acima até o Ambriz, aconselhada
pelos médicos. Melhorou sensivelmente. Um
portuguez, que então convivera com elle três
dias em Benguela, me disse que o semblante
de Vieira de Castro era característico de insa-
nável doença ; mas que o vira jantar com in-
sólito appetite. As noites, porém, eram veladas,
sem intermittencia de repouso. Uma pessoa,
que pernoitava em quarto contíguo, dissera ao
snr. Mendes de Vasconcellos, meu informador,
que Vieira de Castro, durante a noite, passeava
no seu quarto, e a espaços fallava alto.
No principio de outubro recolheu a Loanda.
No Mercantil do dia 3, lê-se esta local:
Chegada. — Chegou dos portos do Norte • a bor-
do do Cambridge o exc.""^ snr. dr. José Cardoso
Vieira de Castro.
Como o paquete que vinha para o reino es-
tava a levar ancora, Vieira de Castro perdera
duas noites a escrever a sua correspondência;
ro6 Correspondência epistolar
e, se bem me recordo, na ultima carta que es-
creveu a seu mano António, lhe dizia que ás
(5 da manhã tivera de ir á alfandega.
No dia 5 levantou-se, e, diz o Mercantil^
sentou-se á carteira a trabalhar. Acabava, por
volta das onze da manhã, de sobrescriptar ao
seu agente commercial em Cazengo., António
Pereira Coutinho, o numero do Mercantil de
3 de outubro, quando pediu uma garrafa de
agua de Seltz.
Passados instantes, chamou afílictivamente
uma criada e queixou-se, apertando a cabeça
entre as mãos, que sentia uma grande agonia.
A criada correu em busca d'um negro, que
fosse chamar medico, em quanto elle se desa-
pertava com anelados gestos. Quando voltou
ao quarto da cama, para onde Vieira de Cas-
tro passara, encontrou-o pro- trado sobre o ta-
pete contíguo do leito, d'onde havia resvalado
no escabujar da angustia.
Os criados repozeram-o na cama.
Nunca mais teve luz nos olhos, nem cons-
ciência da vida. A divina misericórdia cobriu
o desgraçado desde aquelle instante. A lingua
oscillava em contracções convulsas ; mas não
articulava sons. O peito arquejava nos grandes
arrancos que deviam em poucas dores desfazer
uma compleição robustíssima. Depois, sobre-
veio a modorra, rebelde ás violentas emborca-
Correspondência epistolar loj
çóes da quina. A's 9 horas da noite, José Car-
doso Vieira de Castro expirou.
Quando o esquife conduzido pelos primeiros
magistrados de Loanda, desceu á beira da co-
va, Urbano de Castro, mancebo de elevado
espirito e amantissimo d'aquella quebrada urna
de lagrimas onde se afogara o maior talento
da palavra em Portugal, apontando para o ca-
dáver, fallou assim :
«Senhores! A' hora em que baixa e se some o
astro do dia, extingue-se e cahe n'uma sepultura^ o
meteoro, cuja luz admiramos : luz esplendida, luz
amiga, sobre cuja peripheria não sei se alguma vez
um disco de sombra perpassou ; porque me não
applico a observar manchas, pontos opacos nas
espheras, que alumiam o universo ; o que detém os
meus olhos é a luz ; só a luz os attrahe.
aA'manhã reapparecerá brilhante no oriente o lu-
minar divino : Vieira de Castro, vivacissima luz dos
mundos do pensamento, essa está para sempre ex-
tincta ! . . .
«Resplendeu na Europa, scintillou na America,
appareceu na Africa. . . e apagou-se aqui!
«Arvore frondosa do Sinay da palavra democráti-
ca, que levantou, possante, gigantesca, os seus ra-
mos sobre as mais altas da prophetica montanha —
cahiu !
lo8 Correspondência epistolar
«Do solo em que nascera, a tempestade arran-
cou-a pelas raizes; — aqui a trouxe o vento ; está
aqui \ — jaz morta !
aTeve a sua estação de flores; perfumaram-na
todas as ovações, todas as victorias da arena das
letras, todos os calorosos e phreneticos applausos;
floriram nos seus braços as alegrias da vida.
«Depois. . . horrorosas decepções, desgraças tre-
mendas foram os fructos amargos que pesaram nos
seus ramos e a vergaram toda !
«Longe da pátria colnera o peregrino talento
n'um mesmo dia a coroa, que o votava á gloria, e
a coroa que o sagrava ao martyrio.
«E a arvore que sobre tantos estendera protecto-
ra sombra, não encontrou quem a amparasse, quan-
do o vendaval da adversidade veio açoutal-a e fe-
ril-a; a quebrou e despedaçou.
«Abraçaram-se, senhores, n'aquelle cadáver,
quando animado e com elle á sepultura descem
abraçados, a gloria e o infortúnio.
aE' aquillo a riqueza, a sciencia, o talento, o po-
derio, a gloria! — E' aquillo: é Vieira de Castro!
«São aquelles lábios, — leito, por onde corriam,
fervendo, tumultuando, arrebatando, caudalosas as
ondas da eloquência, — frios e cerrados agora, e
para sempre emmudecidos : são aquelles braços,
que o hálito do anjo da morte gelou, cruzados, hir-
tos sobre o peito, apertando immoveis um coração
parado: são aquellas mãos, brandindo hontem na
tribuna e no comicio o gesto dominador, na guarda
de todos os direitos, na resistência de todas as ty-
rannias, na protecção a todos os fracos, na defesa
de todos os opprimidos : — aquellas mãos traçando
no livro, no pamphleto, no periódico, a derrota do
Correspondência epistolar log
futuro, — postas agora supplicantes para o céo, onde
a sua alma pela porta por onde todos entram, pela
porta dos perdoes entrou.
«Pois, senhores, áquelle — a quem sorriam todas
as seducçóes da vida, a quem também todas as ex-
cruciaçôes torturaram, demos-lhe n'esta hora todas
as commiseraçõcs.
«Abre a terra o seu seio para receber o invólu-
cro terreno de Vieira de Castro : é a pá do covei-
ro, só ella — a final, — quem dá com uma camada
de arêa, que para cima d'elle atira, tecto tranquillo
áquelle corpo !
«Vieira de Castro !
«Livro de grandes lições, vae o armário da mor-
te guardar-te ! Vieira de Castro !
«Descança — que era tempo — da tua incompor-
tável lucta!
«No nosso espirito viverá o teu pela memoria e
pela admiração ! O teu coração palpitará no nosso
pela consternação e pela saudade !
«Os teus amigos, que aqui estão, dizem-te sollu-
çantes o extremo — adeus ! Vieira de Castro !
«Recebe-lh'o no seio da gloria pura, da eterna fe-
licidade, no seio de Deus.»
Sublime !
O apaixonado coração, que assim orvalhara
de lagrimas o cadáver de Vieira de Castro,
havia-lhe dado, em dia de seus annos, duas
preciosas jarras do Japão.
Ijo Correspondência epistolar
Estas jarras, cheias de flores, estiveram três
dias sobre a sepultura do seu dono, que as ha-
via presado com amor de agradecido e amor
da immensa belleza d'ellas.
Depois, retiradas de sobre a campa, vieram
para Portugal, compradas no espolio do morto
pelo snr. Pereira Coutinho, que m^as deu. Ainda
traziam no bojo flores seccas, e entre estas
dous formosos insectos, que lá haviam entrado
por entre as rosas e lá morreram e hoje se con-
servam com o lustro e frescor da vida.
Quando os colhi d'entre as flores murchas,
com a mão tremente de supersticiosa commo-
ção, vi que alguém que muito devia ao gene-
roso espirito de Vieira de Castro, uma senhora
a quem o consolador de infelizes dera lagrimas
nos dias em que ella tinha a virtuosa coragem
de as não pedir a alguém — se recordava d'uma
promessa^ cujo cumprimento se lhe afigurava
enviado de além-tumulo. Debaixo d^essa im-
pressão, sahiram da alma, retranzida de sau-
dades e de gratidão immorredoura, estas linhas :
A PROMESSA
Era por noite de agosto, ardente e balsâmica. O
astro luminoso pompeava no occidente todo o seu
explendido manto, e o rosmaninho e as plantas
agrestes exhalavam o aroma acre das campinas em
flor. Estávamos em pleno Minho: alli onde as rique-
Correspondência epistolar iil
zas da vegetação crescem e se reproduzem como
que espontâneas, bafejadas pelo sopro bemdito do
Senhor.
Era noite de festa. Na pequena aldeia de*** ou-
viam-se os cantos festivos ; e a voz das aldeãs com-
petia com as rabecas e os clarinetes.
Passava-se isto em uma casa de campo. As seis
janellas da frontaria jorravam luz, e a porta da en-
trada por onde se subia por larga escadaria de pe-
dra, estava afestoada de rosas e hortênsias.
Confundido com o grupo dos cantores e festeiros
que enchiam o largo terreiro da casa hospedeira
que me agasalhava, assisti invisível á scena que vou
descrever.
Seriam dez horas. Ao umbral da porta, vindo
das salas, apontou uma dama e um cavalheiro. Pa-
raram um pouco, e depois de relancearem a vista
melancólica sobre aquelle ruidoso tumultuar, ella
sentou-se n'uma cadeirinha baixa de encosto que es-
tava no patim, elle recostou-se ao lado, no rebordo
do ferro da varanda.
— Que formosa noite! — murmurou elle.
— Formosura que faz vibrar os nervos, e con-
tristar as almas magoadas.
— E' verdade : mas como isto é bello ! Que sau-
dades hei de ter d'estes momentos !
— Saudades ? ai ! —volveu a senhora — quem sa-
be se as alegrias que o esperam não riscarão até
da sua memoria a lembrança de dous corações que
aqui ficam a choral-o... Mas — continuou depois
d*um momento — choral-o, porque? Lamenta-se
acaso a águia quando, fendendo os espaços, se li-
bra a outros hemispherios, audaz e poderosa pela
sua força? Não: seguimol-a até a perder de vista e
JI2 Correspondência epistolar
ficam-nos gravados na memoria os rasgos admirá-
veis das suas azas. Assim, aqui ficaremos esperan-
do o echo das suas glorias !
— Esquecêl-os, meus queridos amigos ! Oh ! fe-
lizmente sahimos dos salões. Cobre nos a abobada
celeste. Creia-me — exclamou alteando a voz — só
levo saudades d'estc cantinho de Portugal.
— Hoje, pôde ser. . . As suas impressões são vi-
vas, mas pouco duradouras. De mais, sabe muito
bem que sou visionaria. Visionaria como todas as
creaturas a quem a geada do infortúnio queimou os
rebentões da esperança. Imaginei que não o torna-
va a ver aqui.
— O que ? ! Prevê a minha morte ?
— Ao contrario: o seu caminho não me negreja ; a
estrada que segue é a dos triumphadores. E' por
isso mesmo que a descrença me trabalha o animo.
— Que injustiça ! Poderei eu, vivendo d'aqui a
cem annos, olvidal-a, minha santa amiga? Deixar
de pensar em si e no homem por quem sinto uma
espécie de culto que chega á adoração?
— Obrigada : por elle, e por mim. Obrigada. Es-
pero então que estas flores já murchas — e apon-
tou para as grinaldas que enramavam a escada —
refloresçam um dia, festejando a sua vinda.
— Não espere ; conte commigo. Será esta a pri-
meira casa onde hei de descançar na minha volta á
pátria ; a menos que por lá não deixe o corpo, á
sombra dos cajueiros e das mangavas. . . E, se fi-
car, através do oceano, mesmo depois de morto,
hei de dar o ultimo adeus ás duas creaturas que
mais amo e respeito no mundo. Juro lhe isto, por
aquella estrella que me ha de alumiar as insomnias,
e as horas meditativas de bordo.
Correspondência epistolar ii3
— Oxalá que sejam todas risonhas como o ama-
nhecer d'um bello dia. . . Também eu hei de pedir
áquella estrella noticias suas. Fallar-lhe-hei de si,
meu querido irmão ; contar-lhe-hei os meus dissa-
bores, procurando nos echos longinquos das flores-
tas, o murmúrio da sua voz.
A chegada de varias pessoas interrompeu-os.
D'ahi a momentos este homem beijava a mão da
senhora com quem tivera o colloquio precedente, e
abraçava soluçante aquelle a quem no seu enthu-
siastico aífecto dava o nome de irmão.
Partiu. Volvidos poucos mezes voltou a Portu-
gal; mas, como ella bem prophetisára, as brizas da
terra de Santa Cruz abafaram as reminiscências do
passado. Na aldeia de . . . as florinhas não mais flo-
resceram para festejar a vinda do ingrato, mas as
almas que alli viviam regosijavam-se, sentiam o
doce prazer de o crer venturoso. Um dia em que se
encontraram, e elle parecia constrangido, ella, que
o prezava sempre como um companheiro e consola-
dor nos dias afflictivos, estendeu-lhe serenamente
a mão, dizendo: Fez bem; o infortúnio repelle.
De caminho já para as nossas praias, escrevia
elle aos solitários do Minho: «Sou feliz, meus ami-
gos ! Sou feliz, meus queridos irmãos ! Tão feliz
que não acho expressões que possa pintar-vos o
cumulo da minha felicidade. A ventura chega a
embrutecer ! Achei um anjo ! . . . »
Este anjo devia mais tarde abeiral-o do abysmo
e mergulhal-o no sepulchro... E morreu: lá ao
longe, sósinho, triste, desalentado, e sem mão pie-
dosa que lhe cerrasse as pálpebras doridas das la-
grimas. Lá jaz o corpo, debaixo dos cajueiros e
das mangavas ! . . .
VOL. I 8
114 Correspondência epistolar
Um anno depois, alguém que sabia quanto as
memorias do infeliz eram apreciadas pelas duas al-
mas que, vencendo o antagonismo publico, se po-
zeram ao seu lado nos dias da prova e tribulação,
trouxe-lhes d'além-mar umas jarras grandes do Ja-
pão que tinham pertencido ao desditoso, e ador-
nado a sua sepultura em dia de finados.
Depois de desencaixotadas, receberam-nas os
dous com o pranto pungitivo d'uma sincera angus-
tia. De repente soltaram um grito olhando-se com
religioso terror. Dentro d'uma das jarras estavam
juntos dous insectos grandes : um todo bronzeado
e formosissimo ; o outro verde esmeralda, e que
tem o nome de Louva-a-Deus.
Então, ella, cahiu de joelhos, pôz as mãos, e
bradou com a voz tremula de commoção: Cum-
priste a promessa ! Não nos esqueceste nem mesmo
das portas da eternidade. Aqui está o adeus pro-
mettido ás duas almas que mais te quizeram e
amaram na terra.
Este homem que morreu moço, e era fadado a
altos destinos, chamou-se no mundo José Cardoso
Vieira de Castro.
Os dous amigos, que elle deixou ligados á sua
memoria, fieis áquellas cinzas adoradas, continuam
a amal-o pelo espirito, commungando com a sua
alma.
CARTAS
DE
JOSÉ CARDOSO VIEIRA DE CASTRO
ESCRIPTAS
NO CÁRCERE E NO DEGREDO
CARTAS
Meu querido Camillo,
Eu tenho querido todos os dias beijar-te a mão
que tem espremido bálsamos celestiaes sobre as
minhas dores. Leio sempre as tuas cartas. Quem
te disse o que eu não disse a ninguém ? Como adi-
vinhou o teu coração que eu não tive nunca uma
hora de felicidade ? A tua ultima carta é um enor-
me thesouro que tu me deste. Adivinhas-me intei-
ro, e julgas bem os homens, de que eu não posso
queixar-me desde que me esmagou o pé que eu trou-
xe trez annos nos lábios.
Esta desgraça trouxe-me grandes males. Sinto-me
a cahir de todo em crenças de religião para o que
ha de mais estúpido : o fatalismo. Vou-te dizendo
isto, porque eu espero ouvir- te para tomar uma de-
cisão. Pensei em ordenar-me. Comecei a pensar
n'isto para me defender contra a loucura que ás ve-
zes queria saltar por sobre as tuas cartas.
Hoje penso que Deus, se Elle assiste a isto, se-
gurou na minha consciência a força do meu direito.
jj8 Correspondência epistolar
Mas eu queria ter a fé immensa para amparado
n'ella poder servir ainda a almas infelizes a gran-
de desventura da minha. Meu querido amigo, pen-
sa um conselho para este meu pobre coração que
se te abre em tamanha angustia, e que deu as suas
primeiras lagrimas nobres aos abalos profundos do
destino.
Adeus. Eu beijo as mãos da snr.^ D. Anna, mi-
nha santa e generosa amiga.
Abraço-te do coração.
Teu
Vieira de Castro,
Meu mui querido Camillo.
Li com intervallos a tua carta. Não me cabia nos
pulmões a angustia suavíssima que ella me trazia.
Li-a respirando alto. E interrompi-mc uma vez com
medo de uma vertigem. Ai, meu querido amigo, se
podesse ter-te aqui ao meu lado n'este momento,
abraçava-me febrilmente ao teu peito, e punha no
teu hombro estas lagrimas que me obrigam também
a interromper esta escripta. Sem o saber, começo
esta por satisfazer a tua ultima vontade. Aqui me
tens a chorar.
Beijo o primeiro periodo da tua carta. Completa-
mente me avalias.
A ti só digo uma cousa que ninguém sabe, e de
qne ninguém me desvia. No tribunal direi só : «Ma-
tei aquella senhora. Matei-a n'uma grande catastro-
phe, quando era preciso atravessar uma onda com
o cadáver d'ella, ou com o meu. Amava-a, e por
Correspondência epistolar iig
isso na repartição da desgraça dei-lhe o quinhão
menor : a morte, que é um instante ; e reservei pa-
ra mim a dor que é eternidade, como disse Gres-
set. A demência d'essa catastrophe e d'essa onda,
não dou á sociedade o direito de m'a pedir. O seu
tumulo e a sua memoria são invioláveis, e perten-
cem-me. O orgulho do meu crime é o orgulho do
meu silencio. Quando eu disse no primeiro dia que
tinha matado por causa de adultério, estava alluci-
nado. Sou um homicida que espera tranquillamente
a sua condemnação.» Ahi tens, meu filho, o que
direi. Agora a ti o mais que direi só é uma cousa :
que eu era o noivo de três annos mais desfeito em
carinhos, e o marido mais digno pelo conselho e
pelo exemplo.
Adivinhaste bem que não podia dizer mais nada.
Olha que tu não podes dizer a ninguém as minhas
tenções no tribunal. N'isso só olho para a eterni-
dade, se a ha. Quando a matei, ajoelhei ao lado do
leito, orei por ella, beijei-lhe muito a mão direita,
ensopei-lh'a de lagrimas, e disse a Deus que eu por
mim lhe perdoava. Seria incompleto esse perdão
se me não pozesse agora entre o seu tumulo e a
sociedade. E' o que cumpro.
Vi por entre as minhas lagrimas o plano do teu
livro. Ensina-me tu as palavras com que te diga
esta gratidão da minha alma. Meu querido Camillo,
que destino é este nosso ?
E os teus sonhos ? E a recordação dos meus al-
moços com essa querida metade das nossas mais
doridas melancolias? Eu não posso ler nem recor-
dar isto sem suífocar.
Adeus, meu querido Camillo.
De noite encosto-me ás grades, e peço a Deus
120 Correspondência epistolar
que alumie com as suas estrellas os meus queridos
hospedes de Seide. Conta-me, se tiveres melhor saú-
de, e lembrem-se sempre do amigo de ha quatro
annos que queria poder ahi procurar no terraço as
lagrimas que lá deixou uma noite, a ultima do
nosso passado.
Pede a Deus a felicidade de vossos filhos o
velho amigo do coração
Vieira de Castro.
Meu querido Camillo,
Abri a tua carta de hoje com a chicara do meu
almoço diante de mim. Pois primeiro a servi a ella
das minhas lagrimas !
Não sei como te pague tanto, meu singular ami-
go e mestre ! Se fosse na minha mocidade, que or-
gulhos se me não alevantariam doestes teus sublimes
confortos ! Mas eu sei e sinto que me não ficaram
dentro de mim as cinzas de orgulho nenhum. Agora
só a minha alma se eleva, e a minha razão se aífir-
ma e segura nas raizes com que tu a prendes no
fundo da cova immensa e generosa do teu immenso
peito ! Eu te agradeço como se tu me desses a luz
interior.
Ninguém me desconvenceria hoje de que tu en-
tendes melhor a minha alma do que eu próprio.
Vejo-me melhor, e mais verdadeiro, e mais serena-
mente n'esta exacta photographia das tuas pinturas,
do que o meu espirito, atordoado pelas dores do
coração, me vê a mim próprio. Tu, que já estiveste
Correspondência epistolar 121
preso, imagina o que eu terei soffrido ; mas acres-
centa ao meu martyrio esta dor de recordar em
cada echo e em cada luz uma lembrança pungente
do passado ! Depois mal posso ler. Os livros sé-
rios conservam-me horas pasmado nas suas paginas
seccas e estéreis. Os livros dos desgraçados acor-
dam-me o coração para m'o estalarem. O Altmeyer
parece-me fulminado de raio ao pé das tuas santas
promessas e esperanças. Tomei o outro dia um dos
volumes do Byron, pensando que poderia com elle.
Comecei a reler na primeira pagina o Manfredo, e
dilatava-se-me o coração ao pedido d'aquelle grande
desventurado que queria ... o esquecimento ; mas
depois as imprecações dos espíritos evocados fize-
ram-me terror •, salto todas as paginas e procurei
aturdir a minha feroz imaginação com a leitura do
que se lhe seguia. Era o Marino Faliero ! Imagina
se eu poderia passar da terceira pagina. Que infer-
nos ignorados deve saborear em nós o Satanaz in-
visível dos encarcerados !
Eu deixar-me-hei levar da tua mão e do teu con-
selho, meu querido Camillo.
Espero o teu livro como o céo do exilio para a
minha alma.
Só peço a Deus que me reserve no mais puro do
meu coração lagrimas dignas d'elle. Se tu quizeres
que te empreste as tuas cartas, mando-t'as, porque
ha n'ellas umas santas palavras que eu quereria na
minha sepultura.
Adeus. Beija por mim os teus filhos.
Teu
Vieira de Castro,
121 Correspondência epistolar
Meu querido Camillo,
Na tua contristadora carta dizes : Tenho eu a
vaidade de crer que coopero em tua alma para que
te desças d'essa opinião. Mais do que isso. Se a
minha alma entender que lhe cumpre descer, serás
mais do que cooperante : por ti o farei.
Ha uma confissão n'esta tua carta que me con-
turba e fulmina. E' quando me dizes que as minhas
desgraças teem posto em perigo a tua razão. A
desventura faz-nos idiotas. Eu não sei as palavras
da minha gratidão diante de ti. O que sei é o que
faria depois da tua desgraça, filha da minha : suici-
dava-me com uma bala que tenho alli.
Que é isto de me fallarem nos meus inimigos a
quem daria gosto a minha condemnação?
Eu não tenho inimigos. Ha homens e mulheres
que me detestam e que me odeiam, mas esses ho-
mens não tiveram nunca uma nesga do meu cora-
ção, nem um serviço do meu braço. Muitos feriu-os
o meu insulto, a todos magoou mais ou menos a
singularidade do meu destino; detestam-me, é na-
tural. Mas o meu inimigo morreu, e se ha uma ou-
tra vida além d'esta elle estará assistindo agora
aos supplicios que me deixou. Esse é que foi o meu
inimigo, porque lhe trouxe três annos os pés sobre
o meu peito e sobre os meus lábios, porque o tra-
zia ao collo a correr pelas salas, porque o levava
sempre pela minha mão á mesa das nossas refeições,
porque ainda oito dias antes de morrer o levava eu
para a ponte d' Algés dando-lhe beijos pelo caminho
e ameigando-a como a noiva, e esse inimigo quei-
mou-me innocente e puro como eu sinto que era e
Correspondência epistolar i23
fui sempre para elle ! Se querem que não dê gosto
aos meus inimigos, queiram também a minha con-
demnação. Quanto mais infeliz eu for menos tran-
quillo poderá sobreviver no outro mundo o inimigo
que me matou.
Eu não penso nos meus inimigos da terra. Quem
não tem direito de me offender e de me querer
mal?
Que direito tenho eu de me queixar de qualquer,
se todas as minhas virtudes, todos os meus afagos,
todos roubei a todos por amor d'um que m'os pisou
e atirou com elles ? Não te aíílijas. Se eu fosse enor-
memente desgraçado, com tamanha luz que tenho
na consciência, começava a crer que ou Deus não
existia, ou presidia á minha sorte. Estes grandes
brios da desgraça aprendi-os com bom mestre. Vê
se te recordas em que outro cárcere se me enta-
lharam na alma estas lições.
Dizem que veio muito dinheiro do Rio para o
meu accusador. Deus é bom ! Se me dissessem que
a mãi d'ella endoudecera ou morrera. Deus sabe o
que me succederia. Sorrio para Deus. A quem
aquelle dinheiro pôde fazer mal é ao meu inimigo ;
a mim não.
Adeus. Beijo-te nas cândidas e socegadas phy-
sionomias dos teus filhinhos.
Teu
Vieira de Castro.
124 Correspondência epistolar
Meu Jilho.
Não sei se te cega a adoração por mim. E' cer-
to porém que eu defenderia o meu crime por modo
estranho a todo o mundo, mas também sei que
este paiz não dava jurados á minha palavra, e que,
afora tu, ninguém quereria ser meu cliente.
O meu crime defende-se pelos dous motivos que
o inspiraram : o amor apunhalado em mim, e o res-
peito ultimo por mim prestado á mão homicida
d'esse amor. Esta é que é a base ! Em mim ; por-
que em mim esta é que é a verdade ! Eu defenderia
o marido que matasse, se esse marido tivesse mor-
to : por ter amado ; e por haver salvado o único
respeito compativel com a memoria da metade do
seu nome !
Esta a base da defeza.
Agora, como provar ?
Com a premeditação.
A premeditação é a eloquência, é a dignidade, é
a santificação d'estes crimes !
Do marido que mata allucinado não sei o que
pensou nem o que sentiu. Do que premeditou, sei
que pensou em deixar puro aquelle respeito, e sei
que sentiu as torturas d'aquelle amor incendiado
com que lhe fizeram chamma, no coração !
Espero, agora mais que nunca, com o maior al-
voroço o teu opúsculo. Eu imagino o que será !
Tenho duas cartas tuas.
Mando-te um folhetim do Vidal. (Nota 2.*). Mes-
mo assim é dos que teem mais abertamente defen-
dido esta causa. Que época ! Ainda nenhum rapaz
defendeu isto !
Correspondência epistolar i25
Adeus, meu filho. Eu lembro-me com muito
amor das tuas crianças. Beija-as por mim. Os
meus respeitos e aífectos á mãi. Abraço-te.
Teu
José.
Meu querido.
Esteve hontem commigo o Julío. Prometti-lhe
perguntar-te se leste o folhetim que elle publicou
ha dous mezes a meu respeito. Se o não leste,
mando-t'o. (Nota 3.^).
Eu devo muita gratidão a este rapaz. Raro me
visitava d' antes, e poz o seu peito por mim n'esta
grande desgraça. Quem primeiro lh'o varou foi al-
gum dos meus amigos Íntimos aterrando-o com a
imprudência de ter oífendido, com o orvalho de la-
grimas que me dera, o ferro em braza dos ódios
que me devem os outros.
Eu estou frio e indifferente. Ha uma cousa que
se me não desencrava do cérebro. Já t'a disse.
Quando penso no extremo com que beijava a mão
que me matou, sinto-me sem direitos para condem-
nar nenhuma outra.
Sinto-me completamente frio e indifferente para
tudo o que é d'esta sociedade de veneno e lama.
Por tal modo me sinto que nem desprezo lhes posso
dar. Quando me faliam d'um miserável, quasi que
o lastimo como a um que nasceu aleijado, ou a ou-
tro que era são e se damnou. Isto é uma felicidade,
porque é a independência da razão e do braço nos
dias que Deus me destinar.
120 Correspondência epistolar
Adeus, meu querido Gamilio. Hoje não tive
carta tua. Gomo estás? Eu escrevi- te hontem.
Os meus respeitos e saudades á nossa boa ami-
ga, e beijos aos pequerruchos.
Abraço-te.
Teu
Vieira de Castro.
Meu querido.
Escrevo-te á pressa, mas não quero deixar de fa-
zel-o hoje para que esta te encontre ainda em Sei-
de, e se não extravie. Recebi a carta em que me
dizias ir para Villa do Conde.
Eu vou passando. Tenho melancolias profundís-
simas, e ás vezes desejava morrer sem dores. Nas
minhas leituras pousa-me nas paginas incessante-
mente a luz triste e desamparada como eu, de mui-
tos dias do passado. Este mal nasceu incurável.
Não podia deixar de ser.
Aqui não vem ninguém. Os raros que raro ap-
parecem penso que se desobrigam forçadamente.
Eu também já ouço com repugnância os passos de
quem me procura.
A tudo isso faço duas excepções : o dr. Mattos,
e o Pereira de Miranda, de quem me falias hoje.
E* uma bella alma, e uma organisação anachronica
n'este periodo.
Disseram-me hoje n'uma carta que aqui, e no
Rio, se fazia correr o boato de que eu não queria
defender-me ; que eu não estava seguro da minha
justiça!
Correspondência epistolar 12']
Que humanidade !
Não me dóe tanto a cerração, calculada, ou sin-
cera, do entendimento ao meu justo intuito.
O que me dóe é que não creiam que, se eu ti-
vesse duvidas, eu próprio as expiaria logo confes-
sando-as !
Mais. Quem me dera que podessem convencer-
me de que matei uma alma pura!
Eu não teria sido nunca deshonrado, e iria pelo
suicidio procurar a oífendida!
Chega agora o Reis. Um homem que o visitou
disse-lhe que corria lá fora que eu requerera inven-
tario, e que dava tudo a elle. E d'ahi, perguntei eu,
que dizem sobre isso?
Resposta do homem:
cQue está e que fica muito em baixo!»
Deus existe, se não mentem estas minhas doces
alegrias.
Dize á nossa amiga que tomara eu que me des-
sem o degredo!
O maior mal dos meus inimigos é não terem
nada contra a minha coragem ! O seu maior bem é
estar em mim tudo contra a alegria da minha
alma !
Adeus. Abraço-vos.
Teu
fieira de Castro.
Meu Camillo.
Recebi a tua ultima carta. Espero em Deus que
te enganarás mais uma vez com os teus diagnósti-
cos.
128 Correspondência epistolar
Se sentires melhoras, manda-m'o dizer, que me
dás alegria.
O escuro da minha alma é pungentissimo. Tenho
tido más noites. Porém conservo a razão e a saú-
de. Assusta-me ás vezes a idéa de andar expro-
priando com essas riquezas algum maior desgra-
çado.
Adeus. Lembra-me muito a essas meigas crian-
ças.
Teu
'Vieira de Castro,
€Meu querido amigo.
Tenho commigo a tua ultima carta. São as tuas
palavras firmes e convencidas que me tiram por ve-
zes d'esta atonia em que me sinto, paralysaçao de
todas as faculdades e sensações.
Não me falles da tua saúde. Isso, e a maior ener-
gia da tua letra, animam-me a suppôr que vaes me-
lhor.
Entra o Santos Nazareth, moço de grandes qua-
lidades e aptidões, que em Lisboa conhecerás um
dia. Abraço-te.
Teu
T>ieira de Castro.
Meu querido Camillo.
Escrevo-te em grande agitação nervosa. Quero
agradecer-te as tuas cartas de ho)e, e pedir-te que
Correspondência epistolar i2g
me informes do teu estado ao passo que fores me-
lhorando, como espero, e como ardentemente de-
sejo no fundo do meu coração e da minha alma.
A tua carta das Caldas corta-me o coração. Eu
só sei o que te devo, e por isso me dilacera o teu
mal-estar.
Nas tuas cartas está já enthesourado o único
brazão e fortuna que hei de dar aos meus sobri-
nhos. Verão por ellas, quando forem homens, as
dores que me pungiram, e os confortos que me
salvaram.
Adeus. Se eu podesse saber todos os dias de ti!
Abraço-te todo no meu peito.
Teu
'Vieira de Castro.
Meu querido Camillo,
O Gresset citava-t'o eu porque de certo conhe-
cias a phrase que fora dita por elle, mas que é de
todos os desgraçados que antes e depois d'elle ti-
veram de a entender.
Para o dia do julgamento já estava riscado.
Aíflige-me pensar que tenho pesado nas^dôres
do teu bel lo coração, e fujo agora de provocar as
tuas lagrimas com as minhas sensações da tua ul-
tima carta. Atormenta-me pensar nas enfermidades
que te torturam, e consola-me com as tuas melho-
ras quando as tiveres. Peço á nossa querida amiga
que me escreva por ti sempre que te possa custar
isso.
Fizeste bem, ou antes não fizeste mal em dizer
VOL. I 9
i3o Correspondência epistolar
que eu não tenho remorsos nenhuns. Sou comple-
tamente frio a todo o conceito que possam fazer de
mim á excepção da mãi d'aquella senhora, mas a
verdade é que eu não sobrevivia ao primeiro rebate
de arrependimento. Quem pôde fazer o que eu fiz
não pôde arrepender-se.
Tentarei fazer-tc a vontade. Quero traduzir o li-
vro do Rapet, Manuel de morale et economie politi-
que, que teve o premio de 10:000 fr. da academia
das sciencias de Paris. Supponho-o um dos livros
mais úteis d'este século. E' a sciencia e a moral
romantisadas n'um conto amenissimo e santo. Em
mim fez-me a impressão de um Evangelho. Se eu
o traduzisse, era para o dar de graça ás classes po-
bres, se o governo ou alguém quizesse publical-o.
Veremos. A minha desgraça faz-me ver uma ironia
pungente em qualquer tenção do meu espirito ulte-
rior a ella.
Adeus. Tenho-te commigo. Se passares melhor,
digam-me. Lembrem-se sempre de mim. Beijo os
vossos filhinhos.
Teu
Vieira de Castro,
oMeu querido Camillo.
Tenho mais duas cartas tuas, consoladoras como
todas as outras.
Tenho tido todos os dias ultimamente razão de
amargura. Hoje mando ao António um jornal dos
Arcos, em que me insultam, e lhe digo te remetta.
O C. Lobo, que m'o mandou, diz que é de padres.
Parece.
Correspondência epistolar i3i
Eu vou na mesma. Lembro-me muito do Ermo,
penso n'elle, e de certo para alli irei logo, se me
derem a liberdade, que não peço, e que tão pesada
me será com a prisão. O Ermo chama me por
muitos motivos. D'alli trouxe todo o coração e in*
telligencia que dei ao mundo. Alli o tenho quasi de
todo isento de memorias esmagadoras. Quasi, por-
que lá passei ainda umas vinte e quatro horas no
fim de 67. Isto faz-me profunda angustia. Tenciono
porém dormir nas prim.eiras noites em casa d'aquelle
santo abbade, se não poder logo habituar-me cá
em baixo.
Não posso demorar me em Lisboa ou no Porto.
Não poderei pois estar comvosco aqui. Facilmente
comprehendes a razão d'esta impossibilidade. E é
só uma: o nojo invencível d'esta sociedade, e o de-
sejo de salvar puros os meus brios, a minha cons-
ciência, e as minhas melancolias, na solidão po-
voada das arvores que meu pai plantou para esta
pouca de sombra que me é precisa e que me bas-
ta. Tenho uns poucos de livros bons. Sei, e tem-
m'o dito Deus em todas estas longas noites, que
serei alli tão feliz quanto posso sêl-o.
Quando se fizerem lá mais negras as minhas nu-
vens, confortar-me-hei antegostando a delicia das
ferias que tu me darás em Seide, e alH também.
N'isto penso com suavissimo contentamento.
Digo-te isto para veres que tinhas e não tinhas
razão n'um ponto da tua ultima carta.
Adeus.
Abraço-te.
Teu
Vieira de Castro,
j32 Correspondência epistolar
Meu Camillo,
Estava hoje para escrever-te, e para Seide á nossa
querida amiga, assustado e triste do teu silencio.
Deus te dê as melhoras todas !
Quero socegar-te a meu respeito. Penso que já
te disse n'uma carta que os meus grandes medos
eram que minha sogra endoudecesse.
Não sendo assim, quaesquer que sejam os ódios
desencadeados contra mim, esses ódios dão-me for-
ça e não provocam outros. Que mãi se ha de pôr
do lado do homem que lhe matou uma filha, seja
qual for a razão d'esse homem ? Eu mesmo não
veria a mãi por detraz da heroina, se esta podesse
existir.
Se eu pensasse na justiça dos homens, poderia
ver o começo d'ella na recusa de todos os advoga-
dos honestos ao procurador d'aquella boa senhora.
Em fim o que eu sinto é que devo ter força para
esmagar as consequências torpes do meu infortúnio ;
e, se Deus me dér vida, espero que me não falta-
rão também nem a consciência nem a razão.
Já hoje encommendei o livro de Proudhon, que
não havia em livreiro algum.
E' justíssima a tua veneração por esse espirito.
Eu tenho lido o Altmeyer, por pensar que a
philosophia da historia me insulasse de mim pró-
prio. Encontro n'elle um vasio immenso, e conden-
sam-se mais as minhas duvidas na sua débil ex-
posição.
Mandei hoje buscar quatro livros teus que me
eram desconhecidos. Passo as noites com elles.
Tu recebeste a minha ultima carta que mandei
para Seide?
Correspondência epistolar i33
E a nossa querida amiga recebeu a minha res-
posta á sua ultima carta ?
Quando quer a snr.^ D. Anna ir ao Ermo ? Já ?
Com que alvoroço me vem essa noticia ! Tu dirás
se alguma cousa resolverem n'esse sentido, porque
eu quero preparar com alguma ordem aquellas so-
lidões para recebel-os.
Beijo-lhe as mãos á minha querida amiga, e
abraço-te.
Teu
Vieira de Castro.
Meu querido Camillo.
Das Caldas recebi, com a de hoje, quatro cartas
tuas. Na ultima davas-me notáveis melhoras, e na
penúltima aconselhavas-me o livro de Proudhon.
Não recebi carta alguma de Seide com retrato. Sup-
ponho pois comtigo que me teem subtrahido cartas
além d'essa. Custa-me perdoar esse infame roubo,
porque o é da muita paz que me deixa á minha
alma a tua escripta.
O retrato muitas vezes o tenho desejado, e passo
momentos todos os dias a contemplar-te n'outro
que tem aqui na cadêa um moço infeliz chamado
Reis, que te conhece e se accusa de não ter seguido
os bons conselhos que em tempo lhe deste. (Nota
4.^). Eu tenciono um dia tirar um exemplar im-
presso d'estas tuas cartas para dar n'ellas a meus
sobrinhos o brazao das minhas penas e das minhas
consolações. E' também um roubo a elles o que
i34 Correspondência epistolar
commetLem os miseráveis violadores da nossa coi
respondencia.
Fazem-me profunda angustia os teus padecimen-
tos. Tenho porém mais esperanças do que tu, e
peço a Deus que sejam também os sustos da tua
imaginação, c o cansaço da tua justa impaciência,
que te escurecem mais o teu estado.
Quando te affligir escrever-me, já pedi á nossa
querida e boa amiga que o fizesse por ti. Eu não
posse hoje pensar em que tu me faltasses no mun-
do. Foi preciso esse receio para eu sentir que ha-
via ainda na terra uma sensibilidade que me pren-
dia fora da minha familia. Sem ti na minha exis-
tência, apavorar-me-hia o vácuo immenso dos meus
olhos e da minha alma. Eu espero que terás saú-
de, meu adorável amigo.
Os teus filhos! A esses darei eu sempre tudo,
o meu tudo que será ? menos aquillo que possa
magoal-os, o contagio da minha desgraça. Ainda os
veremos crescer. Como com elles crescerão talvez
as nossas agonias, é possivel que a vida nos não
fuja.
Eu amo-te e venero-te.
Teu
Vieira de Castro.
Meu Camillo.
Tenho commigo o teu retrato, que todos os dias
verei.
Agradeço t'o immensamente.
Sorri da tua innoccntc phantasia acerca dos ho-
Correspondência epistolar lòb
mens do jantar. Mais me vale o teu sonho, do que
valeria a vontade real da maior parte d'elles.
Não tenho mais tempo hoje.
Abraço-te, e sou sempre
o teu velho
Vieira de Castro.
Meu querido Camillo.
E' a primeira vez que escrevo de noite. E' que
eu nunca me senti tão feliz depois que entrei na
cadêa.
Eu te conto. No dia em que me entreguei á po-
licia disse para o António, ao deixar a minha casa :
«Não quero mais ver o mínimo dos objectos que
ficam aqui. Todas as jóias e vestidos da senhora
que morreu, cerra tudo e manda para o Rio de
Janeiro.» Ao cabo de lo dias elle fez leilão da mo-
bília, e foi a juízo assignar declaração competente.
Resolveu não mandar as jóias, porque eu tinha di-
vidas de réis 2:bzo^ooo contrahidas em 1868 depois
da eleição da Maia, quando viemos para Lisboa
com trens e cavai los. Mandar as jóias era fraudar
os meus credores, que não tinham outra garantia.
As dividas eram do casal, e não tinham servido
para comprar um papel, nem um palmo de terra.
Fez bem, e n'esse ponto resolvi eu o seguinte. Feito
o inventario de que mandei separar duas partes, a do
Rio entrega-se inteira ; da minha pagam-se as divi-
das de ambos, e o resto, se o houver, é para asylos.
Vem a ponto dizer-te que foi logo ordem para o
i36 Correspondência epistolar
Rio para desistir dos meus direitos á metade da le-
gitima paterna da fallecida, no inventario que alli
corre, e ordem de entregar as prestações do monte-
pio recebidas pelo meu procurador desde a morte
de meu bom sogro, as quaes não tinham vindo por
causa do cambio. N'este ultimo paquete chegou a
noticia do meu bello amigo Albino de Oliveira Gui-
marães dando-me parte de ter feito a desistência.
(Nota 5.^.
Ora tudo isto era magnifico, se não encalhasse
na minha ignorância da jurisprudência, e creio que
dos sábios que vivem commigo, e a quem isto era
familiar.
Apparece na Correspondência de T^ortugal, no
ultimo numero, insinuação de ladrão contra o meu
adorável António por ter feito o leilão!
Tive um susto atroz quando suppuz que elle po-
dia ser preso; fiquei contentíssimo quando ha pou-
co me disseram que as culpas se podem desviar
sobre mim.
Mas soube mais o seguinte : eu era casado por
carta de metade ; tenho pois de dar ao inventario a
minha quinta do Ermo, e dizem até que a coroa
ofiferecida no Brazil, o que te repito a ti por ter
graça !
Creio que valerá á pobre choupaninha a sua
própria pobreza. Como as pedras preciosas pesarão
mais do que ella, com cila ficarei talvez.
E ahi tens porque nunca me senti tão feliz : por
um modo, desapressado da angustiosa espectativa
de ver preso este anjo do António; por outro, a
gloria immensa de me ver empurrado para a ex-
trema indigência pela família que eu adorei!
Isto é o que me salva ! Nunca me senti tão se-
Correspondência epistolar i3i
guro de mim, tão certo de que a razão me não fu-
girá jamais !
Para serem completos os meus sonhos devia o
jury condemnar-me. O degredo, e uma banca de
advogado em Loanda, seriam a satisfação inteira
do meu orgulho, do único pobre orgulho que eu
posso ter, que é o de me mostrar bem assim a eU
lay se por ventura para lá do tumulo se sobrevive !
O António está aqui. Brevemente conto man-
dar-te publicadas as cartas que elle vai dirigir á
imprensa sobre isto, que não podia deixar-se pas-
sar em silencio.
Trouxe-me uma noticia do Porto. O Jalles foi
interrogar minha mãi sobre calumnias infames que
te são conhecidas. Ella respondeu que se podesse
estremar algum dos filhos pela .obediência e pela
dedicação d'elle, era eu.
Levantou-se elle dizendo que em tal caso não era
preciso fa\er auto! Este só era preciso se eu fosse
o infame da maledicência publica.
Estou livre de ter um cancro na lingua, porque
de nenhum modo me estimulam estes scelerados a
cuspir-lhes, se os encontrar ainda.
Meu querido, has de estranhar a linguagem
d'esta carta: é que eu nunca tive como hoje a cer-
teza de não endoudecer. A pobreza com a máxima
honra, e estas elevações que se me levantam, não
da cabeça, mas da consciência, fazem-me tão feliz
quanto eu posso scl-o !
Devia-te a ti, meu querido Gamillo, esta pri-
meira expansão do meu primeiro jubilo de encarce-
rado.
Recebi hoje a tua carta. E' nova reliquia para
juntar ás outras que já tenho.
i38 Correspondência epistolar
Peço-te que trates bem em Seide as tuas melho-
ras. Não abuses d'ellas. A tua letra denuncia-me a
debilidade da tua vista. Ha dias o final de uma
carta destacava salientemente do resto: vinha, como
que espreitando, a letra, do mesmo modo que tu
certamente espreitarias para escrevel-a. Não traba-
lhes em quanto não estiveres bom.
Agradece por mim á nOssa querida amiga. Pa-
ga-me bem o Jorge. Eu tenho o rostosinho d'essa
criança pintado na memoria. Estou a vêl-o com a
boquinha ligeiramente aberta, e os beicinhos esten-
didos, a mirar-me muito serio, e tranquillamente.
Continuam as , minhas alegrias. Vou eu mesmo
requerer o inventario, e dar o meu Ermosinho a
elle.
A carta do António penso que te agradará. E'
a historia do facto, provocada pela injuria. Resolvi
porém pagar eu só as dividas.
Recebi a tua de hoje. Cá vai para o meu co-
fresinho aonde as tenho todas. Hei de lêl-a pri-
meiro ao Júlio, que vem cá hoje comer do meu
caldo.
Estou bem. Abraço-te e beijo-te. Beijo os inno-
centinhos todos, e a mão da mai.
Teu
José.
Correspondência epistolar i3g
Meu querido Camillo.
Tive mais dias de immensa melancolia. Deus
queira que não voltem muitas vezes assim! Penso
que foram uma reacção áquella tempestade d'odios
em que te escrevi a ultima carta. Sinto que será
eterna a minha immensa tristeza. Não penso no
dia do meu julgamento, nem sei quando será. Por
isso te não fallei n'elle. Crê na pureza da verdade
com que te digo que peço a Deus ferventemente a
minha condemnação. Não me julgues mal; eu te
digo porque a quero. No dia em que me absolves-
sem, fariam de rnim uma existência insanavelmente
triste. A minha condemnação seria o pedestal eter-
no da minha consciência, a firmeza do meu direito,
a serenidade do meu sorriso perante Deus e a im-
mortalidade ! Se me absolvessem era Deus que me
fugia com o premio das minhas agonias. Depois, eu
tenho ás vezes umas visões translúcidas que me
sorriem das nuvens. Quanto mais eu soífrer aqui,
mais sentirá ella ao lado de Deus, para onde eu
creio que vão todas as almas, e as peccadoras pri-
meiro, que eu não merecia a sua culpa! Se ha al-
guma mulher que no outro mundo renasça orgu-
lhosa do homem que deixou na terra, essa deve ser
a que, depois de ter vivido, veio a morrer ás mãos
do seu amor!
Esta visão salvou-me hontem. De mais: porque
modo influirá ainda na fatalidade do meu destino a
minha absolvição?
Oh ! crê, tu : não sabes com que fervores eu
peço a Deus a distincção de uma pena injusta, e
com quantos sorrisos de felicidade eu iria advogar
140 CotTespondencia epistolar
para pobres n'uma banca de Loanda! Tenho amei-
gado tanto com esta esperança estas minhas noites
eternas que seria quasi selvageria despedaçarem-
m'a!
Ainda uma outra confidencia. Eu devo tudo a ti,
meu querido amigo. Tu sabes qual é o único sonho
que eu tenho? Eu t'o digo. E' que ainda antes de
eu morrer, aquella senhora do Rio seja obrigada
pela sua consciência, e pela voz d'além-tumulo de
sua filha morta, a chamar-me, como me chamou
sempre por mais de três annos: o seu querido Jilhol
Eu quero, antes de morrer, o amor d'ella cheio de
lagrimas, e a amizade de seus irmãos cheia de
justiça ! Sei que hei de ter tudo ; o meu advogado
fallará do céo.
Mas para isso o desterro era um bom auxiliar.
Faria falta essa luz ao pé das outras que mais
tarde ou mais cedo, accesas pela mão invisivel de
um anjo que todos nós temos, lhes hão mostrar e
alumiar serenamente a historia intima do meu noi-
vado de trinta e oito mezes.
Aqui tens porque peço a Deus que me con-
demnem. Olha lá, não me julgues mal. Na senhora
que eu matei havia duas creaturas. Uma que se
perdeu, e me perdeu. Essa, se resuscitasse, morre-
ria de novo. Outra que era todo o meu espirito e
toda a minha alma, aonde acordavam todas as mi-
nhas virtudes e onde adormeciam todos os meus
sonhos. Essa choral-a-hei sempre.
Hontem de noite pensei muito em ti. Queria es-
cutar-te aquella suave persuasão com que tu ha
oito ou dez annos me fallavas aqui, a mim e a ou-
tros, da necessidade da fé. Uma noite, no Grémio,
n'aquella saleta pequena aonde costumava conver-
Correspondência epistolar 14/
sar o José Estevão, fallaste diante de muitos. Lem-
bras-te ?
A mim hoje bastava-me a fé que me deixasse
verdadeiro o meu sonho.
Meu querido Gamillo, abraçar-te-hia longamente
se te tivesse aqui. Nunca esquecerei o immenso
que te devo. As horas de grande coragem mandas-
te-m*as tu, e marcou-m'as o teu relógio na leitura
das tuas cartas.
Treze de setembro ! Faz hoje mesmo quatro an-
nos que embarquei para o Rio ! Porque não vi eu
então na immensa amplitude do mar a medida dos
espaços da minha desgraça? Que data, meu queri-
do amigo !
Li ha poucos momentos urna carta em que se al-
lude a uns convites e agradecimentos para uma mis-
sa, feitos com insultos contra mim. Dizem-me que
foram assignados por quem eu amei e amo tanto
como a minha mãi. A minha vingança será sempre
a mesma : fechar-lhe unicamente o meu coração
para que ella não entre lá a suíFocar-me o amor
que lhe tenho e terei sempre.
Se ella me chamasse ainda o seu querido filho!...
E' impossível. Não é?
Toma estas lagrimas do teu desgraçado amigo.
<£Meu querido Camillo,
O meu principal contentamento são as tuas me-
lhoras. Hontem escrevi-te afflicto.
Na minha carta d'hontem dizia-te que era certo
ter vindo a procuração quando te reflectia que ne-
nhum advogado honesto quizera accusar-me. Res-
7^2 Correspondência epistolar
pondo á tua de hoje. Não dou força a ódio estranho.
Acho lógico o de minha sogra, e agradeço a Deus
a força que esse ódio me dá, c que a loucura d'ella
me tiraria.
Escrevo-te pouco hoje. Annunciaram-me a visita
do Jayme, e dir-te-hci o resultado da conferencia,
em que eu não sei se a sua defeza poderá combi-
nar com o meu propósito.
Abraço-te, meu querido.
Teu
Vieira de Castro.
Meu querido Camillo.
Recebi a tua carta de hoje. Eu tenciono publicar
a seu tempo as tuas cartas amantissimas e santas.
Então t'o direi de novo.
Dizes-me hoje uma cousa que eu já sentia, mas
que estimei ver dita por ti : é que para mim houve
uma dor, e não poderh haver mais.
Ha dous dias que me sinto perfeitamente calci-
nado. Chegaram cartas do Rio asseverando que mi-
nha sogra
Eu sou escravo da lógica das minhas idéas c dos
meus sentimentos. Essa senhora, cujas censuras fei-
tas por ti eu lia a custo, tinha no meu coração e na
minha alma o primeiro lugar. Hoje não tem o ulti-
mo porque não tem nenhum. Era ha um anno viu-
va de um homem que foi um santo, e tal santo, que
Deus consentiu que lhe vilipendiasse a memoria de-
pois de morto quem mais lh'a devera honrar e ve-
Correspondência epistolar 148
nerar ! Que mundo, meu Deus ! Eu acredito em
Deus, se o contemplo nas harmonias sublimes da
matéria; mas horrorisa-me explical-o se o estudo e
o procuro n'estas monstruosidades do mundo moral:
ensina-me tu, meu colossal e adorável Camillo.
Sinto, se tu o sentes, que conspirem contra o
drama. Não me espanta. O contrario seria incohe-
rencia com os ódios sempre crescentes com que a
Providencia dos soberbos de sua desgraça me visi-
ta na guerra acerba dos que te não perdoam a tua
dedicação. Seja.
Adeus, meu querido Camillo.
Ah! O Jayme disse o outro dia ao António que
estava satisfeito por pensar que defenderia trium-
phantemente todas as paginas da Biographia. Elle
é. também, como tu, maior que a sua terra.
Adeus. Sede bem felizes.
Teu
José.
Meu querido Camillo,
Ahi te mando a carta do António que se não pu-
blica, porque o Jayme não quer. Eu obedeço-lhe.
Elle quer que vamos saboreando o gosto de todas
as calumnias para ser mais assombrosa a defeza !
No primeiro minuto custou-me ; voltou porém breve
esta santa indifferença por tudo o que me está fora
da consciência, e que nem deixa ser favor a minha
conformidade.
Esquecia fallar n'essa carta da declaração feita
logo em juizo, pelo António, depois do leilão dos
moveis.
144 Correspondência epistolar
Resolvi não apresentar as dividas de 2:5ooííí50oo
réis.
Hoje faço requerimento para inventario dando o
Ermo, e tudo, como te disse.
Viu hontem o Júlio a tua carta, que o commoveu
muito. E' um bello coração, parece-me. Elle falia
hoje de ti n'um folhetim da Revolução. Creio que a
tens ?
Como estás ?
As minhas saudades vos mando com estes meus
novos e serenos contentamentos.
Abraço-te.
Teu
José,
Meu querido.
Resumo o meu correio de hoje. Deixaram-me
pouco tempo para umas poucas de cartas com que
eu tencionava passar o dia de hoje.
Tive hontem um dia triste. Amarguraram-me mui-
tas cousas, mas sobre tudo a carta de D. Anna. Anni-
quilou-me. O escrever-me ella, o que me escrevia,
tudo isso me pôz no desalento em que veio encon-
trar-me o Jayme. As três horas de conferencia com
este também me magoaram muito, embora a im-
pressão da tua memoria me affligisse sobre tudo.
Disse ao Jayme qual era a minha resolução no tri-
bunal. Aceitou-a. Será pois elle quem me defende,
se Deus lhe der a saúde que eu vejo precária em
todos os homens do grande talento e coração que
vossês teem. Se elle não podesse defender-me, esti-
maria que não me defendesse ninguém, não po-
dendo tu vestir uma toga. O seu plano de defeza é
Correspondência epistolar 14S
o mais alto e sublime, porque é a verdade vista á
luz do grande génio, e ao calor de uma alma de
tamanho igual.
Sei que isto te contentará muito. Agora perdoa.
Quando te dei uma resposta dúbia ao teu pedido,
fugia de magoar a tua sensibilidade. Eu logo te dis-
se que era impossivel arredar me do meu propósi-
to. Nas individualidades caracterisadas como a mi-
nha ha deliberações inabaláveis que é impossivel
vencer.
Hoje tenho um dia mais feliz. Respirei quando vi
a tua letra no sobrescripto. A tua carta encheu-me de
contentamento. Agradeço-a a Deus, se Elleolha para
isto, e se elle teve em conta os meus sobresaltos
de vinte e quatro horas.
Carta tua que eu não accuse, é porque a não recebi.
Cá espero o teu outro retrato. Eu não tenho aqui
nenhum meu, mas também não tenho o meu ulti-
mo retrato. Os últimos que tirei são do Rio e de
New- York, que deves ter. Consta-me que se ven-
dem retratos meus, mas não sei de que modo ar-
ranjados. Repugna mandar buscal-os aos infames
que assentaram balcão no meu peito esmagado.
Tenho momentos horríveis, tenho. Mas espero
não perder a razão, o que peço a Deus, que sabe
que penso serenamente em perder a vida.
Adeus. Abraço-te meu querido amigo pela feli-
cidade santa e augusta que me dá a luz immensa
da tua divina inspiração.
Os meus affectos respeitosos á nossa querida
amiga.
Beijo os vossos filhos.
Teu
José.
voL. I 10
■
14^ Correspondência epistolar
Meu querido Ca mil lo,
Entristeceu-me muito, muito, a tua falta de saúde.
Não te posso dar mais nada, mas as commoçôes
sinceras da minha alma aceita-as, e crê n'ellas.
Morrer deve ser bom. Padecer é que eu acho hor-
rível acima de tudo.
Eu pago com muita gratidão ao Germano, e te-
nho dito em Lisboa aos politicos que elle é hoje
um dos primeiros talentos para sustentar um par-
tido.
Não me aíflige nem me alegra nada do meu jul-
gamento. Estou n'uma sala de tecto muito baixo, e
começa a pezar-me horrivelmente a cabeça, depois
que o procurador régio de cá deu subitamente or-
dem para que se me levantasse a permissão de ir
renovar de ar respirado n'um patamar de duas ja-
nellas, e de entrar n'um pequeno gabinete aonde
lia e escrevia. SoíFro tudo docilmente quando sus-
peito que é o dinheiro da senhora do Rio, que me
dizem ter chegado em quantidade para me crivar
nas publicações dos jornaes, visinhos da audiência,
o que me irrita n'estas perseguições inesperadas, e
que o próprio carcereiro d'esta casa me annuncia
com os olhos e a voz trémulos de lagrimas.
Não esperava ter a força que sinto. Quando me
disseram a mais sanguinolenta das calumnias que
me assacavam, senti pelo mundo um despreso pro-
fundíssimo com que hei de morrer. Agradeço a
Deus esta força. Tenho mentalmente agradecido
aos infames o pedestal das injurias para que o meu
vulto era pequeno.
Queda ser julgado quanto antes, e no meio das
Correspondência epistolar 14J
iras de todos. A prisão aniquila-me, illumina-me o
desterro; e, se me absolverem, tenho medo de não
poder desprezal-os tanto ! O que eu queria era'que
me julgassem.
O advogado contrario oíFereceu a biographia e os
discursos no libello. Dizem-me que deseja provar o
meu atheismo. Quem me dera ser elle !
Adeus, meu querido Gamillo. Beijo as mãos da
nossa boa amiga, e abraço-te e aos vossos filhos.
Teu
José.
tMeu Camillo.
A tua carta veio desopprimir-me. Tenho tão pou-
cas cousas com a minha alma, que estava a vêr
quando o deus estúpido dos desgraçados me man-
dava bestialmente á cadêa o estampido da tua morte.
Ha três dias que vivo n'uma tempestade do ódios
brutaes. Não tem razão de ser especial. E' uma no-
va chamma do meu inferno. Vivo, porque concor-
da com os ódios o despreso incommensuravel que
todos os dias se alimenta no ruido da canalha
livre.
Vejo que aproveitas a saúde escassa pensando e
trabalhando por mim. Deus queira que não com-
movas ninguém ! O que eu quero é a raiva bestial
de todos. Nunca pensei que tivesse tamanho sabor.
O Diário de Noticias falia, sempre que pôde,
em mim para me tratar pelo preso fulano de tal . . .
14S Correspondência epistolar
De dentro de uma enxovia é que se conhece bem
a lama que está lá fora !
Adeus. Abraco-vos.
Teu velho
Vieira de Castro.
Meu querido Camillo,
A tua carta de hoje alegra-me de todo. Foi bom
que se me atormentassem as outras dores com este
susto que me mettcste para poder ter agora uma
alegria. Hontem ficara eu inquieto com a falta de
carta vossa, e aggravou a minha imaginação uma
noticia da imprensa sobre o teu estado. Felizmente
aquella noticia era naturalmente filha de informa-
ções anteriores.
Tenho a agradecer-te uma nova delicadeza. Veio
hontem aqui um caixeiro do Campos trazer-me um
exemplar da 2.'' edição dos ^Brilhantes do bra:{tlei-
ro, e offerecer-me todos os outros que eu quizesse
escolher do catalogo appenso ao livro. Eu mostrei-
Ihe os livros que ha pouco, na mesma loja d'elle,
tinha mandado comprar. Entre estes estavam os
Brilhantes, mas acceitei a tua fineza ficando com o
exemplar da 2.* edição. Devolvi-lhe a elle o exem-
plar da i.'\ por me parecer isso agradável ao pe-
queno. Eu tinha comprado ha pouco: Os brilhantes,
A mulher fatal, oAs memorias de G. do Amaral, e
Vijite horas de liteira. Não tinha lido até hontem os
dous primeiros. Quando os livros chegaram, toma-
ram-me esses dous o Reis e o guarda-livros da ca-
dêa, bom velhote que me ajuda a atravessar as
Correspondência epistolar I4g
tardes. Tomei eu o ultimo dos quatro n'uma noite
por me dizerem que era um livro alegrissimo do
principio ao fim. Ou eu li cousas que lá não esta-
vam, ou quasi todo elle é de uma profundíssima
melancolia. Muitas d'aquellas historias me aííligi-
ram. Dias depois, as Memorias de G. do Amaral
atormentaram-me igualmente, e resolvi adiar a lei-
tura dos outros. Hontem porém animou-me á lei-
tura dos Brilhantes a circumstancia de me serem
enviados por ti. Deliciaram-me as cem paginas que
li até á meia noite, mas hei de ler o resto de dia
para me não intimidarem nas trevas os angustiosos
lances ou tristes conceitos que presumo no curso
d'esta historia. Depois, a pagina 8o d'este teu livro
deixou-me com medo de encontrar novas e verda-
deiras prophecias para mim.
Quem dera cá o fim de setembro, se Deus me
não dá esta esperança de os ter cá para m'a levar
mais tarde. Eu decerto aqui estou. Já te disse, e
repito, que eu não dou um passo para abreviar o
meu processo, nem sequer interrogo alguém acer-
ca d'elle.
Agradeço-te muito a tua amoravel lembrança de
pores á minha disposição os teus estofos. Que on-
das nos separam dos tempos d'essa palavra ! Eu
tenho commigo uma cadeira que já tive em Coim-
bra e no Ermo, e uma cama de ferro onde dormia
um dos meus criados. Não quereria eu que as tuas
mobilias viessem fazer fausto a quem teria de pôr
todos os dias diante d'ellas a sua toalha e talher
de jantar.
Adeus, meu querido amigo. Espero com ancie-
dade a confirmação d'estas boas e confortadoras
noticias d'hoje.
i5o Correspondência epistolar
Os meus respeitos á nossa querida amiga. Beijo
os vossos filhos.
Teu
Vieira de Castro,
Meu querido Camillo.
Recebi a tua carta de Braga. Continuo a esperar
a ultima hora da tua convalescença. Deus a traga
breve !
Eu morro de calor. A atmosphera tem concor-
rido no adormecimento lethargico das minhas facul-
dades, o que me dá a serenidade dos moribundos
sem dor, embora o despertar depois para a vida
me seja amargo, e tanto mais quão longo foi o in-
tervallo do repouso.
Não trabalho. Leio bastante, e estudo o inglez
com um homem que vem aqui três vezes por se-
mana.
Voltou hontem o pequeno do Campos. Trouxe-
me um exemplar da 2.'^ edição da Douda do Cau-
dal, Eu tinha-lhe dito que tencionava mandar bus-
car este livro quando acabasse a leitura dos outros.
Elle teve a bondade de trazer-m'o logo. Disse-me
que tu havias dado ordem especial para me traze-
rem a Mulher fatal, mas que brevemente o fariam
por quererem dar-me a 2.* edição. Mostrei então o
exemplar que eu mandara comprar, c como fosse
da i."^ edição, o pequeno levou-o, ficando de trazer
opportunamente o da 2.'^ Este livro só então pode-
rei lêl-o.
Hontem depois do meu jantar sentei- me na mi-
nha poltrona do Ermo e de Coimbra, e conclui a
Correspondência epistolar i5i
leitura dos Brilhantes. As ultimas cem paginas li as
constantemente através das minhas lagrimas. Cho-
rei suavemente, e fez-me bem. Eu acho este livro
adorável. E acho-o também um livro óptimo por
todos os pontos.
Os teus livros tiveram sempre um grande poder
na minha organisação psychologica, e agora é que
eu o tenho sentido bem, n'este despenho de uma
grande desgraça, em que eu recordo a sós commigo
os pedestaes creados por ti para a consciência pura,
contra que se levantam infrenes e estúpidas a ca-
lumnia e a aífronta. Eu já mereci a Deus a supre-
ma consolação de me sentir bem e feliz com os
aleives dos perversos.
Esta santa superioridade começou a formar-se na
minha alma aos i3 annos com a leitura dos teus
livros, singularmente influentes em muitas saliências
do meu destino.
Eu te agradeço tudo, meu querido amigo.
Vou mandar esta carta para as Taipas na certeza
de que é o mais seguro.
Teu
Vieira de Castro.
Meu querido Camillo.
Penso que serei julgado no dia 28. — O Diário
de Noticias já hoje annunciou que as authoridades
brazileiras pediram lugar ! Não poupam nada. Ha
dinheiro a fartar, e diz-se que
para publicar, como publicou, os libellos da accu-
i52 Correspondência epistolar
sacão, sendo um d'elles a synthese das principaes
torpezas com que me infamam ! Foi publicado no
dia i8, porque n'esse dia expirava o prazo para
apresentar a contestação, sabia-se que o defensor a
reservava para a audiência, como o próprio Diário
indiscretamente confessava no dia 19, e d'este mo-
do ficavam as torpezas a lavrar até ao dia do jul-
gamento ! E' o primeiro caso que se dá na im-
prensa !
Meu querido amigo, peço a Deus forças para
atravessar esta onda. Não me preoccupa a con-
demnação do meu delicto ; apenas desejo, e espero
da Providencia, que fiquem de todo esmagadas as
calumnias infernaes com que o fizeram horrendo !
N'esses dias pedirei a algumas das tuas cartas a
coragem com que ellas me salvaram já.
Abraço-te, meu querido amigo. Peço-te que faças
com que os teus filhinhos orem a Deus para que
me dê o heroismo sereno de que eu preciso para
esta grande provação do meu julgamento. Adeus.
Os meus affectos á snr.'^ D. Anna. Parte do meu
coração está comvosco.
Teu
José.
Meu querido Camillo,
As tuas cartas são a minha vingança e o meu
desforço, ou antes — que eu sinto sinceramente que
o desforçar-se ou vingar-se a gente de tal socieda-
de é descer ao nivel d'ella — são ellas a consolação,
a companhia, o amparo dos meus confortos inte-
riores.
Correspondência epistolar i53
Eu bem sabia para que serviria ao advogado a
Biographia. Escrevi atrapalhadamente, se te dei a
entender cousa contraria ao que me dizes hoje.
E' certo que o juiz marcará dia n'este mez para
o julgamento. Suspeito porém que a parte diga a
uma das testemunhas que não compareça, não
prescinde d'ella, e provocará assim o adiamento
para fevereiro. Gomo infâmia espero-a, como per-
seguição agradeço-a a Deus. Veremos.
Li com satisfação a carta do Germano. Devol-
vo-t'a. Gooperarei comtigo, sem que elle o saiba, no
seu despacho. Sei que elle é concorrente a um lu-
gar na Relação do Porto. Pedirei muito ao Pereira
de Miranda que o proteja, e mostrarei que é me-
nor a conveniência do Germano do que a d'elle e a
do seu partido.
Continuam a perseguir-me. Fazia-me companhia
na enfermaria aonde estou o Pedro dos Reis. Con-
cedera o carcereiro que elle viesse aqui ficar ás
noites. Agora mesmo levanta essa licença, e sei que
é por ordem do procurador régio. Faz hoje mesmo
seis mezes completos que entrei n'esta casa. Será
a próxima noite a primeira que ficarei só. Deus não
me foge da razão, espero-o, mas afflige-me isto.
Acresce que li hontem na Correspondência de Por-
tugal de 20 de maio o que alli se publicou contra
mim. Entre as injurias que já te relatei, e de que se
fez echo o advogado, avulta esta: «Suspeita-se que
V. de Castro assassinara de combinação com o. . . *
que se vai rindo caminho de Paris!»
1 O jornal referido citava o nome de José Maria d' Almeida
Garrett.
(Nota do editor).
1^4 Correspondência epistolar
Chega a ser providencial esta infâmia. Se eu
quizesse defender-me, querendo esganar ás minhas
mãos o miserável de quem me faz parceiro o ulti-
mo dos negros da imprensa do mundo, a defeza
seria essa. Villões! negríssimos villões!
O Jayme caminha para o ideal da minha defeza,
segunda me consta. Hontem namorava-o a idéa de
não apresentar uma testemunha, de não offerecer
um documento. Ouviu o meu coração !
Suspeita-se uma infamissima insidia na apre-
sentação do Moraes Leal e dous villões que são
dados com elle, sem se saber para quê, homens da
plebe.
Adeus, meu querido Camillo. Beija o teu Jorge
por mim.
Abraço-vos.
Teu
José Caridoso,
Meu Camillo,
Deves ter recebido hoje a carta que hontem te
escrevi em resposta á tua ultima.
Vou pedir um grande obsequio á tua boa alma
tão solicita a favor d'estranhos.
Peço te que ponhas o teu nome no memorial in-
cluso, e o mandes ao Alves Matheus acompanhado
de uma carta de verdadeiro empenho a favor d'esse
padre, que elle já conhece, mas por quem se inte-
ressará só depois do teu pedido.
Este padre é o que vem hoje romanceado na
carta de Lisboa do Primeiro de Janeiro, Tem-me
Correspondência epistolar i55
feito boa companhia, e eu tinha verdadeira vontade
de servil-o:
Adeus. E' o dia 28 o destinado para o julga-
mento. Não sei porém se o adiarão.
Saudades e aíFectos meus.
Teu
'Vieira de Castro,
Meu querido.
Tenho duas cartas tuas. Faz-me bem vêr-me tão
altamente applaudido por ti. Nada tenho com o
mundo. Não é por isso que me faz bem. Mas dou
contas á minha consciência, e fico sereno, se as
boas almas e os grandes espiritos como tu enten-
dem que a minha desgraça teve pelo tumulo res-
peitos dignos dos extremos que o meu amor dera
sempre aos dias da felicidade.
Lê na minha alma. A minha alma é uma cousa
immensa. Eu entendo que ficaram no mundo o
corpo que penou, e as deliberações frias da alma
que trahia. Para o céo passou a parte pura do es-
pirito que Deus haverá recebido. Eu choro essa.
Não sei se é virtude, se é fraqueza \ sei e sinto
que é um luto irreparável nos dias do meu destino.
O que me vale são as minhas visões. Vejo-a a
mirar-me, do céo á vontade com que cu me amor-
talho para que no decoro do meu infortúnio nin-
guém deixe de ver que a amei immensamente.
Quando a minha dor me diz sempre, e ao cabo de
tudo, que o meu crime era o meu dever, e orgu-
lho único possivel da memoria d'ella, e o pudor e
i56 Correspondência epistolar
a dignidade de ambos, o meu anjo da guarda
acrescenta: <e a redempção d'ella das angustias in-
fernacs que a despedaçariam viva, quando sobre
o coração lhe despenhasse Deus o peso de sua
culpa!»
Ah! isto sobretudo me dá toda a serenidade da
minha alma, meu bom e querido consolador.
Quando vieres a Lisboa traze a Nossa Senhora
de Lourdes, se te lembrar.
Não venhas aqui sem que possas fazel-o. Peço-te
encarecidamente isto.
Adeus.
Receberias uma carta minha que levava outra
para o Freitas Costa?
Receberei com grande prazer a carta da nossa
boa amiga que me promettes.
Lembro-me com muitos aífectos, e abraço-te.
Teu
José.
^eu querido Camillo.
Quem me dera pôr já as minhas lagrimas no teu
drama e no teu livro! Com a tua justiça folgo cu
de que os outros me insultem.
O Diário de V^pticias continua hoje a tratar-me
pelo mesmo modo por que tratava o João Brandão.
Deixal-os, os miseráveis! Magoavam-me, se eu fi-
zesse melhor conceito dos que os lêem.
O libello da parte que me accusa é miserável.
Apresenta cartas minhas á familia do Rio que fa-
zem chorar um perverso. Foram as peores que en-
Correspondência epistolar iSj
centraram! N'uma digo que o... foi infame com-
mjgo. N'outra, fallando de politica, dizia a meu
sogro: que continuávamos a exhibir mau rei, mau
parlamento, mau governo e mau povo! As cartas
são oíferecidas provavelmente para me delatarem.
Pois Deus pôde presidir a isto que é a vida de
barro ?
A Biogi^aphta toma grande parte no libello. Es-
tão marcadas todas as paginas em que fallo da nossa
boa amiga.
Dos empenhos principaes do advogado o pri-
meiro é mostrar que sou impio e atheu.
No opúsculo A Republica está marcada uma nota
em que eu digo ter visto em Nev^-York a cadeira
do Washington, que é alli venerada como reliquia.
Isto é uma das provas que tem o homem.
De tudo só me são amargas as calumnias, que
o Jayme perguntará no tribunal em nome de quem
são ditas.
Dizem que grande parte das jóias recebidas no
Rio são as que eu depositei. Ora não só são todas,
mas muitas outras. Eu de mim puz lá os botões
da camisa, e o relógio.
Dizem que commetti o crime porque estava ar-
ruinado! A minha ruina eram loo libras por tri-
mestre, uma legitima a receber, essas jóias, uma
quinta, etc.
Diz o infame que a senhora fallecida me não que-
ria quando casou ! Como se o meu crime não fosse
pelo meu caracter a resposta triumphante! Se eu
fosse um infame como elles, e quizesse pôr a des-
coberto o tumulo que estará sempre por detraz do
meu peito, que enorme confusão em que os po-
ria eu!
j58 Correspondência epistolar
O Jayme deve de ser sublime! A minha conso-
lação é saber — sentir que lhe dou na minha ver-
dade todos os elementos do seu immenso trium-
pho.
Isso é o que importa. A minha liberdade ou o
meu desterro, isso é cousa minima, porque eu con-
tinuo a não saber qual será melhor.
As testemunhas de accusação que arranjaram
contra mim são o Philippe de Carvalho da Corres-
pondência de Tortiigal, e o Moraes Leal, redactor
do Mosquito.
Juntaram ao processo uma carta do António, em
que elle diz para o Rio que o primeiro é o mais vil
canalha que conhece !
O segundo é um para quem eu em Coimbra uma
vez apontava á porta de uma loja, perguntando ao
dono d'esta se também se vendia aquelle traste !
Em fim, será como Deus quizer.
Recebo qualquer melhora tua como um presente
opulento. O Jorgesinho viverá. E, se morresse,
melhor. Pois tu não sentes dentro de ti a vontade
sincera de ver morrer as criancinhas que sincera-
mente amas? Eu tremia hoje diante da responsabi-
lidade tremenda de me fazer pai.
As tuas cartas são todas de uma deliciosa estima
que profundamente me commove.
Sou gratíssimo ao interesse da nossa querida
amiga.
Abraço-te.
Teu
Vieira de Castro,
Correspondência epistolar i5g
Meu querido Camillo,
No meio de tudo é santo e consolador ter uma
aíFeição que nos comprehenda, e grande compensa-
ção que essa esteja em homem do teu entendimento
e da tua alma !
Não sei porque viste tamanho desanimo na minha
carta. Sincera e friamente a escrevi. Crê. O que
alli se refere á convicção da minha justiça, ao que
eu faria se essa convicção não fosse certeza, á im-
potência dos meus inimigos, e a tristeza fatal de
mim próprio, tudo isso é assim, mas não é menos
nem mais do que eu te disse. Não tento illudir-te,
nem condenso de mais as névoas do meu destino.
Este tem o seu farol frouxo e triste a chamal-o do
Ermo, d'onde me sinto ainda muito distante. Se eu
lá chegar, parece-me que não serei dos maiores
desgraçados. Aqui tens como eu placidamente penso
e calculo sem inventar os caminhos do meu porto.
O que me pesa é não me mandares tu para alli-
vio d'esta pesada jornada a boa nova das tuas com-
pletas melhoras. Veremos o que sentes em Villa do
Conde. Quando d'ahi fores ao Porto passarás pelos
sitios que eu mais não poderei ver *.
Teu
José.
Meu querido,
Sinto-me atribulado diante do enxovalho — ahi
vai esse.
Todavia quer Deus que eu vá ao de cima da
* AUude á quinta de Moreira.
i6o Correspondência epistolar
onda dos ódios. Se me passar por cima da cabeça,
irá com ella a razão, e isso lhe peço eu que não
com as lagrimas mais puras da minha alma.
E certo que serei condemnado, e já particular-
mente pedi o degredo ao juiz.
Escreve-me todos os dias. Eu não era vulto para
tamanho martyrio. Começo a pensar que Deus
premeia o meu immenso infortúnio. Se não é prin-
cipio de loucura. Deus alimente em mim esta sal-
vadora visão.
Recebi a tua carta. Adeus.
Teu
José.
Meu filho,
Fizeram-me a vontade. O meu infortúnio con-
quistou uma passagem gratuita para Loanda, aon-
de quererá Deus que a minha palavra se inspire ao
serviço de desgraçados. Ha 24 horas que eu ouvi
ler a minha sentença. Foi então que pela primeira
vez ergui a cabeça no tribunal, que a minha cons-
ciência appareceu na minha fronte, e que Deus pôz
nas minhas palavras a serenidade do meu animo c
a tranquillidade do meu triumpho.
Jayme de fendeu- vos como a mim, com o coração
e com a alma. E' um monstro este rapaz. la-me
despedaçando.
Quando vens a Lisboa?
Eu quero partir quanto antes.
Tenho as tuas cartas.
Adeus. Abraço-vos.
Teu
José,
Correspondência epistolar i6i
Meu Camillo.
Recebi a carta da snr/ D. Anna. Hei de escre-
ver-lhe. Hoje estou em mudança de um lugar para
o outro.
Dize-me se recebeste a carta que te escrevi de-
pois da minha condemnação. Devias recebel-a no
sabbado ou domingo.
Aceito de Deus as sympathias que a opinião dá
ao meu infortúnio nas ovações com que recebe o
teu drama. Por ora estou sereno. Deus continua a
estar na minha consciência e na minha razão. As-
sim me não desampare nunca !
De resto a minha dor é toda a minha alma, e
sei que não sahirei nunca fora d'ella !
Suspiro por vêr-te ao pé de mim. Estimo a noti-
cia que me dás.
Deus continue as tuas melhoras.
Adeus. Aceitem o meu coração agradecido.
Teu
José.
Meu querido Camillo.
Quando chegou a tua carta no sabbado tinha
commigo o Jayme. Este rapaz é colossal. Li-lh'a.
Elle estava sentado n'aquella nossa velha voltaire,
e ás ultimas palavras tuas cosia se com ella para
comprimir nas paredes do peito o vagalhão das la-
grimas que eu lhe ouvia a atropellar-se lá dentro.
Tremiam-lhe os lábios, e a fronte immensa fez-se-
Ihe da cor da morte como sempre que aquelle for-
VOL. I 1 1
102 Correspondência epistolar
mosissimo coração é tocado por um raio de luz su-
perior, ou por um gemido de santa piedade. Esta
alma é um anachronismo n'estes tempos E* im-
mensa.
Uma hora depois pedia-lhe eu pela segunda vez
o seu retrato. A' primeira tinha-se ficado a olhar
para mim enleado por novas convulsões da sua
physionomia, c eu suppuz que era ainda o enterne-
necimento em que o punha o teu pedido. Não era.
Contou-me a seguinte historia :
Antes de partir da ilha para Portugal, ha annos,
pedira-lhe a mãi o retrato. Elle promettera man-
dar-lh'o d'aqui. Passou muito tempo sem cumprir
a promessa. Havia n'clle uma repugnância invencí-
vel a retratar-se. O seu espirito originalíssimo via
ahi uma vaidade de que as razões em contrario não
logravam desconvencel-o.
Foi para Coimbra. Adoeceu, e o presentimento
da morte persuadiu-o a favor da santa pretenção
da estremecida senhora, e do justo desejo já então
de muitos admiradores e amigos seus. Quando ia a
preparar-se para o retratista cahiu de cama. Sen-
lou-se por vezes a morte á sua cabeceira. Quando
a elle lhe pareceu que a visita era sincera e de vez,
escreveu duas linhas á pobre senhora pedindo-lhc
o seu derradeiro perdão e a sua ultima benção.
O retrato não ia.
Poucos dias depois a mãe entrava no céo, á pro-
cura d'elle, para lhe perdoar e abençoal-o. Ella mor-
reu, e elle escapou.
Mais tarde volvera o pae a pedir-lhe o retrato.
«Levou-o minha mãi para o céo!» Resposta d' a-
quelle espirito angélico.
«Aceitarás tu e o Camillo com um abraço a mi-
Correspondência epistolar j63
nha recusa,» tinha-me elle dito antes doesta lacri-
mosa historia.
Eu abracei-o. Tu abraçal-o-has quando vieres.
Deus não fuja nunca da minha alma com estes
santos enlevos ! Que suavíssimo orvalho de lagri-
mas ! Já me úz da mai d'elle uma outra companhei-
ra no céo, que de lá, como a minha na terra, con-
ta desde hoje um filho a mais!
Se a desgraça é assim, eu peço a Deus, de joe-
lhos e de mãos postas, que me deixe ser sempre
desgraçado !
Adeus, santo consolador da minha alma ; beijo-te
e abraço-te.
Teu
Vieira de Castro.
Meu querido Camillo,
Não demoro um instante em te abraçar.
Se o condemnado tiver um dia liberdade, serás
tu o primeiro a receber as tristezas que ella me ha
de produzir.
Deus te dê a saúde. E a mim a virtude de te
ser eternamente agradecido !
Abraço-te estreitamente.
Teu
José,
Meu querido Camillo.
Escrevo-te á pressa. Não quero que amanhã fal-
te ahi o meu abraço. * Elle vae de mais a mais ao
* Escrevia na véspera de Natal.
j64 Correspondência epistolar
teu peito e ao da minha boa amiga agradecer estas
novas lagrimas que me fizeram as palavras da tua
carta de hoje. Deus ha de querer que um dia ainda
nos abracemos de mais perto !
Mando agora ao Jayme a tua de hoje.
Tenho as tuas duas ultimas. Conheces-me e ava-
lias-me profundamente !
Adeus, meu filho.
Abraço-vos muito contra o meu peito. Beijo mui-
to as creancinhas.
Teu
José.
oMeu querido Camillo.
Recebi a tua ultima cartinha. Li hontem. no Pri^
meiro de Janeiro uma cousa adorável tua, como tu-
do teu. Os estrondos da tua cabeça são como os
do céo. Orvalham-te o estylo e enchem-no de pé-
rolas.
Dizem-me que vai o teu drama depois d*amanhá
e que ha grande anciedade de vêl-o. Eu conto os
dias que me separam da tua nova publicação acer-
ca do meu infortúnio. Quando pouco mais ou menos
chegará ?
Aonde moram ? Gomo está a snr.* D. Anna ?
Meus queridos dias de Seide ! Pois ainda alli nos
juntaremos d' aqui a lo annos ?
Abraço- te.
Teu
José.
Correspondência epistolar i65
Meu querido Camillo.
Eu tenho as tuas 42 cartas com um prologosinho
para os meus sobrinhos, que hão de lêl-as com to-
das as outras que o teu providencial coração man-
dou ao meu cárcere. Não me separo d'ellas.
Pôe uma ou outra no Condemnado, sim ? Que im-
porta isso á tua immensidade ? Tudo quanto escre-
vas é santo para mim ! Sei que me farás isto.
Quando estará impresso o drama ?
Tn bem sabes o que a minha alma estimará ou-
vir da justiça da tua. Adeus.
Abraço-te.
Teu
Vieira de Castro.
Meu querido Camillo.
Respondo á tua de hoje. Não posso demorar este
novo agradecimento que tu santamente impões ao
affecto que te tenho e á gratidão que te devo.
Considero-me feliz quando medito que Deus me
concede contemplar em vida estas perpetuas bên-
çãos que tu estás compondo para a minha sepul-
tura.
Ainda não vi o Condemnado. Não me disseste
que estava a imprimir-se? Quando virá?
Eu tenho immensa vontade de pôr as minhas la-
grimas nas tuas doces paginas.
Doe-me do coração que te oífendam por amor da
tua dedicação por mim.
Não me surprehendem. . . Crê porém que mui-
tos amigos e admiradores teus, que tu nem conhe-
i66 Correspondência epistolar
ces, folgam de não vêr levantada no teu nome uma
cousa c(ue ahi anda tão baixa e ridiculamente. Eu
sinto-me lançado para o numero d'esses.
Já sabia que levavam aqui o Condemnado, Se
Deus permittisse que elle me desse aqui a estima
de muitos corações como eu sei que succedeu no
Porto ! Eu hoje não quero senão a estima e amor
de todos. E' por isso que aguardo com muito aba-
lo o resultado das representações.
Os meus aíFectos e respeitos á nossa querida
amiga.
Beijo os pequerruchos, e abraço-te, meu bom e
adorável Gamillo.
Teu
José,
Meu querido Camillo.
Beijo a tua mão, meu querido filho da minha al-
ma, e ponho n'ella estas lagrimas suavíssimas que
sahem da minha alma para lá caberem bem claras
estas santas e preciosíssimas palavras da tua dedi-
catória.
Obrigado, meu querido Camillo. Crê, porém,
que eu mereço isto que me dizes. Sou muito infeliz,
e a consciência ainda me não convenceu que mere-
cia sêl-o tanto.
Mas não te afflijas. Eu sinto-me tranquillo. Quero
dizer-te uma cousa que deve consolar-te. A desgra-
ça faz-me extremamente bom. Essa virtude sinto-a
em mim, e agradeço-a de joelhos e de mãos postas
a Deus ! Quando vieres tu verás que te não minto.
A sociedade fez um grande heroísmo commigo.
Correspondência epistolar lôj
Não foi dar-me a reparação das injurias. Foi não a
esconder, e confessai a. De toda a parte me asse-
veram que sou estimado e querido. Eu sinto-me
pois bom para todos, e peço a Deus que me deixe
morrer assim. No Porto sei' eu que devo tudo a ti.
Toda a gente m'o assevera, e diz-m'o hontem o An-
tónio n'uma carta cheia de commoção pelo immen-
so que te devemos.
Todas as cartas que me chegam d'alli vem es-
criptas com as lagrimas que o teu drama fez chorar.
Abraço-te e beijo-te fervorosamente.
Adeus. E a nossa boa amiga ? Vou escrever-lhe.
Beija as criancinhas. Devo á oração d'ellas a
tranquilla serenidade dos meus trcs dias de orató-
rio. Beija-as outra vez
o teu pobre
Vieira de Castro,
Meu querido Camillo.
O drama cegou-os ! O esplendor era de mais,
e por isso mais mortal o anathema jurado a tama-
nha luz ! Esta foi a impressão, ao que calculo do
que ouço e leio com o meu silencio profundíssimo.
Dir-te-hei tudo o que souber, porque entendo
cumprir um dever ....
Na impotência da analyse malévola ahi tens o
que chega aos meus ouvidos:
i.*^ Jorge devia perdoar.
Isto prova o que esta gente é! Hontem, conver-
sando com o Jayme, dizia-lhe eu: Quando cheguei
ao fim do drama afoguearam-se-me as faces quando
iG8 Correspondência epistolar
me lembrei que poderiam vêr-me no homem que
permittia ao infame chorar por ellal Quanto mais
perdoar! — E dizia-lhe a verdade.
Devo porém dizer-te que depois, a sangue frio,
e apanhando melhor a synthese da tua concepção
mui differente da minha historia, approvei tudo.
Isto tinha muito mais que dizer, mas que é inútil.
2.° Os vinte annos de degredo dão a entender
que era a sentença que se esperava contra mim!
Ah Cambronne, Cambronne !
3.° O drama parece a apotheose do infamei
Esta ultima revela profundamente duas cousas:
I.* o ódio infernal contra o ferro em braza; 2.* a
impotência absoluta de fazer brecha na tua obra.
Mas não é nada d'i.sto. E' tudo quanto diz a vis-
condessa de Pimentel pela voz arripiadora d'aquella
infernal Gertrudes que estava no mundo para ser o
echo das tuas apostrophes. Creio que vai admira-
velmente.
Ahi tens a verdade, segundo penso.
O faz o mal que pôde no Jornal da
Noite. No sabbado dizia que não havia publico no
dia antecedente, e inspirava ao umas insi-
nuações que vinharTi no folhetim.
Consta-me que ha conspiração para não irem se-
nhoras ao theatro, e isto teve em grande parte, se-
gundo calculo, origem na cabeça fecunda de...
Perdoa, filho. Eu o que sentia era que estes
maus me tirassem a bondade com que quero mor-
rer.
Beijo-te, meu filho.
Teu
José,
Correspondência epistolar i6g
Meu filho.
Ahi te mando o folhetim do Júlio. Beijo-te, meu
adorado cantor, e pai.
Se não fosse por ella, uma outra desgraça qual-
quer, maior ainda, quasi que seria um bem com o
orgulho e com a gloria das tuas azas por cima!
Imagina a minha surpreza ao lêr os teus inspira-
dos versos.
Adeus. Abraço-te estreitamente, meu adorado
Camillo. Os meus aíFectos á nossa amiga.
Pois Deus ainda nos mandará um dia ahi, ou a
Seide? Oxalá!
Teu
José.
Meu querido Camillo,
Escrevi-te ha pouco depois de lêr as primeiras e
as ultimas paginas do teu opúsculo *.
Li agora a narrativa. Senti o pavor que me dei-
xaria uma pagina do Hoffmann ou do Poê ; e sinto
o presentimento doloroso de vêr com aquella histo-
ria apunhalar o teu coração e o meu ouvido!
O teu livro prova uma these. Matar é supremo
bem, comparado ao supplicio da vingança. Provas
com a suprema eloquência.
A tua historia, porém, figura uma mulher que
diz ter-se casado violentada; e o marido não prova
o contrario, dizendo mesmo: como quer que fosse,
etc.
Ora eu não absolvo em caso nenhum a queda da
• Allude ao livrinho intitulado: Voltareis^ ó Chrisío?
770 Correspondência epistolar
esposa; mas também não dou direitos nenhuns ao
marido que aceita a violência. São as minhas velhas
theorias que muitas vezes me ouviste. Pôde dizer-
se: mas se este marido ainda assim, suppliciou, que
maior direito não tinha de matar o marido perfeito?
De accordo. Isto é um reforço da these.
Mas se aquella mulher dissesse ao padre : «eu
amei, e fui amada; pequei por allucinação», nem
haveria prejuízo para a these, nem os horrores do
castigo pareceriam tão tremendos !
Agora o meu presentimento é este: os maus e
inimigos quererão apropriar em mim aquella histo-
ria, e podem tentar afogar com aquella denuncia de
violência a prova em contrario que deixou o meu
processo. A apropriação da liistoria occorrer-lhes-ha
de outras analogias, e elles infamemente calarão as
dessemelhanças.
Perdôa-me. Leio na tua alma, e por isso sei que
não recusarás o teu peito a este desabafar de do-
res antecipadas que eu começo a sentir por ti e por
mim.
Reportando-me acima: se aquella mulher dissesse
as palavras que escrevi, dizia a verdade da minha
historia, justificava o supplicio soffrido, e dava todo
o relevo á differença do meu castigo.
Eu digo-te isto porque receio até que haja duvida
minima no teu espirito acerca d'isso.
Agora me occorre uma cousa tremenda! Se al-
guém suspeita de que tu não tens convicção pro-
funda de que não fosse violentada a senhora que
casou commigo ! Pela saudade d'ella, que não quero
perder, te juro que é verdade absoluta em relação
a nós isso que eu digo que poria na mulher da tua
narrativa.
Correspondência epistolar lyi
Tenho pena. Parece-me que nada alterava a his-
toria, e antes aperfeiçoava a tua immensa demons-
tração.
O que eu sinto é a pedrada dos maus, que ex-
plicarão pela vingança a queda de quem morreu. E
não foi assim, não, coitadinha!
Com pequena alteração o teu opúsculo deve-me
conso*lações infinitas.
Não te magoes, filho. Eu vejo acima de tudo o
dever de te abrir a minha alma.
Teu
José,
Meu querido.
Ainda trémulo com a leitura das primeiras e das
ultimas paginas do teu divino opúsculo, corro a
acudir por mim, e pelo teu socego sobresaltado
com a minha ultima carta.
Pois quê, filho ? A tua ultima pagina é a minha
theoria. Deus me livre de ter sentido a premedita-
ção fria, como entendeste !
Essa é a do assassino que mata para roubar !
A premeditação que eu defendo é aquella que tu
explicas a despedaçar-se a cada estrondo, mas re-
vivendo sempre ! E defendo esta, porque tu sabes
que esses cadáveres que a insultam, não admittem
essa mesma, porque não querem senão a loucura
da ra:{ão para desculpa ! Nós defendemos a loucura
do amor com a razão infernalmente clara sobre as
ruinas da alma !
Pois é clarissimo !
Para veres que senti comtigo, ahi te mando essas
i']2 Correspondência epistolar
linhas escriptas depois da carta que te escrevi, e
que me interromperam. A premeditação, sim, mas
a premeditação — máximo tormento, que é o que tu
sublimas também, negando a premeditação, mas
como significado do que vulgarmente tomam por
isso.
Isso que te mando, queria eu que fosse a base
de um livro, que se chamasse Claudina, e que eu
podesse pôr d'aqui a dez annos sobre o tumulo
d'ella !
Esse livro devia provar que o meu homicidio era
o meu ultimo beiio, que a sua morte era a sua re-
surreição !
Se Deus me ensinasse a escrever esse livro !
Amanhã te escrevo. Devo)ve-me esse papel quan-
do quizeres.
Mil beijos a essas crianças ; e á mãi d'ellas os
meus aífectos.
Aceita o meu coração.
Agora reparo ! Dizes tu : expliquei o que foi em
TI A PREMEDITAÇÃO !
Exactamente !
Teu
José.
Meu querido Cnmillo.
Depois de te escrever ante-hontem é que me
occorreu que tu não poderias entender todos os
meus sustos por não poderes mesmo frisar,, como
eu, todas as semelhanças que ha na Narrativa com
a mais atroz das calumnias com que quizeram fe-
ri r-me.
Correspondência epistolar lyS
Ora em primeiro lugar partamos da base : se
aquella historia é verdadeira, é inútil todo o arra-
zoado, e entende-se bem. Se é ficticiá, os estúpidos
perguntarão como ella é de tal modo architectada.
Ora eu sei que é verdadeira, mas crê que muita
gente a considerará phantasiada.
As taes semelhanças são: violentada a casar;
meu pai sacrificou-me cuidando felicitar-me ; querer
casar com outro; trahir com um ainda parente; o
qual estudava; que quiz fugir ^ mas que não podia
com esse encargo^ sendo o marido deputado. Tudo
isso a calumnia forjou contra mim em tempo.
Ora tudo isto é fútil para nós, mas serviria aos
infames, pensei eu. Deixa-me porém socegado a tua
carta de hoje, e espero em Deus que seja eu o
illudido.
Mando-te o folhetim do Biester. A respeito do
Condemnado já te disse que o tenho por uma mara-
vilha assombrosa. Eu ou hei de descrer dos teus
males, ou hei de pedil-os a Deus. Como está escri-
pto o opúsculo : Voltareis, ô Christo! Os teus inter-
vallos de silencio são como os do cysne debaixo
d' agua ; que limpidez, que formosura, que eloquên-
cia ao emergires de novo !
Adeus, filho. N'esses apontamentos não pude,
porque me interromperam, completar a base do
livro. Mandei-t'os logo porque eram bastantes para
te mostrar que eu entendia a premeditação como tu.
Abraço-te.
Teu
José.
i']4 CorrespondencicL epistolar
Meu querido.
Que adoráveis, que santas palavras !
Abraço-tc por ellas, e quero já pedir-te perdão
da magoa que de certo te fizeram estes meus últi-
mos sustos. Eram naturaes. Tu mesmo reconheceste
o direito de me assustar, não foi assim ?
Mas é que a minha razão fria vê agora no teu
opúsculo uma outra cousa suprema: é o quilate da
tua convicção, tua e do publico, acerca das purezas
anteriores do meu casamento, quilate tal que não
admittiste sequer a possibilidade de uma disputa
provocada pela narração d'aquella historia aonde
figura uma violência.
Como sabes, o que me affligiu foram todas aquel-
las semelhanças, que eu aposto que nem tu enten-
deste todas na carta que hontem te escrevi. Per-
dôa-me.
Tenho gemido de frio.
Peço a Deus que me tire do mundo antes de me
levar a saúde.
Como está essa nossa familia? Abraça-vos a lo-
dos com saudade o vosso eterno amigo.
José Cardoso.
Meu querido Camillo.
Nós só podemos consolar-nos com uma esperan-
ça. Se eu chegar aos dias distantes da minha liber-
dade, e tu também, c podermos voltar a Seide, já
velhos, supprimindo, se Deus nol-o permittir então,
o intervallo que vai até ahi desde a hora em que
Correspondência epistolar ij5
eu lá deixei o meu quarto, quietos e tranquillos, á
espera do maior descanço, então sim, poderemos
ter talvez uma hora de paz, de alegria mesmo, da
alegria que nos é licita. Esta alegria devem man-
dar-nol-a do Rio, ou de New-York os teus filhos,
que tu, depois de lhe ensinares humanidades, con-
fiarás de uns parentes meus *, se é que Deus ainda
me reserva no mundo essa suprema felicidade de
abrir a algumas crianças um futuro feliz e honrado,
e se para cumulo de tal ventura essas crianças de-
vem de ser as tuas. Não sei se isto te molesta, se
te oíFenderá mesmo. Eu estimaria bem que te con-
tentasse. Tu talvez os queiras para a fama e para
a gloria. Eu arrancal-os-hia das chammas d'essas
Eumenides.
A tua carta sensibilisa-me profundissimamente.
O que é estúpido é viver assim! Se o matar-se a
gente não fosse uma cousa torpe, mais valeria isso.
Se vivermos com os teus filhos ainda seremos feli-
zes com elles, quem sabe?
Eu não espero nada da Relação ; nem também
desespero. Não penso n'isso senão quando m'o
lembram. Dizem-me, sem que eu o pergunte, que o
meu relator é um grande carrasco. Talvez por isso
resuscitem para o meu caso a pena de morte, apro-
veitando o arrependimento publico do..., e ser-
vindo assim as tendências do dito sujeito relator.
Fazes-me plena justiça esperando que me não ven-
çam essas minimas misérias. Com a minha alma
1 Um d'estes parentes de Vieira de Castro, o snr. Oliveira
Guimarães, suicidou-se em Lisboa, no mez de julho, de 1874,
por não poder sopesar um ultrage feito á sua honra imma-
culada.
1^6 Correspondência epistolar
aberta de lado a lado te confesso, meu Camillo,
que só duas cousas eu desejava: ou a liberdade
absoluta e immediata, ou mais dez annos de de-
gredo em cima dos dez que ja cá tenho. No pri-
meiro caso convencer-me-hia a piedade social, e eu
respondia triumphantemente pelo meu infortúnio
desterrando-me então voluntariamente. No segundo
caso estreitar-me-hiam por mais tempo com as mi-
nhas saudades e com o meu luto.
Uma cousa detesto: é que pensem em quantida--
des de penas, em me arraçoar o tempo de desterro,
mudando-me villãmente dez annos em cinco, como
quem se diverte a espatifar a ultima partilha que
me coube da generosidade social depois de me ter
sido espatifado tudo o mais. N'uma palavra, eu
tenho o mais profundo desprezo pelo meu destino,
e peço á immensa generosidade de Deus que me
deixe este punhado de lama interior em que se me
resolveram, e suppuraram, sentimentos, aspirações^
e idéas.
Adeus, meu filho.
Beijo a mão da nossa estremecido e boa compa-
nheira e amiga.
Beija os pequenos.
Eu abraco-te.
Teu
José,
Meu querido Camillo.
Ahi te mando mais esse feixe de parvoíces, que
vai mesmo no farrapo em que um estanqueiro crú,.
mas justo, me remettia uns 40 charutos. Eu li ape-
Correspondência epistolar ijj
nas até o ponto em que me surge como ideal o
Othello, cujo suicídio o parvo ignorou ter sido pro-
vocado pela innocencia reconhecida de Desdemona.
A litteratura em Lisboa está óptima como nunca!
Os estanqueiros é que são os justos ! Logo no
mesmo dia!
Adeus. Abraço-vos.
Teu
José.
Meu Camillo.
Vejo que não recebeste hontem a carta em que
logo respondi á tua amargurada, em que me pedias
consolação. Recebeste-a já? Dize-me se recebes as
minhas cartas nos dias immediatos ás datas que
lhes ponho.
Eu respondi no mesmo dia á tua carta triste.
Hontem também te mandei outra com um retalho
de gazeta aonde vinha um fallatorio acerca do t€u
drama.
Concordo plenamente com tudo o que dizes
acerca do Germano, mas elle, na publicação do fo-
lheto, pôde aproveitar o teu conselho. Da critica
que lhe fazem não me admiro nada.
Abraça-vos o
vosso
Vieira de Castro.
VOL. I
ijS Correspondência epistolar
Meu querido Camillo.
Tenho a tua cartinha d'hontem e a de hoje.
Respondo-te á pressa porque tenho hoje um cor-
reio enorme p§ra o paquete do Brazil que segue
amanhã.
Li hontem ao Jayme as tuas meigas palavras, e
elle agríadece-f as mui ternamente.
Espero com anciedade o teu folhetim, que hoje
peço ao António que me remetta, pois que me sus-
penderam a remessa do Primeiro de Janeiro.
Beijo-te e abraço-te, meu filho, pela tua incan-
çavel ternura e carinhosa protecção.
Teu
José.
oMeu querido Camillo.
Que hei de dizer-te?
Estou inundado de immensa luz que tu acumu-
las sobre mim, e tenho pejo de citar a immortali-
dade com receio de lembrar a minha que eu deve-
rei a ti !
Isto é uma cousa immensa, sobrenatural, aterra-
dora !
Tenho duas providencias por mim : uma é Deus;
a outra és tu.
Estava o Jayme quando chegou o Primeiro de Ja-
neiro. Ficou assombrado !
Lá levou um numero que eu lhe pedi que lesse
ao Rebello.
E' immortal esta tua maldição sobre os infames
que cuspiram ! (Nota 6.^). Ainda bem que tu sur-
ges assim diante d'esta sociedade corrompida na
Correspondência epistolar 17 g
medulla, no dia immediato áquelle em que a im-
prensa nos disse que o rei exhibira, n'um baile, os
predicados capitães de Lúcifer, o pai os farrapos de
um Pierrot, e o irmão as ancas roliças de um la-
caio !
Adeus, meu filho. A minha alma adora-te. A nos-
sa amiga tomou decerto no seio estes júbilos da nos-
sa honra conquistada. Abraçai-vos pois na minha
memoria até que venha o dia em que eu possa abra-
çar-me nos vossos hombros.
Beijo os vossos filhos, meus queridos amiguinhos.
Teu
José.
Meu querido Camillo.
Recebi a tua ultima carta.
Que redempção queres tu para mim? A do ódio?
E' a que eu receio, se fugir (isso não fujo), mas se
me furtarem ao cumprimento da pena. Continua a
sorrir-me o degredo. Eu ou serei bom ou perverso.
Agora o espirito dá-lhe para pensar que em Portu-
gal seria o segundo. Se eu tivesse liberdade já em
Portugal, receio que me viesse o furor infernal de
promover uma anarchia que apressasse o aniquila-
mento d'csta charneca de torpilhôes, procurando
com o peito a bala dos negros. O que é que tu
chamas : cahir a minha alma ? Cahida está para to-
do sempre ; e que quer dizer a pátria ou o desterro
para me fazer resurgir? Mas resurgir, como? Tu,
sinceramente, se eu podesse vir ainda a dar a mi-
nha alma ao serviço de uma idéa, não vias ahi aba-
tido o decoro do meu infortúnio, rasgado o seu luto
j8o Correspondência epistolar
eterno que esse decoro lhe impõe ? Do decoro fallo,
por não querer chamar-te á discussão do argumen-
to maior e irrespondivel, se esse o não levar o tem-
po de sobre as cinzas do meu coração, como eu
profundamente acredito.
Deixa-me partir. Eu tenho resolvido requerer o
meu embarque no dia seguinte ao do novo enxova-
lho da Relação, que é capaz de me diminuir a pe-
na para me insultar !
Eu começo a sentir a verdadeira honra de um de-
gredado em Portugal !
Quando eu partir para a Africa, obsequeias-me
grandemente publicando estas palavras n'algum livro
teu para que os que me amam saibam que eu sou
feliz, e os que me odeiam conheçam profundamen-
te o meu desprezo.
Outro assumpto. Tenho talvez de escrever o ser-
mão do Lava pedes, e o da Soledade. Para este
principalmente peço-te que me indiques leitura boa,
se a conheces.
Se o fizer, levo dinheiro e tenciono leval-o para
dar um presentesinho á Emilia, ao Jorge, e ao fi-
lho do António, e do Luiz. — Lembro-me com pro-
funda melancolia de vossês.
Peço a Deus que vos leve os vossos filhos, e po-
nha nas vossas almas a força que lá deve amparar
a gratidão por tamanho beneficio.
Perdôa-mc se te despedaço. — Faz-me horror e
asco o futuro de portuguezes.
Abraço-te. Abraço-vos a todos, meus queridos
corações.
Teu
José,
Correspondência epistolar i8i
Meu querido amigo.
Eu já esperava esta dolorosa surpreza, mas não
tão cedo! Grande bem em todo o caso me fez a
tua companhia, na qual o meu espirito se alevanta
sempre quanto pôde, embora possa pouco.
Acho detestável o teu ultimo photographo. Accu-
so-o a ellc principalmente, e não ao retrato, porque
a elle era que cumpria escolher outra pose de phy-
sionomia, e outra accentuação no olhar, e outra do-
cilidade no bigode, etc, etc. Eu nunca vi tão insi-
nuante a tua physionomia, tão lisa e tão branca
mesmo a tua face como agora. Pois no retrato pa-
reces-me uoi homem esfolado ! Este andaria
avisadamente cambiando o estabelecimento por ou-
tro que o appellido lhe está aconselhando.
Espero que esta carta te encontre ainda antes da
tua partida para Braga. Tenho a pedir-te um obse-
quio, e infelizmente com pressa. Peço-te que me
mandes um numero do Primeiro de Janeiro que te-
nha a tua local a respeito do tinteiro. O António já
procurou na administração da folha, mas parece
que não havia. O que te peço pois é que obtenhas
do Germano o numero que certamente devia ficar
para a redacção, e o obtenhas emprestado, e m'o
remettas, porque eu da minha parte pouco t'o de-
moro, e devolvo-t'o.
Quando regressares de Braga fallarás largamente
com o António a respeito dos meus contentamentos
futuros em Loanda, e relatar-lhe-has o que te dis-
seram por aqui.
Não esqueças nunca o teu
velho
José Cardoso.
i82 Correspondência epistolar
Meu querido.
Aqui estou com umas lagrimas a dançarem-me
nos olhos. Fiz o rascunho de uma carta a uma po-
bre mulher que pede o perdão do marido de ao pé
do leito do moribundo filho de ambos, o qual lhe
deixa nos braços d'ella um anjinho de três annos !
O homem cahiu a chorar, e eu chorei também.
Deus me não falte nunca com estas boas regas da
alma.
Li na cama a tua de hoje. Também chorei. O
morgado, que sempre me fez rir, fez-me chorar pela
primeira vez ! Chorei por elle !
Mas agora que me levantei, que estou lavado e
fresco, e bebi a primeira pancada de luz, estendo-
Ihe a mão, sacudo-lh'aomaís selvajalmente que pos-
so, e peço a Deus que nos ouça e nos cubra este
cumprimento : cPara a vida e para a morte ! eh lá!
para a Africa!»
Enche-me de alegria o retrato que me fazes d'elle
e das suas qualidades.
Não pende o meu espirito para a agricultura, que
em Portugal seria o meu enlevo. Deu-te o Calhei-
ros- a razão.
Alegra-me a satisfação do António. Tanto mais
quanto eu o suppunha menos convencido.
A absolvição do Anthero deu-me relevantíssimo
prazer. A moral triumpha, porque o desaggravo da
honra não pôde ser nunca o alardo da deshonra ;
e eu bemdigo a Deus por ter posto no meu ser
melhores e mais puros respeitos pela mulher do
meu nome !
A tua carta deixa-me uma impressão celestialis-
sima. Cá vos espero na terça feira.
Correspondência epistolar i83
Respondo á tua de hontem. Recebi a local do
tinteiro, que te agradeço muito.
Adeus.
Os meus aífectos á nossa boa amiga, que tanto
se interessa pelo seu velho hospede.
Beijos aos pequerruchos \ vós sois também minha
familia.
Teu
José.
Meu querido Camillo.
A tua carta deliciou-me. Eu estava afflicto com
a tua doença. Talvez a casa de saúde aqui te faça
bem. Pareceu-me que te era boa a capital nos dias
em que por cá te demoraste. E' justissimo, é, tudo
quanto dizes a respeito do Condemnado e da co7^ôa.
Eu tinha pensado tudo isto.
Que contente que eu estou com as noticias do
António! Sinto-me feliz, tanto quanto posso sêl-o!
Deus nos proteja, e nos dê d'aqui a dez annos os
dias serenos e alegres que eu lhe peço de joelhos
na pureza da minha alma e na santidade dos meus
intuitos e na sinceridade de todas as minhas des-
ambições fora da única que me resta: ter dias de
saudade e de felicidade ignorada no meio doesta
constellação das almas devotas da minha desgraça.
Vossês meus sócios! com que alegria eu penso
n'isto! Seria crueldade do destino se dessem em
chimera estas esperanças! Pois Deus permittiria
que eu ainda um dia vos desse contas dos lucros
do mendobi e da urzella, e das colheitas na car-
cassa do elephante de Pungo Andongo? Supremo
184 Corres]pondencia epistolar
contentamento! Suprema vingança commum das
victimas dos teus livros contra ti, e de ti contra ci-
las!
Abraco-te.
Teu
José,
Meu Camillo.
Este morgado é admirável ! é único l Cuidei que
me arrebentava hontem com o riso ! Tem sobre
Loanda as vistas vorazes do Alarico. Vai resolvido
a tudo. Sem fallar n'aquelle pj^eto esturrado que
te quer mandar na primeira saca de café, tem pla-
nos de aíFrontar o cosmos mudando os crocodilos
para o matto virgem, e os tigres para o oceano,
com o intuito de uma erppresa lucrativa. A sua
primeira ambição ao pôr pé em terras de Salvador
Corrêa é degolar um preto innocente ! O seu argu-
mento é que o preto deve sacrificar a vida ao ho-
mem que sacrifica a pátria e a familia. Não tem
resposta.
Posto este preambulo á sua vida nómada, o mor-
gado tem duas ambições: enriquecer, e escrever-te
cartas que te assombrem e te alegrem. Para estas
elabora já um assumpto tenebroso. Não descança
em quanto não levar a deshonra ao seio da familia
de um soba para te fulminar com a repa de uma
carapinha real ! Olha que isto é tudo d'elle, meu
filho. E o que é d'elle, e eu aqui não posso pôr, é
a fé ardente, o enthusiasmo, a alegria, a esperança,
a crença com que espera voltar rico a Portugal ! a
chamma satânica que lhe crispa dos olhos nas vi-
Correspondência epistolar i85
sualidades degoladoras da pretalhada pura ! Quando
repete o argumento do sacrifício que elle faz para
justificar a hecatombe, chega a ser medonho. . .
como o argumento !
Na sua volta á pátria tem outras ambições, iguaes
em numero: esmagar tudo, e vingar-se !
Fundeado o vapor, não quer barco que o traga
ao cães ; tem a certeza de que dá tamanhos pulos
que o Tejo se aparta de medo para lhe ministrar o
finca-pé !
Quer demorar-se alguns tempos em Lisboa. A
sua deliberação é amarral-as todas torpemente ao
catalogo das deshonradas dos régulos !
Partiremos depois. Não se anda em parte ne-
nhuma senão com todos os matadores. Nas hospeda-
rias de Villa Nova não se come senão peru ; e o
não estamos afeitos a isso, resposta a tudo mais,
obrigará os locandeiros a uma via sacra accelerada
pelas despensas dos mais ricos do povoado.
Quer esmagar tudo ! quer vingar-se !
Mas vingar-se de que? que ódios pôde ter este
bom moço ? que abysmos lhe tem posto o mundo?
Não sei. Nem elle. E' certo porém que quer es-
magar tudo, e quer vingar-se !
Ódios tem um ! Esse resume todos. E' o de Bel-
zebuth a Deus; é um inferno que lhe queima o cé-
rebro, e que se lhe entranhou lá dentro com perigo
de afogar-lh'o, como um hydrocephalo, na vossa
ultima viagem para o Porto. O seu ódio é aquelle
visconde gordo de Aveiro, cujo nome nem feições
recorda, que te respondeu com soberanissimo des-
prezo quando tu lhe perguntaste se me tinha visi-
tado. O seu ódio é esse ! Quer pois esmagar tudo,
quer vingar-se !
i86 Correspondência epistolar
Ao cabo de tudo isto trato eu de lhe amaciar as
raivas pondo as minhas modestas visões na tran-
quillidade santa da nossa querida Seide, e conven-
cendo-o de que a vingança completa seria talvez
substituir na pratica o titular odiado. Logo que lhe
fallei cm Seide, prorompeu o morgado: Lá^ a pri-
meira cousa é outro monumento á nossa chegada !
Agora serio, meu filho. Eu vejo a Providencia
em tudo, e aceito das bondades d'Ella o presente
d'este homem. Se se realisarem os nossos planos,
se os nossos corações e sentimentos se entenderem
sempre, como espero, de certo não nos separaremos
mais. Ambos nós daremos um ao outro a dedica-
ção extrema e a honra sem mancha. Deus aben-
çoará o resto. Devo dizer-te que espero muitissimo
das suas faculdades e aptidões para o nosso com-
mercio, segundo o que lhe ouvi.
E' teu amigo a valer. Quando voltar a Portugal
só conhece uma pessoa fora da sua família : és tu.
Tu não escreves mais, e és nosso para a vida e
para a morte.
Deus traga esse dia. Eu andarei com os pedaci-
nhos da minha alma uma vez no Ermo, outra no
meu quartinho e no adro de Seide, e outra no meio
da sobrinhada. Se Deus me dér isto !
Abraça-vos.
Teu
José.
õMeií querido Camillo.
Passei hontem a tarde angustiadissimo desde
que senti que não vinhas abraçar-me. A noite pas-
sei-a do mesmo modo até ás 3 horas assustado por
Con^espondencia epistolar jSj
estas tuas imprudências, meu filho. Pois uma via-
gem sobre outra, e ambas de noite ! Eu peço-te
que venças absolutamente os teus appetites, e te
trates com o maior escrúpulo pelo que diz respeito
a alimentação.
A tua carta de hoje aííligiu-me. Preciso de me
agarrar á esperança que tenho de que melhores ra-
pidamente, e espanques estas tuas tristezas.
Adeus, meu adorado Gamillo. Os meus affectos
á snr.^ D. Anna, e beijos aos meus artistas. Abra-
ço-te e beijo-te.
Teu
José,
Meu querido Camillo,
E's injusto comtigo e commigo. Eu encontro
sempre luzes novas nas tuas obras. Li aqui em voz
alta, penetrado de commoção e de convicção, a ver-
dadeira philosophia do teu ultimo folhetim sobre os
meios próprios para entender e confortar os tormen-
tos alheios. O que eu sentia sentiam os outros.
Vi a local, e agradeço-te muito a publicação.
Abraço-vos.
Teu
José.
Meu bom Camillo.
Escrevo-te muito á pressa estas duas linhas. En-
tristeceu-me a ida do bom velho. * Passaram-me no
iRefere-se á morte do seu tio José Vieira de Castro.
i88 Correspondência epistolar
cérebro lentamente os dias do Ermo, e comparei a
felicidade do tumulo de então com a desventura do
tumulo d'hoje ! Mas eu já não lastimo os que mor-
rem. Tenho medo que isso lhes perturbe a bem-
aventurança da sepultura.
Beija as mãos da snr.* D. Anna pela adorável car-
tinha que me mandou. Eu hei de escrever-lhe mais
vezes. Nós ainda viveremos em Seide. Deus ha de
querer que sim.
Peço a Deus que te restitua a saúde antiga. As-
sim me ouça !
Abraço-te.
Teu
José.
Meu Camillo.
Deu-me grande prazer saber hoje pelo António
que estiveras ahi com os pequenos d'elle e com a
senhora.
Estás tu melhor ?
Eu levantei-me agora com a cabeça atordoada.
Ha dous dias o Pereira de Miranda trouxe-me aqui
para eu ver um projecto d'elle sobre colónias. Quiz
fazer-lhe uma fineza escrevendo uma analyse, sur-
prehendendo-o com ella. Estudei a matéria, e escre-
vi esta noite umas vinte tiras, que deverão ser me-
tade talvez de outras vinte que hoje escreverei.
Queria publicar a cousa no Primeiro de Janeiro,
Por muitos motivos, como podes suppôr, me era
agradável a preferencia d'esta folha. Ha, porém, es-
paço? Tens tu a nimia bondade de ver as provas,
e corrigir as quedas mais espalmadas do estylo de
Correspondência epistolar i8g
um encarcerado de anno, já sem vislumbres de
sentimento plástico ?
Poderias fazer com que viesse n'um numero só,
ou, quando muito, em dous?
Era isso o que eu te pedia, acrescentando, porém,
a pressa para não perder o interesse actual d'estas
cousas. Escuso dizer-te que não assigno o artigo.
Aquillo é uma divida de consciência, e nem podia
ter aspirações a mais. Sahirá entre os artigos de re-
dacção, mas pôr-lhe-has uma letra qualquer, ou um
asterisco, se o Germano o exigir.
Responde-me, se poderes, na volta do correio.
Tive hontem uma atroz e pungente semsaboria
quando ia a sentar-me com certa satisfação para es-
crever. Cahiu-me a vista sobre o Diário de Noti-
cias, que eu nunca vejo sequer, e encontro noticia-
da a morte do meu pobre velho, tio do preso J. C.
F. de Cf e irmão do antigo ministro.
A insistência do insulto apimentada com o vene-
no da aproximação do ministro ! Que villões ! Será
Deus que me experimenta ? E' certo que afoguei o
nojo, e passei a noite escrevendo agradavelmente
de um grande amigo.
Adeus, meu filho. Os meus affectos á nossa boa
amiga. Beijos aos vossos filhos.
Abraço-te.
Teu
José.
Meu querido.
Estou nervoso, acabei o artigo, e escrevo-te á pres-
sa. Beijo-te pelos orvalhos que espargiste na sepul-
tura do pobre velho.
igo Correspondência epistolar
O final do artigo que escrevi denuncia a proce-
dência. Não o assigno, com o António, e d'aqui
mesmo comtigo, combinaremos uma cousa que é
longa para agora. Um discurso de Russell enlevou
a minha alma na elaboração das minhas idéas. Que-
ria que esse artigo significasse apenas a veracidade
da minha consciência conformada com a sua sorte.
Hei de ver se t'o mando áman'iã.
Abraço-vos pães e filhos.
Teu
José.
Meu querido.
O Reis, e outro, acabam de copiar o meu escri-
pto. Mando-t'o hoje. Vou pedir-te um obsequio que
tu não recusarás ao teu amigo. Palavra ou locução
mais imprópria ou menos limpa, corrige-m'a. Eu
nunca soube escrever, e agora menos. Acostumei-
me a pensar os periodos um pouco selvagens para
as condições da tribuna, mas para isso é preciso fa-
lal-os, não escrevel-os. Ahi estavam algumas cou-
sas que eu faria valer no discurso, mas nada d'isso
presta na escripta. Confio no teu favor, e cada cor-
recção tua será um prazer que me darás. Aprovei-
to o ensejo de dizer ao meu paiz que quero partir
quanto antes para o meu destino.
Agora uma cousa. Haja cuidado em que isso se
não publique em nenhum dos dias 8, ou 9, ou lo
do corrente. O melhor seria até sabbado, ou mes-
mo depois do dia 10 se não poder ser antes.
Puz-lhe a data de abril para que me não oíFen-
dessem allusões á data de maio.
Correspondência epistolar igi
Eu tinha o maior empenho em que o artigo vies-
se n'um numero só. Separal-o é quebrar todo o in-
teresse no desenvolvimento, já de si limitadissimo
do assumpto.
Agora renovo também o pedido de toda a tua pa-
ciência para a revisão das provas d'essa frioleira.
As primeiras columnas sahiram-me uns periodos
tão longos, que é preciso não lhe largar o governo
da pontuação, aliás fica de todo mau o que já não
presta para nada. Em fim ahi tens a cousa, e terei
o cuidado de não rabiscar mais para não ter de res-
ponder ás tuas dedicações com pavorosas estopadas
como esta que te dou.
Teu
José,
Meu querido Camillo.
Escrevo-te á pressa, mas não quero deixar de fa-
zel-o. As tuas cartas teem-me tristissimo com os
soffrimentos do teu filhinho. Deus será bom para ti,
mas tu deves precaver a tua alma contra o mais
pungente desenlace. Eu como teu amigo imponho-
t'o, e ouso esperar tudo da tua força. Não fallo em
meu nome ; obrigo-te em nome da outra criança.
Seria mais que cobardia, seria uma espoliação sem
attenuantes succumbires ao lado d'outro filho, se
Deus te reclamasse um. Tu decerto não cahirás.
Escreve-me e consola-me promettendo-m'o, porque
penso em ti a todas as horas. Chamo a tua força
por este caminho, e por não querer magoar-te pe-
dindo-te que visses a felicidade na bemaventurança
do filhinho que Deus chamasse para si.
jg2 Correspondência epistolar
Abraço-te, meu filho.
A ultima phrase da tua carta consterna-me. Co-
ragem ! que tanta vez me pediste, e em tantas ve-
zes te obedeci!
Adeus, meu bom Gamillo.
Abraço-te, e peço a Deus pelo teu anjinho.
Teu
José,
Meu querido Camillo.
Aíílige-me a falta de carta tua por não saber do
estado do Jorgesinho. Deus permitta que vá me-
lhor! •
Eu estou espancando as memorias negras d'es-
te dia ... *
Teu
José.
oMeu Camillo,
A tua carta veio, como todas as tuas outras car-
tas mais particularmente consoladoras, em hora ne-
cessitada.
O dia d'hontem foi horrível. Esta humanidade é
negra, sem descripçao possivel em nenhuma lingua !
Era hontem a communháo dos presos, festa osten-
tosa para o publico que se atropella nas salas e
enxovias do cárcere distinguindo-se principalmente
* Era o anniversario da catastrophe.
Correspondência epistolar ig3
as senhoras no interrogatório feito aos desgraça-
dos acerca dos seus nomes e dos seus crimes.
A mim tinha-me dito o guarda-livros que a festa
acabava ás duas horas e que só então o publico vi-
zitava os quartos particulares que estivessem aber-
tos. Combinei pois com o António em estar aqui a
essa hora, e ás dez já eu estava encerrado. A fes-
ta porém acabou á uma hora. Estava eu fechando
a carta que te mandei.
Sinto na escada e sobre a porta do meu gabine-
te o rebolar de uma onda estúpida. Eu estava fe-
chado á chave. Com o murmúrio ouvi duas panca-
das bestiaes na porta, que eu logo conheci serem
dadas com o intuito de lograrem todos vêr-me, se
eu abrisse, esquivando-se todos á responsabilidade
d'ellas. Eu tinha o creado prevenido para bater de
um certo modo quando me procurasse amigo meu.
As scenas e os ditos que se passaram á minha
porta não seriam acreditáveis em terra de bestas-
feras. Atropellavam-se para espreitarem á fechadu-
ra as senhoras, mães, esposas e filhas. Não havia
homens n'este canibalismo !
Eu ouvia o vago murmúrio de tudo isto, mas
não sei o que me succederia se não entra o Ferrei-
ra da Costa a quebrar o horrível de uma solidão
insultada por tal modo, e que eu estive em riscos
de povoar com os delírios de uma loucura que ain-
da senti ameaçar-me. Depois é que eu soube tudo.
Umas queriam que eu fosse forçado a abrir a porta,
outras lastimavam-se profundamente da inutilidade
de uma visita á cadêa que não tivera outro estimu
lo senão vêr-me ! D'estas uma era uma menina que
viera em equipagem soberba, e que procurara o
meu quarto ao lado do delegado Neves !
VOL. 1 i3
ig4 Correspondência epistolar
Uma velha de caracoes frisados, ricamente ajae-
zada, descia a escada dizendo para um grupo de
raparigas : «E tem tapetes e taboinhas, segundo di-
zem! O que elle merecia era um chicote!»
E' horrivel isto ! Eu sinto mais desprezo do que
ódio por esta villanagem. Não sou bastante bom
para sentir piedade. Esse dito da velha, ouvi-o eu
cá dentro, e lá fora, o Reis, e toda a gente.
Senti que não estivesses ao meu lado, de saúde.
Sofifrerias como eu, mas darias talvez grande li-
ção a essa matilha de leprosos.
Que mães, que esposas virão d'essas crianças
trazidas pelas mulheres de cabellos brancos a estes
espectáculos, e educadas n'essas apostrophes d'odio
podre ? Como é que não existe n'essas almas som-
bra alguma de respeito e de caridade pelos immen-
sos infortúnios?
Depois, a data de hontem !
Isto é horroroso, e eu peço a Deus por piedade
que me dê depressa o degredo como vingança !
O António pagará ahi o teu abraço. Elle vem
logo.
A tua carta deixa-me uma esperança de melho-
ras para os pequeninos. Abraça-os e beija-os. Deus
permitta ao cabo de tudo que nos alumiem a ve-
lhice.
Teu
José.
P, S. — Acabo de escrever ao Casal, ao Sam-
paio, ao Pereira de Miranda e ao Jayme, pedindo-
lhes que abreviem a minha partida para o degredo.
Quero fugir aos canibaes.
Correspondência epistolar ig5
Meu querido.
Ha dias que não tenho carta tua. Devias receber
a minha ultima em resposta á tua.
Acabo de ler o folhetim (5) do Germano. E' es-
plendido como todos os outros. Tinha vontade de
o abraçar. A primeira phrase do ultimo periodo de
hoje encontra-se com as bases do livro que te man-
dei. Pergunta-lhe se elle, concluido esse trabalho,
não o publicará á parte em opúsculo.
Eu mandar-lhe-hia uma grande remessa para o
Brazil. Dize-lhe isto em particular como cousa tua.
Eu fal-o-hia porque as palavras d'elle são sobre
tudo, como as tuas, o epitaphio de respeito no tu-
mulo á'ella.
Abraço-vos.
Teu
José.
Meu querido Camillo.
Recebi a tua ultima.
Já me entregam o Primeiro de Janeiro. Agrade-
ço o teu cuidado. Agradece por mim ao Baltar
quando o vires.
O folheto do Germano?
Penhoram-me os rapazes de Coimbra, e as pes-
soas de Villa Real.
Eu sinto-me mais triste hontem e hoje. Dão-me
grandes desejos de sahir para o degredo. Pezam-
me os tectos da cadêa, e a liberdade em Africa faz-
me menos horror que em Portugal. Começo a sen-
tir a asphyxia moral.
jyô Correspondência epistolar
Veremos o que Deus determina.
Fazem-me grande pena os teus soífrimentos. Lem-
bra-te dos que soífrem mais.
Eu não sei bem se isto é uma consolação nobre,
mas parece-me que tem um lado assim. A mim
tem-me amparado immenso!
A nossa amiga como está ? e os filhinhos ? Eu
abraço a todos.
E' verdade. Aonde moram? Todas as vezes que
fecho uma carta para ti é que reparo em ter esque-
cido esta pergunta. Curiosidade, como podes ima-
ginar, mas que me interessa, como as grandes cou-
sas, a vosso respeito.
Adeus, meu bom Camillo.
Que escura que é a minha alma hoje ! Que dias
estes !
Teu
José.
€Meu Camillo.
A historia do homem de Benguella fez-me sor-
rir pelas previsões d'elle. Deus me livre de cousa
que possa sequer rastrear esses futuros e destinos
altos que tu me apontas ! Eu não peço á boa Pro-
videncia senão que ponha a sua protecção nas mi-
nhas modestas labutações commerciaes. Fugirei
mesmo de pensar n'outra cousa.
Agradeço-te as palavras e acquiescencia da tua
carta de hoje. Os artigos teem vindo bem. Quando
se publicarem á parte mandar-t'os-hei d'aqui com
Correspondência epistolar igy
umas pequenas conversões typographicas que esca-
param n'estes últimos.
Que saudade me faz de novo Seide ! Vossês alli
com o morgado que deliciosas horas, apesar da
doença e das memorias, comparadas com as horas
da cidade ! O que daria eu por um dia ahi de paz
tranquilla ? Que amor eu conservo ao meu quarto-
sinho ! Se ahi volto beijarei as paredes e a janella
como os peregrinos beijam as pedras santas. Quan-
do d' ahi sahi para o Algarve, então e hoje ! Se eu
um dia tenho Uberdade hei de ir apanhar os boca-
dos do coração aqui por umas três casinhas de Lis-
boa, ahi, em Portimão e no Ermo. Que saudades
que eu tenho d'esse tempo sempre que o recordo !
Li hoje aquelles pungentes gritos do Heine que
os teus traduziram. A cada um d'estes profundos
abalos que me fazem estas leituras profundamente
sensibilisadoras pela dupla essência do escripto e
da atormentada inspiração que o gera, sinto em
mim a inveja quasi do verdadeiramente estúpido,
do hermeticamente fechado de coração e de alma.
Outra cousa. Vinha hontem aqui um homem pe-
dir-me para lhe dar umas sessões em que elle aper-
feiçoasse o meu busto já começado. E' encommen-
da do Brazil. Supponho intuito mercantil na encom-
menda, porque mandaram pedir a forma em barro
para tirar lá as copias. De qualquer modo é uma
nova torpeza mercantil engendrada sobre o meu in-
fortúnio. E' inútil dizer-te que despedi o homem,
mas íil-o com uma certa satisfação de vêr o entu-
pimento em que o deixou a minha cara completa-
mente transformada pela falta de barba que tirei ha
dias para lograr principalmente este e os retratistas.
Disse-ihe sempre sorrindo, que, não podendo op-
ig8 Correspondência epistolar
pôr-me a que me reproduzissem, a consolação que
me restava era a de que o busto, como os retratos,
serviriam apenas para indicar que cu era outro. . .
Adeus, meu filho.
Abraço-te, e espero sempre noticias tuas.
Teu
José.
Meu Ji lho.
Bom foi que não peorasses lá.
Bom êxito quanto ao Ermo é verdade. Deus pa-
rece que nos sorri A minha desgraça será eterna-
mente a de hoje, mas poderei fazer á volta d'ella
um pequenino circulo d'almas puras e amigas. Deus
o permitta !
Seide ! Eu não posso recordar. Agarro-me á es-
perança de que hei de ainda ahi voltar para não es-
talar de saudade !
Escrevo-te apressadissimo.
Recebi o correio do Brazil, que é grande, tenho
de responder já.
A' nossa querida amiga beijo a mão com todas
gratidões e aífectos que Seide me impõe, e a ti
abraço-te estreitamente.
Teu
José.
Correspondência epistolar igg
Meu querido.
Recebi a tua de hoje que avoluma as minhas me-
lancolias com as vossas. Esperemos, filho. Deus ha
de dar melhores dias.
A minha espectativa perante a Relação é a mes-
ma que te disse na minha ultima carta.
Adeus, meu filho. O que eu te queria era de saú-
de regular, e tranquillo de espirito.
Os meus aíFectos á minha querida amiga, e bei-
jos aos pequerruchos.
Abraço-te.
Teu
José.
Meu querido
A tua carta alegrou -me. E eu já estava alegríssi-
mo. E, hoje mais que nunca, sinto seguras da mão
de Deus na minha consciência as alegrias futuras.
Hei de voltar, hei de vêr-vos a todos aos meus se-
rões no regresso d'Africa. Tenho a final o máximo
da pena do meu delicto, dizem. Pois isto é que é
bom. Assim certíssimo fica que não podem mais ha-
ver descontentes nem n'este mundo nem no outro.
Eu estou no meu logar, e o meu logar é um pólo.
No outro logar, no outro pólo, está. .. .* Nós so-
í Confronta-se com um marido que fazia então julgar a
esposa no tribunal, que a mandou em paz, como Jesus á adul-
tera, e como a honra ordena que sejam castigados maridos
sem pejo nem resguardo da sua desgraça.
200 Correspondência epistolar
mos os dous symbolos de uma nova geographia
moral. Se Deus não presidisse ao meu destino, se
me houvesse voltado as costas a sua bondade, se
contra mim se voltasse a sua cólera, a minha gran-
de tortura seria o immenso baque d'estes dous he-
mispherios, usurpando o. . . o meu planeta, e arro-
dilhando*me a mim para a sua orbita. Isto assim é
o óptimo.
Brinquemos a chorar, dizias tu hontem. Brinque-
mos a rir, digo-te eu hoje. Adeus meu filho.
Abraço-te consoladamente.
Teu
José.
Meu Camillo.
Nada de medos. Nunca como hoje eu me senti tão
bem, tão crente em que tudo ha de ser como Deus
m'o inspira, e não como t'o suggere a tua grande
tristeza. Eu vejo melhor do que tu, e não admira ;
avalias as minhas dores afora de mim, e pensas que
são grandes ; eu é que sei que não prestam para
nada. Reíiro-me a degredos, e ás penas, maiores ou
enormes, que possam vir-me das sentenças de ho-
mens que eu nem posso odiar pelo immenso que
os desprezo.
Cá espero o morgado. Não venhas tu, que te
despedaças n'estes boléos das viagens. Muito re-
pouso, filho.
Não sabes ? parece que o advogado contrario re-
corre para o supremo tribunal pedindo pena maior !
E' esplendido !
Veremos. Eu uão recorro. Se a besta recorrer,
Correspondência epistolar 201
então sim, acompanho o recurso. O miserável já
me escangalhou as alegrias que eu sorria ao dia 5
d'a^osto.
Adeus, meu filho. Coragem e alegria. Eu não me
lembro senão do * E' o meu homem, e o meu
salvador !
Teu
José.
Meu Camillo.
Estou com uma terrível constipação, tosse, e uma
brotoeja horrível. Por isso te não escrevi ainda, e
agora o faço com a mão a arder. Tem estado um
tempo estúpido. Espero que o calor te seja este an-
no menos nocivo. O motivo do recurso é haver or-
dem do Brazil para ir com a cousa até ao fim. A
ordem não previu a hypothese dos i5 annos da Re-
lação, e cá o mandatário cumpre á letra. E' repul-
sivo estar a procurar no esterco a razão d'elle. Seja
lá pelo que for, o sol não alumia canalha mais
abjecta !
Teu
"José
Meu Camillo.
A mim de vez em quando me chegam uns echos
da semsaboria lá de fora. Deves ter ouvido fallar
1 E' o marido indicado na carta anterior.
202 Correspondência epistolar
das conferencias e das Farpas. As primeiras pare-
ce que eram de todo o ponto inofíensivas. As se-
gundas accusam os sobejos d'alguns dos redacto-
res. Em resumo, parece que a terra e a gente in-
sistem singularmente em ser o que eram.
Eu por dentro tenho andado apoquentado com
umas memorias tristes. Por fora, e para fora, é qua-
si sem medida o nojo que me cresce todos os dias
contra as pessoas e cousas d'este torpissimo bordel
que ahi se mexe.
Estou morto por sahir d'isto quanto antes.
Teu
José.
Meu querido.
Que idéa é a tua que não vou para Loanda ? Só
se morrer. Creio piamente que o supremo tribunal
não annuUa, mas se o fizesse, e se me absolvessem
depois, eu ia do mesmo modo, irrevogavelmente.
Escrevi vinte e tantas tiras de um folhetim, pro-
vando que * era cortezão, cobarde, contradi-
ctorio, tolo e ignorante.
Fez sabbado oito dias, eram onze da noite. Sen-
tei o Reis á mesa, dictei-lhe aqúelle escripto, fumei
dez charutos a seguir, dcitei-me ás sete horas, e
d'ahi veio aquella dor de cabeça em que te fallei.
Não te disse nada porque queria surprehender-te.
' Allude a um livro então publicado.
Correspondência epistolar 2o3
queria ver se me adivinhavas, e o que me dizias
sem adivinhar. Comecei a dictar o folhetim com a
idéa de que tu serias o seu assumpto principal. Fe-
lizmente voltou-se-me a inspiração, c tratei de não
me denunciar d'esse modo, e de não dar á folha a
importância de lhe fazer suppôr que tomara para
ti uma das suas paginas mais banaes.
Levei o meu disfarce ao extremo de citar nos
jornalistas, e de lhe mandar anonymamente a cousa.
Accusou a recepção com elogios, mas disse que
era muito grande para a folha. Peta. Não publicou
por cobardia, embora estivesse a pular por lhe to-
sar os bandarilheiros.
Esperava hoje o escripto na Revolução, Logo vou
mandar dizer ao Sampaio que m'o devolva, se o
não publicar, como suspeito, e amanhã remetto-t'o.
Teu
José.
Meu querido Camillo
Todos os dias para escrever-te, lodos, mas aqui
morre-se de calor ha quatro dias, c não ha vonta-
de que não se afogue em suor.
Como hei de eu esquecer-me de ti, amigo ? Em
que dia não penso, ou não fallo eu de ti ? E por ven-
tura mais se te não escrevo, é por isso mesmo.
Mandou-me hoje o António um exemplar das Co
lonias. As tuas paginas, meu querido amigo, tão
eloquentes como todas as outras que me tens dado,
são por ventura as mais claras a deíinirem-me. A
204 Correspondência epistolar
minha defeza é isto, tudo isto, e nada mais do que
isto. Adorável penna a tua. Sempre a mesma ! (No-
ta 7.-).
Teu
José.
Meu querido.
Escrevo-te á pressa porque só agora me deixa,
quasi á hora do correio, um padre que veio contar-
me os applausos de um sermão que lhe fiz.
Tenho a tua adorável carta de hoje. Quero es-
perar que Deus nos reserve nos teus filhos bastan-
te amor e bastante paz. Porque não iremos com
elles? Em fim se vivermos Deus dirá como ha de
ser. Ha uma phrase na tua carta que se me enter-
rou profunda e luminosa como uma faisca, pelo co-
ração e pela memoria dentro : é o desejo de não
ter familia na idade em que a gente não sonha que
será esse o único que ha de mais tarde sobreviver-
Ihe a todos os outros.
Teu
José.
« Meu Çamillo.
Tenho no prelo um opúsculo intitulado : Cons-
ciência, E uma carta aos das Farpas^ meiga para
elles, e magnifica para mim por ser horrorosa pa-
ra as infames da terra.
Correspondência epistolar 2o5
E' o meu grito de ódio, a represália do meu des-
prezo.
E' assignado Samuel, mas todo o mundo saberá
que é meu.
Isto devia succeder. Sinto-me como homem
acordado. Agora é que attentei em mim. A' cadêa
não vem ninguém, eu sou um homem profunda-
mente odiado. peias mulheres, e desprezado pelain-
diífcrença dos homens que me humilham mais por-
tanto do que aquellas. Ninguém quer saber á'isío
que para aqui está, esta é a verdade. Aos dez an-
nos de degredo fingiram-se commovidos, aos quinze
nem isso, depois diriam mesmo que o publico acha-
va que o melhor era não bulir mais n'este facto
consummado, razão porque o ultimo tribunal não
desfazia o que estava feito.
Ora eu hoje não desejo outra cousa. Lisboa é
capaz de me apodrecer o interior com o desprezo
que me junca cá dentro. Loanda é o o meu sonho
dourado. Deixai-me partir, canalhões ! é o que eu
lhes diria se me consultassem.
Ora uma só cousa me restava, digna e alta, era
fazer saber bem, para todos os tempos, e a todas
estas minas de pus, que eu diante de todas as
suas guerras e infâmias só uma cousa faço, e é ta-
par o nariz.
Era preciso que eu dissesse a esta canalha, que
me detestasse, mas que me não lastimasse.
Eu escrevo hoje uma carta ao António predis-
pondo-o para um estalo, mas sem lhe dizer o que
é. Se elle te procurar, nada lhe digas. O que é cer-
to porém é que Lisboa em relação a mim é tudo
quanto ha de mais asqueroso : ódio nas mulheres,
como no primeiro dia, sem a minima differença !
2o6 Correspondência epistolar
indiíTerença absoluta nos homens, o que é mil ve-
zes peor. Eu não me illudo nem um átomo. Esta é
a verdade, e por tanto o que me cumpre é provar
a esta canalha que se o ódio que ella tem ao*"^^
e a mim é igual, o effeito nos odiados é radicalmen-
te diverso.
Teu
José
Meu Camillo,
Tu, sim, sabes consolar, meu querido amigo I
Esta tua carta marca como tantas outras, um le-
nitivo saudabilissimo. Sabes consolar, porque sabes
ver, e sabes ensinar e ver. E' isto, é \ mesmo fora
vaidade crer n'outra explicação. A tua carta faz-me
grande bem, porque a minha irritação crescia, e fi-
carei hoje sereno.
O opúsculo só verbera as mulheres, e d'essas o
ódio é certo e real ainda. Dá-Ihes conta do meu
desprezo profundissimo, e provoca-as abertamente
a não cançarem na guerra para eu tirar d'ahi umas
consolações que lá digo. E' só isto.
Deve ficar prompto esta semana. Mas não pode-
rás tel-o antes de domingo, ao que me parece.
Sou, meu filho, gratissimo á tua vontade de vi-
res vêr-me. Ainda se é bem rico quando se tem o
que eu tenho, e entre os meus teres a tua grande
e alta dedicação. Assim tu melhorasses de saúde !
Deus agora de certo me reserva os bens que me
restam !
Adeus, meu amor. Os meus respeitos e aííectos
Correspondência epistolar 207
á minha querida hospeda de ha cinco annos. Os
meus beijos aos vossos filhos, e a ti em minha
alma.
Teu
José.
Meu querido Camillo.
Tenho passado terrivelmente. Ando constante-
mente aos vómitos, provocados pela saliva que se
me prende nas campainhas ! E' sórdido e horrivel!
Nunca me esqueço porém de lastimar mais o teu
padecer, e agora fico cuidadoso pela snr.* D. Anna,
e pelos pequeninos. A maldição de Deus sobre
este paiz já nem poupa os paraisos saudáveis das
nossas florestas ! Eu attribuo tudo á podridão mo-
ral d'esta grande cavallariça ! Soífrem dos mias-
mas latrinarios os que não são bestas. Antes fos-
semos !
Se me lembro d'isso ! de tudo isso! Ah, meu
Deus, tenho horas escurissimas quando penso no
que eu era ahi, no que sou hoje, enoimpossivel de
prever tudo isto que se passou ! Acreditemos en
Deus que nos reuniremos ahi.
Adeus, meu Camillo. Dize ao morgado que tal-
vez a cousa se decida n'este mez, e em tal caso que
conto partir em outubro.
Abraço- vos.
Teu
José.
20(S Corrcspinidencia epistolar
Meu querido.
Cá estão mais cinco annos. Creio que ainda é
pouco. O interprete da minha sogra pedia toda a
vida e trabalhos públicos por não haver pena de
morte, e não estarem no código as minhas attenuantes,
Deu-me as honras do maior assassino doeste trei-
no. Parece que vão querellar d'elle alguns dos meus
quatrocentos collegas da prisão.
Eu na mesma.
Tive hontem a tua carta com que ri.
Se n'estes dez dias os outros não recorrerem,
devo partir a cinco d'agosto.
Abraço-te.
Teu
José.
oMeu querido Camillo.
Sahiu hontem d'aqui o morgado. Estranhei-o im-
mcnso ! Aquelle ardor phenomenal dos primeiros
dias tinha morrido n'elle ! Tentava encobrir o seu
desanimo, ou o que quer que fosse, mas mal podia
fazel-o com a transparente diplomacia aprendida cm
Famalicão. Pesquizei com ellc. Observava que fora
apenas a resolução abrupta que o contrariara.
Não sei. O que me dava grandes esperanças n^este
homem eram a sua fé, a sua ambição, o seu pro-
pósito franco. Que houve n'elle ?
Eu cheguei a dizer-Ihe que não fosse a Africa,
se não sentisse em si a alma dos primeiros tempos.
Repete-lhe tu isto. Eu não o quero ao pé de mim,
Correspondência epistolar 20g
se elle não for exactamente, mas sinceramente^ o
que era. Isto cm mim é profundamente verdadeiro.
Prefiro mil vezes que elle fique. Houve em Vizella
uma besta agronómica ou que diabo é, o tal***
que lhe disse que em Angola de dez escapa\ a um,
e que eu era homem prompto sem a menor sus-
peita em contrario. Isto também parece que o atra-
zou.
Qra eu quero que tu me livres de levar um ho-
mem aterrado ao pé de mim, e por tanto convcnce-o
de que mesmo o não ir elle não abate n'um ápice
a estima que lhe consagro, se elle tem, como pre-
sumo, em valor essa cousa.
Abraço-te por me obedeceres, assim como me
me obedecem os da minha familia, da qual tu és. Só
o António estará aqui. Mais ninguém. Se viessem
vocês matavam-me. Assim partirei de cabeça alta,
olhos serenos, e o meu immenso nojo e desprezo que
a cada hora se avolumam bestialmente no meu in-
terior.
Adeus, meu filho. Ainda nos abraçaremos em Sei-
de, e essa será a hora da nossa vingança feliz.
Beijo as mãos da nossa querida amiga e a face
dos vossos filhinhos.
Teu
José.
Meu Camillo.
Acabo de ler os bocadinhos da tua carta, e adi-
vinhar por ellcs os que faltam.
Já hontem, com a tua anterior á vista, cu e o
António haviamos fallado do morgado.
VOL. I 14
210 CoíTespondencia epistolar
Logo que elle chegue, cumpre-me dizer-lhe lealis-
simamente os meus sentimentos, e cònvidal-o no
vãmente a tomar a resolução mais fria c meditada
do seu animo.
Dizia a tua carta d'hontem que o morgado ia para
a Africa, se o processo fosse annulado. Ora isto é
que convém fixar. Quer dizer, eu sou sempre reconhe-
cido a este rapaz por lhe ter inspirado um grande
passo, e por elle o querer realisar ao meu lado,
mas o que de modo nenhum quero é a minima res-
ponsabilidade da sua partida. Nem por sonhos !
Morgado vai por que quer, vai sobre si, e ambos
nós temos a melhor vontade e os melhores intuitos
de caminharmos sempre juntos na nossa faina com-
mercial. E não é assim que deve ser ? E' claríssimo.
Quando o morgado aqui veio ha mezes disse-lhe
com a maior franqueza que de interesses de socie-
dade só em Africa podíamos resolver, quando de-
finitivamente soubéssemos a natureza e qualidade
dos nossos serviços communs. Isto foi de propó-
sito por causa da igualdade de interesses em que
primeiro tínhamos fallado, e disse-lhe eu a elle
mesmo que era por causa d'isto. A qual igualdade
eu a elle mesmo já tinha promettido ?io caso de fa-
\ermos agricultura^ sendo que n'essa hypothese os
serviços d'elle representavam bom capital, e que eu
de novo promettia, e que eu de novo lhe prometto.
Mas se, não fizermos ? Mas se nós chegássemos
a Loanda, e tivéssemos de resolver por uma espécie
de negocio, em que houvesse uma grande dispari-
dade de serviços ?
Morgado reconheceu tudo isto, e tu mesmo, pois
lembras-te que logo tudo te communiquei.
Agora mais. Se nós chegarmos a Loanda, e ou pela
Correspondência epistolar 211
exageração dos louvores com que nos tem pintado
aquillo, ou por qualquer motivo de inaptidão da nos-
sa parte ou infelicidade, se nada fazemos, nem lo-
gramos? Se ao morgado mesmo pelas suas quali-
dades conviesse qualquer resolução de esperanças
seguras que eu não podesse ou não quizesse acom-
panhar ?
Tudo isto pôde dar-se. Não o espero. Mas é pos-
sivel. Ora para isso é que é preciso estabelecer
bem sobre tudo o seguinte : que o morgado vai
muito por sua vontade, que elle é libérrimo aqui e
lá, e que eu não quero sombra de responsabilidade
da sua ida. Isto de modo nenhum !
Por isso vou convidal-o de novo a pensar, a re-
flectir, e até lhe vou propor o seguinte, e é que
elle fique, se quizer, a arranjar os seus negócios
mui de seu vagar, e que eu de lá o chamarei na
minha primeira carta dizendo-lhe ao mesmo tempo
mais explicitamente o que se me offerecer.
Parece te bem ? As tuas cartas, meu querido,
commovem-me principalmente pelo estudo que fa-
zem em contrario.
Deus seja por nós !
Quem diria que a viagem para que eu ahi me pre-
parava ha cinco annos era para ir buscar esta carta ?
e no mesmo mez !
Então ia ser recebido nos diversos pontos pelos
cônsules portuguezes que me levassem em trium-
pho aos nossos estabelecimentos. Hoje tenho de so-
licitar por favor que me deixem saltar nos portos
intermediários do meu degredo, e peorcs que este !
Não te compunja isto. E' em todo o caso uma
honra do destino a serenidade com que aproximo
estas duas datas.
212 Correspondência epistolar
Beijo as mãos da minha querida amiga, os vossos
filhos, e a ti.
Teu
José.
Meu querido.
Adeus.
Até á volta, meu filho, meu Camillo, meu amigo!
Se por lá morrer, de certo sobe a minha alma
com a tua imagem.
Adeus, filho querido.
Levo na minha alma o muito e immenso que te
devo ; immenso que eu sei medir porque o fa,ço á
luz da desgraça.
Adeus. De lá te escrevo logo.
Beijo as mãos, e abraço a nossa querida e eterna
amiga.
Beija por mim os teus filhos. Se eu viver, é d'el-
les a minha velhice. Cá vem o Jorge commigo.
O ultimo abraço e adeus.
O ultimo beijo.
Teu
José.
Meu querido.
S. Vicente, i3, setembro, 71.
D'aqui te beijo e abraço.
Levo esperanças, mas não sei que sobresaltos de
que vou morrer. Penso novamente na morte, e é
isto o que me faz crer n'clla. Vejo a morte como
um descanco.
Correspondência epistolar 2i3
Talvez não succeda assim. N'esse caso Deus me
reserve para dias de felicidade no meio da minha
querida familia, a que tu pertences, meu adorado
amigo.
O morgado diz-me que te escreva. Eu escondo
d'elle, e de todos, as tristezas profundas da minha
alma. Estas tristezas não tem nada com a pátria,
que eu já detesto, porque Deus quiz ensinar-me a
generosidade de a esquecer.
Tem tudo com a voz interior da minha alma que
me diz que o meu dever é morrer. Rodeiam-me de
attenções que me parecem sentenças sobre o tu-
mulo que eu fiz, e por isso me dei vontade de que
Deus me esconda n'elle.
E' claro que o meu destino é um absurdo, e fu-
gir d'elle seria salvar-me.
No acordar horrivel das minhas noites de bordo
lembro-me de ti. O morgado traz uma luneta que
foi tua e que eu conheci. Contemplo-a, toco n'ella,
como quem se ampara no teu braço.
A esta distancia é que eu tenho visto o que te
devo, meu querido amigo !
Adeus. Tenho soífrido no mar, e vou soffrer.
Lembrar-me-hei sempre de ti.
Beijo as mãos da minha querida amiga. Os teus
filhinhos que ponham as mãos para Deus por mim,
e por ella. Se eu viver, serão os melhores amigui-
nhos da minha pobre velhice. .
Adeus, meu filho. Abraço-te e beijo-te estreme-
cidamente.
O teu amigo grato até morrer
José.
214 Correspondência epistolar
€Meu querido.
Loanda, 26 — ío — 71.
Cá estou no meu posto. Loanda é uma Ninive.
Eu não vivo n'ella, e tenho uma casinha posta so-
bre o mar que é uma delicia com que Deus me es-
perava aqui.
Lê a carta que mando ao António. Quero ir para
Cabo Verde. Consultai em commum. Encanta me
a idéa de que virias viver alli um anno commigo.
Santo Antão é como Cintra.
Deixei por todas as partes um rastilho no cora-
ção de todo o mundo.
Eu penso que captivo esta gente pelo orgulho
com que me porto, e pela estima com que a trato.
Lê a carta do António. Eu não tenho tempo ne-
nhum porque me veio surprehender o vapor.
Santo Antão era o meu ideal.
Se eu ficar em Loanda, o meu commercio será
simplicissimo, como verás pela carta do António.
Em Santo Antão ou S. Thomé, faria agricultura e
advocacia.
Estou morrendo por letras vossas.
Adeus. A' nossa amiga um milhão de saudades.
Beijo os vossos filhos, e a ti abraço ternissima-
mente.
Teu
José,
Meu querido,
Loanda, 21 — 11 — 71.
Espero com anciedade a tua nova carta para me
desopprimir das magoas em que me pozeram estas
Correspondência epistolar 21 5
tuas ultimas palavras. E' certo que soíFres, que pa-
deces, ninguém melhor do que eu comprehende a
falta de resignação para a bestialidade dos marty-
rios physicos, mas tenho ainda esperanças na tua
cura radical.
Eu, meu filho, tenho saúde por ora. Peço a Deus
fervorosamente o favor da morte na hora em que
o rigor da sua justiça quizer estragar em mim a ul-
tima porcaria que me resta, a vida physica.
Vivo sereno, quieto, mas quasi estúpido, descon-
fio. Estou verdadeiramente sepultado, como um
que acordasse dentro do tumulo, e se visse com uma
das paredes d'elle aberta sobre o mar, húmido con-
fidente das suas choradas memorias. Eu tenho pena
dos pretos e nojo dos brancos. Que terra ! que paiz
este ! Aqui ainda não raiou nenhum clarão das lu-
zes do espirito moderno. Nem religião, nem familia.
Nenhuma cousa que dê idéa da dignidade humana
senão a resistência tenaz do negro escravo ás im-
posições bestiaes do branco livre.
Tenho horas de escuríssima melancolia. Lembro-
me sempre de ti. Em dia de finados fui ao cemité-
rio. Vesti o meu luto, e fui lá ; eram 6 horas da
manhã, ouvi umas missas, e passei depois por en-
tre as sepulturas. Deus viu-me do céo por um pu-
nhado de lagrimas xom que me deixou consolar.
Tive pena dos mortos de Loanda, meu filho. Não
haverá no mundo outros nem mais desamparados
nem mais esquecidos. Não ha sepultura visitada por
flores, raras pedras tecm epitaphio, e nenhuma ur-
na que tenha orvalhos !
Ha ao redor dos canteiros umas arvoresinhas
com umas flores roxas e brancas. Atirei com um
punhado d'ellQs para cima d'uma sepultura sem no-
2i6 Correspondência epistolar
me, e trouxe umas poucas para te mandar a ti. Es-
tão alli mirradinhas, mortas e debruçadas n'um pe-
queno cálix ; tencionava mandar outras também ás
senhoras da minha familia ; já puz porém na carta
ao António que não mandava nenhuma. Podia ser
agouro.
Peço-te, meu filho, que leias a carta que mando
ao António. E' enorme, e lá vão os planos c cogi-
tações com que eu penso em esperançar a minha
alma. Volto com os planos de Santo Antão. Ainda
será. . . porém, quem sabe ?
E a snr.^ D. Anna como está ? e as criancinhas ?
Eu lembro-me e choro por todos como familia mi-
nha. A's vezes quero ser rico para poder ser útil a
esses amiguinhos da minha velhice, se Deus quizer
que eu viva. Veremos. A vida commercial tem mo-
las estúpidas, e eu não sei se poderei d'aqui salvar-
me com proveito.
Adeus, meu querido Gamillo. Beija por mim as
mãos da nossa amiga, e a face dos teus filhinhos.
Eu beijo-te e abraço-te. Aí^eus.
Teu
José,
Meu querido Camillo.
Loanda, 24 de janeiro de 1872.
Não me importa nada o perdão. Sinto como nun-
ca um despreso invencível , e quasi quero ser
degredado para ser em tudo differente d'clles. Vêr-
vos, isso sim, isso quero ; mas para isso
Pelas minhas cartas terás conhecimento d'estas
Correspondência epistolar 21 'j
tuas alegrias que tu na tua carta desejavas. N'esta
ultima ao António sei que lerás com verdadeiro con-
tentamento a exposição do meu plano definitivo
Dize á nossa querida amiga que tenha coragem,
e eu lh'a peço, a favor também do nosso apaixona-
do amigo de ha 4 annos.
Se perde a alegria, como me hão de receber em
Seide?
Abraça-a, filho, e beija-lhe as mãos por mim.
Beijo os vossos filhinhos, meus adorados amigos.
Adeus, meu querido Camillo. Lembra te todos os
dias do
teu
Vieira de Castro,
Meu querido.
Tenho duas cartas tuas, e a outra, deliciosa, sua-
víssima, admirável, que tu escreveste ao António, e
elle me mandou. Por outras minhas deves saber já
que recebi as três a que te referes na primeira d'es-
tas duas. Encantou-me que tu e o António accei-
tassem amplamente a minha repugnância contra a
diminuição de pena, e melhor seria que acceitasse-
mos todos o desprezo por indulto de qualquer or-
dem. Por tal modo cresce em mim todos os dias
o nojo por isso que chamam pátria que não sei de
que modo ficarei depois de humilhantemente per-
doado por ella.
Do morgado lerás na carta ao António as excel-
lentes esperanças que elle de novo me inspira.
Penso que temos o homem que elle nos prometteu
ser. Espero bom futuro.
2i8 Correspondência epistolar
Has de vcr-me filho. E se não, é porque eu mor-
ri primeiro. Digo-te isto sem aífectação, serenamente,
convencidamente. Não me engano, éuma visão esta
minha, verdadeira coiiio as visões dos moribundos,
a quem seria cruel que Deus enganasse. E o Se-
nhor o permitta ! Se um de vossês me faltasse, de
vossês os seis que me amam, isso seria uma bes-
tialissima infâmia do céo. Depois, não t'o hei
dito e menos ao António porque a minha honra e
a minha gratidão é alegrar-vos, mas é certo que, se
eu não ando a appetecer a rnorte, também não é
ella cousa que me afflija, que me deixe de mau hu-
mor quando repetidamente se senta no meu cére-
bro ao cavaco còm as minhas meditações tranqui-
líssimas. Sc eu morrer penso que descanço, e se
Deus quizer que assim seja, no meu crepúsculo illu-
minarei as vossas memorias com maior numero de
sorrisos que de lagrimas.
Meu filho
Teu
José,
Meu querido Camillo.
Se se morresse de melancolia, de tristeza, de
dores feitas na alma pelo recordar pungentissimo e
acerbo, eu teria de certo morrido na tarde em que
primeiro li esta tua carta a que respondo agora.
Ella é tristíssima, e eu li-a com a alma despedaça-
da pelas amarguras d'ella, e por outras.
Deus me traga palavras tuas mais confortativas
e mais esperançadas para ti, filho !
Correspondência epistolar 21 g
Duas cousas na tua carta me pungiram intima-
mente. Uma foi chamares a minha memoria ao nos-
so passado de ha dez annos ; a outra, apontares-
me a delicia do melhor remédio para a minha en-
fermidade eterna, e sentir eu a minha inaptidão
para o aproveitar. Que fim de tarde que me fez a
imaginação n'esse momento em que te li !
A vida de ha dez annos, com todos os lugares,
situações, embaraços, fugitivas alegrias, dores de-
moradas, tudo, tudo isso me passou pelos olhos,
mas de vagar, lentamente, lucidissimamente. Fazer
romances. . . oh, se eu podesse !
Mas não posso, não posso.
Eu espero os meus livros, e quero ter prompta
quanto antes esta minha alumiada cubata suspensa
sobre o mar. Hei de escrever ahi umas cousas, pen-
so. Mas o que mais me prende n'este momento é o
plano de organisar um curso de seis ou doze lições
para as dizer a este publico. A mim nada me ar-
ranca de mim próprio como o pavor da tribuna.
Esta terra é completamente escura, mas eu impo-
nho-me, fallando n ella, as responsabilidades com
que fallaria em Athenas, servindo-me assim a mim
mesmo, como um homem que se esmerasse no re-
quinte da sua elegância para ficar sósinho em casa.
Veremos.
Ahi te dará o António uma cousa que aqui es-
crevi, que me pediram e que publicaram. Dize-me
francamente se aquillo ainda não está absoluta-
mente estylo de preto.
Eu tenho tédios mortaes. Volto a sorrir á possi-
bilidade de morrer. Mas agora sem tristeza ; é com
placidez, com animo frio, sem presumpções falsas,
que penso e desejo isto ás vezes. Nenhum senti-
220 Correspondência epistolar
mento me prende á vida : o da família e o dos ami-
gos verdadeiros, esse lá iria para a minha sepultu-
ra vigiar por mim. Pois então, não achas tu isto ló-
gico ?
Vou dizer-te uma cousa com toda a frieza do meu
animo. Ando desconfiado de que venho a acabar
pela semsaboria do suicídio. N'esse final ninguém
verá a vaidade^ mas vejam o que virem, eu é que
os não vejo a elles.
E' mau quando eu começo a pensar muito na
mesma cousa, e essa tolice anda ha tempos com in-
sistência a palavrear no meu cérebro. Deixa ver.
Adeus meu filho. Beijo os mãos da nossa querida
amiga. Beijo os teus filhinhos e abraço-te.
Teu
José.
Meu querido Camillo,
Loanda 22 de fevereiro de 1872.
O morgado sempre doente, e por ora tenho a seu
respeito todos os desejos, todas as esperanças, mas
não sei ainda se poderemos assentar negocio com
largueza para ambos. Veremos. Por ora o negocio
que tenho feito resolve se em casa em cima d'uma
banca: dar e receber. Não estou resolvido a sahir
d'isto, mas quero ver se o morgado se sahe com
tínêta para tratar com o gentio. Sahindo, será bom,
e poderá elle prestar um capital a outro
Estimo que fosses para Seide. Chega-me ao co-
Correspondência epistolar 221
ração um raio d'essa felicidade entrevista e suspi-
rada d'aqui.
Mando-te um jornal com uma noticia de uma reu-
nião aqui feita por mim. Se fizeres transcrever isso,
manda o papel.
Eu adoro a minha casinha, leio, estudo, rabisco,
estou iranquillo (o meu eterno inattingivel), e tenho
até a felicidade de chorar por vossês para que a
alma se me não bestialise n'estas venturas estagna-
das. E em todo o caso sempre penso que o mor-
rer seria o melhor.
Abraço-vos, á snr.^ D. Anna e a ti. Beijo os fi-
lhinhos. Outra vez, e adeus.
Teu
José.
Meu querido Camillo.
Loanda, 19—4—72.
Desde o dia 24 que estou de novo gemendo es-
tas febres estúpidas. Recahi hontem, mas os 24
grãos de quinino que tomei de noite permittem-
me escrever-te, o que faço já com medo de que
isto vá a peor. Tenho duas cartas tuas. Vejo que
as tuas festas foram como as minhas. Eu não sei
como se resiste á tristeza profunda do recordar.
A's vezes fujo de mim mesmo quando as saudades
de ha doze annos para cá apertam seriamente com-
migo. Estupidissima vida !
Tu phantasias cousas adoráveis para mim. Se
podessc realisar-se esta da caridade ! Mas eu estou
preoccupadissimo com esta cousa do commercio.
Quem sabe o que poderá succeder ?
222 Correspondência epistolar
Um desastre pôde pôr-me a nú. Agora mesmo
estou n'uma grande indecisão sobre a compra do
café com a baixa que elle já soífreu, e que ha de
soífrer com as tnovidades do Brazil. Que a Provi-
dencia seja por mim ! Deves ter visto o meu pro-
jecto das conferencias, que eu por ora substituo
ás doze lições. Isto é porventura, como tu podes
imaginar, duas dúzias de facinoras e duas dúzias
de bestas.
O António dar-te-ha um retrato meu. Fora das
poucas pessoas da minha família, a quem o remetto,
mando um a ti, outro ao Albino, e outro ao Miran-
da. A mais ninguém. Um pedido faço a todos : que
o não larguem do seu poder, seja para quem for.
Se um photographo obtivesse copia d'esse retra-
to, e o pozesse á venda, seria isso para mim uma
dor horrível. Aqui preveni tudo. Eu tirei-o unica-
mente para dar mais uma prova da minha gratidão
aos meus que são vocês os que me amam.
Não recebi carta da snr."" D. Anna por este pa-
quete, como tu me prevenias. Não chegou a escre-
ver-me ? Eu escrevi-lhe a 28 de março.
Adeus, meu filho. Tenho o corpo todo ás pica-
dellas, sinto-me doente, está-me na bocca o péssi-
mo sabor do quinino, e morreu-me ha pouco uma
benguellinha. Seja melhor do que a minha a situa-
ção do teu espirito.
Muitos affectos e saudades minhas á nossa que-
rida amiga, e beijos a todos os pequerruchos. Eu
abraço-te.
Teu do coração
José,
Correspondência epistolar 223
Meu querido Camillo.
Loanda, 17 de maio de 1872.
Escrevo-te com a testa apertada na mão esquer-
da. Continuo a soffreri A época do cacimbo aqui
detesto-a, e a minha casa que é óptima no verão,
torna-se perigosa no inverno com pneumonias iguaes
ás que mataram o dono d'ella.
Fui. ao Dondo, o peior sitio d' Angola, e andei ca-
minhos impossiveis para Cazengo onde comprei uma
casa, e onde deve estar agora o morgado. E' ver-
dade que também atirei ao jacaré nas margens do
Quanza, o rio mais lindo do mundo, mas tudo isto
se paga !
Recebi os teus dous livros na volta de Cazengo.
Ainda te não disse que tive uma biliosa que assus-
tou o meu medico dous dias. Mau foi não descan-
çar de vez já então. Depois sempre mal. Hei de
pois ler estes livros quando também concluir um
estudo que trago nas mãos. O que eu queria era
que tu me encommendasses todos estes estudos do
Proudhon, a que pertence a Justiça, e entregasses
ao António recebendo d'elle o importe, sim?
Na minha viagem escrevi representações para as
camarás municipaes. O António que te mostre.
Dizes-me cousas adoráveis na tua carta, meu que-
rido. Se eu podesse convencer-me de que no teu al-
tissimo conceito tinha o lugar que tu me dás ! Tu
não podes enganar-me, mas tu crês que sejam as-
sim as minhas imagens ?
Deus queira que hajas reparado em Seide os tor-
mentos da Foz !
224 Correspondência epistolar
Ainda volto a rir-me com as tuas jocosíssimas
graças a respeito das pretas.
Vi com tristeza que tinhas comprado café meu.
Eu estava á espera de mandar-te o café-imitação
mokay o primeiro d' Angola, e que vae este anno
pela primeira vez á Europa. E' sobre elle que fiz a
transacção a que acima me refiro.
Pedes-me a serio o niacaquinho ? E' um sagui
que tu queres ?
O Branco não deu ao Sebastião os passarinhos
promettidos. A mim também morreram-me todos.
Hei de porém fazer nova tentativa de remessa.
O Sebastião entregou a minha carta á snr.^ D. An-
na ? Porque lhe não mereço a honra e a alegria das
suas letras?
Beija-lhe a mão por,^im, e os teus pequeninos.
Recebe o meu coração.
Teu
José,
ULTIMA CARTA
Meu querido
Loanda, 22, 8, 72.
Acabo de tremer uma sezão e arrancar vómitos
violentos ! O vapor sahc d'aqui a quatro horas. Res-
pondo á pressa á tua cartinha de 2 de julho. Lasti-
mas-me doente. Se tu visses o que cu soffro !
Vou pedir-te e á cxc.™^ snr.* D. Anna, que coope-
rem com o António n'uma cousa. Dá-me cabo da
vida esta canalha d'aqui, se me não mandam uma
^ Correspondência epistolar 225
creada, da província, da aldêa, de 40 a 45 annos,
sadia, amoravel para doenças, vigorosa, seria e ho-
nesta. É-me indispensável isto. Será possivel ?
Espero com anciedade o livro que me promettes
— O Carrasco.
Dizes que pergunte qualquer cousa ao Sampaio,
e ao Jayme, etc. O primeiro ha muito que me não
escreve. O segundo não me escreveu nunca !
Nada escrevas ao morgado. O homem está em
Cazengo, e desde que pôde, em mangas de cami-
sa, trabalhar como um mouro, assombrou toda a
gente !
A questão é saber agora se elle dá conta de si
no final da administração da casa. Veremos. Elle
diz que sim, eu tenho esperanças, mas aguardo
sempre. Mando ao António todas as cartas do mor-
gado escriptas de Cazengo. Vê tudo isso e o que
digo d'elle mais devagar escripto em hora de saúde.
Seide ! a pedra e os cyprestes ! Ah, não volto ahi
mais. Não cabe essa felicidade no meu destino! Fu-
jamos d'estas memorias que me despedaçam !
Já perguntei se o criado do morgado não entre-
gou uma carta minha á snr.* D. Anna ?
Adeus, meu querido Camillo. Abraço-te.
Teu
José^
VOL. I 1 5
José Cardoso Vieira de Castro, no fim da
vida, repartiu a herança do seu coração pelo
grupo das pessoas que o amaram muito no in-
fortúnio e nunca souberam lisongear-lhe a mal
dissimulada prosperidade. Em certas existên-
cias, a bonança é como a serenidade do céo no
intervallo de dois estrondos que seguem o co-
riscar da faisca.
No momento em que elle cahiu fulminado,
rodearam-n^o quantos lhe haviam adorado a
generosa alma, a palavra confortadora^ a ale-
gria luminosa que descondensava a escurida-
de dos tristes.
Uma senhora, que lhe devia em amizade a
compensação dos ódios do mundo, guarda al-
gumas cartas de Vieira de Castro com religio-
sa saudade. N'essas paginas ainda ahi se repar-
tem commigo as lagrimas que lhe foram desa-
fogo e vida emquanto pôde chorar.
Correspondência epistolar 22']
Minha querida senhora.
Ponho nas suas mãos com os meus beijos as la-
grimas da minha grande desgraça. Suffocam-me
ainda estas tarjas pretas. No meu silencio ha tudo
o que poderiam e deveriam dizer-lhe as minhas im-
mensas dores, e a minha eterna gratidão.
Meu querido amigo, aperto-te contra o meu co-
ração, e agradeço-te o teres-me segurado o juizo.
Era grande a força da minha consciência, foi Deus
quem armou o meu braço, mas tive medo de en-
louquecer nos primeiros dias de cárcere.
Eu amava-a muito. Punha-lhe o peito debaixo
dos pés, e esmagou-m'o. Matou-a o amor que eu
lhe tinha. Eu era orador, e fiquei mudo. Escrevia
e parti a minha penna. Era rico, e fiquei pobre.
A minha santa pobreza é a única luz que Deus
deixou ás minhas trevas.
Isto não digo a ninguém. Digo-o aos grandes des-
graçados como eu. Adeus, lembrem-se algumas ve-
zes de mim.
O teu
'Vieira de Castro,
III.'^'' e exc."^^ snr.^
Lisboa, i3 — 9 — 70.
Minha querida amiga. Quem fora d'essa casa sa-
hiria a punir por mim ?
228 Correspondência epistolar
Beijo-lhe as mãos, minha querida senhora.
Eu tenho o corpo inerte para os baldões dos
maus, mas sinto sempre o coração extremamente
grato a esta partilha de angustias que v. exc* e o
nosso Camillo querem ter no meu infortúnio.
Eu havia presentido o seu coração n'aquelles pun-
gentes gritos.
Depois quiz attribuir o folhetim a meu irmão An-
tónio. Não me enganei pois. Só podia ser de famí-
lia aquella raiva e aquelles alentos.
De novo lhe beijo as mãos, minha boa amiga.
Escrevo aqui ao Camillo, sim? Tenho duas car-
tas d'elle.
Afflige-me profundamente esta tenacidade dos pa-
decimentos d'elle.
Que é aquillo ? que doença terá elle ? qual será
de todas as que lhe figura a sua imaginação e a sua
bisbilhotice de leituras medicas ?
Deus permitisse que não fosse nenhuma !
Eu tenho celestiaes alegrias no seio da minha al-
ma quando penso que elle escreve a meu respeito.
Se eu podesse dar-lhe a minha saúde que não ser-
ve de nada !
Vi que o applaudiram no Porto.
Que triumphos poderão recusar-lhe ?
Adeus meus queridos e estremccidissimos ami-
gos.
De V. exc*
amigo e criado muito humilde
J, C. Vieií^a de Castro»
Correspondência epistolar 22g
Jl/ma ç exc/*''' snr,^
Lisboíi, 12 — 12 — 70.
Minha querida amiga. Perdôe-me vir tão tarde
beijar-lhc as mãos pelos confortos que ella mandou
quando eu mais precisava d'elles.
Eu estou conformado com o meu destino. Sin-
to-me melhor no coração depois da desgraça, e
sinto Deus na tranquilidade da minha consciência e
na paz do meu espirito. Creio que não podia nem
devia ser senão assim.
Amava-a muito, muito. Mas penso que fui cruel.
E* isso o que expio. E eu nunca pude com tama-
nha serenidade chamal-a ao meu espirito como de-
pois de lhe poder mostrar para o céo os meus bra-
ços presos pelas grades. Fui cruel mas fui justo.
Também fui piedoso porque a infelicidade maior
era do que sobrevivesse. Deus é que quiz ser bom
commigo. Hoje convenço-me e sinto que a condem-
nação me dá a força que eu não podia dever á li-
berdade.
Tantas lagrimas chorei hoje, minha querida se-
nhora, com uma carta em que o António me contava
as suas impressões na representação do Condem-
nadol.t. Quiz mandal-a ao Camillo, mas o Antó-
nio diz-me que elle deve chegar aqui amanhã. Será
verdade? Surprehendeu-me isto por não poder sup-
pôl-o com a ultima carta do Camillo que recebi hon-
tem. Mandar-lh'a-hci em todo o caso a v. exc* se
elle eífectivamente me apparecer aqui amanhã.
O que eu devo a Camillo ! Que carta aquella !
Que coração o seu !
Mando-lhe a carta do António. Escuso dizer-Ihes
23o Correspoij delicia epistolar
que a gratidão de que elle falia na quarta pagina
não podia referir-se senão ao immenso aíFecto que
elle sabe que eu tive sempre a esse privilegiado
homem.
Beijo as mãos de v. exc/ e a face de todos os
seus filhinhos.
De V. exc*
velho amigo admirador e criado
obrigadissimo
J. C. Vieira de Castro,
Meu querido Camillo.
Dia i3.
Veio a tua cartinha ao António, que elle me man-
dou. Peço-te que não repitas tentativas que te pre-
judicam, e mais me affligem a mim. O que eu te
devo, meu filho !
Recebi a tua ultima carta, que leio e releio com
todas as outras.
Agradeço á tua grande alma isso que eu já adi-
vinhara, e que o António diz na segunda pagina
d' esta carta.
Eu continuo conformado, meu filho. Seria quasi
feliz, se Deus me assegurasse a tua existência, a
dos meus, a sympathia unanime da opinião, e a mi-
nha tristeza eterna pelas saudades do que perdi.
Com que alvoroço receberei o Condemnado ! Po-
derei eu lêl-o ? Quantas novas lagrimas e soluços
porei eu no teu peito ? Leio-o, porque espero d'ellc
força e paz.
Correspondência epistolar 23 1
Adeus, meu querido Gamillo. Deves ter rece-
bido a minha carta em que te abraçava pela dedi-
catória.
Teu
José.
ExcJ^ snr,^
Minha querida amiga. Aqui as tenho, as flori-
nhas de Seide. Beijo-lhe as mãos por estas dores
que o seu presente me trouxe.
Esteve hontem aqui o morgado. Hoje espero -o
a elle para o jantar. Hontem foi o meu aquelle mi-
mo que elle me trouxe também do ultimo banquete
de Seide.
Não tenho carta do Gamillo ha dias.
V. exc.^ tem a bondade de dizer-lhe que o meu
processo segue para o Supremo, e que a parte foi
quem recorreu ?
Como estão ?
Eu abraço-os a ambos, meus queridos e santos
amigos.
De V. exc*
amigo e criado obrigadissimo
/. C. Vieira de Castro,
FIM DO VOLUME PRIMEIRO
J. P. OLIVEIRA MARTINS
OBRAS COMPLETAS
I. Historia nacional:
HiSTOBiA DA CIVILI8AÇÃO IBEBICA, 4.' «d. (1897), 1 vol. br. 700 rs. Ene. 900.
Historia db Portugal., 6.» ed. (1901), 2 vol., br. 1^400 rs. Ene. 1^800.
O Brazil e as colónias portuguezas, 3.* ed. (1888), 1 vol., br. 700 rs. Ene. 90í'.
Portugal contemporâneo, 3.* ed. (1895), 2 vol., br. 2^000 rs. Ene. 2^400.
Portugal nos mares, (1889), 1 vol., br. 700 rs. Ene. 900.
Camões, os .Lusíadas e a renascença em Portugal, (1891). 1 vol., br. 600 rs.
Ene. 800.
Naveoaciones t descubrimientos de los portugueses, (ed. do Ateneo de Madrid,
1892), 1 vol. (não entrou no commercio.)
A vida de Nun'alvares, 2.» ed. (1894), 1 vol., br. 2^000 rs. Cart. 2,J400. Ene. (fo-
lhas doiradas) 3^200.
Os filhos db d. João i, 2.* ed., 2 vol., br. 1^400 rs. Ene. 1^800 rs.
O Prihcipb pebfbito, (1895) 1 vol., br. 2^^000 rs. Encad., folhas doiradas, 3^200 rs.
II. Historia geral :
Elemextos de anthropologia, 4.» ed. (1895), 1 vol., br. 700 rs. Ene. 900.
As RAÇAS humanas e A civiLiSAçXo PRIMITIVA, 2 vol., br. 1^400 rs. Ene. 1^800 rs
Systema dos mythos RELIGIOSOS, 2." ed. (1895) 1 vol., br. 800 rs. Ene. 1^000.
Quadro das instituições primitivas, 2.* ed. (1893) 1 vol., br. 700 rs. Ene. 900.
O regime das riquezas, 2.» ed. (1894), 1 vol., br. 600 rs. Ene. 800.
Historia da republica romana, 2.* ed., 1897, 2 vol., br. 2^000 rs. Ene. 2(5(400.
O HELLENiSMO EA civiLiSAÇÃo christã, 2.* ed., 1 vol. br. 800 rs. Ene. 1<JOO0 rs.
Taboas DB CHBONOLOGiA E^GEOGRAPHiA HISTÓRICA, (1884), 1 Tol., br. 1^000 rs. En-
cadernado 1^200.
III. Varia:
A CIRCULAÇÃO FIDUCIÁRIA, 2.* ed., 1 vol. br. 800 rs. Ene. 1^^000 rs.
A BEOROANiSAçÃo DO Banco DE PORTUGAL, opusculo, (1877) br. 150 rs.
o ARTIGO «Bancoi» no Diccionario Universal Portuguez, (1877), 1 vol , br. 500 rs.
Politica e economia nacional, (1885), 1 vol., br. 700 rs.
Projecto de lei de fomento rural, apresentado á camará doa deputados na sessão
de 1887, 1 vol., br. 300 rs.
Elogio histórico de Anselmo J. Braamcamp, ed. part. (1886), 1 vol. (esgotado).
Theophilo Braga e o Cancioneiro, opúsculo, (lS69) esgotado,
o Socialismo, (1872-3), 2 vol., br. 1^200. (Esgotado)
As ELEIÇÕES, opusculo, (1878), br. 200 rs.
Carteira db um jornalista : I. Portugal em Africa, (1891), 1 vol., br. 400 rs,
Inglaterra de hoje, cartas de um viajante, 2.» ed., (1894), 1 v»l., br. 800 rs.
Ene. 800.
Cabtas PBNíNSaLABBS, (1895), 1 vol. br. 600 rs. Ene. 800 rs.
Parceria António Maria Pereira
LIVRARIA EDITORIA
Rua Augusta, 60, 52 e 64 — LISBOA
Obras de José Quintino Travassos Lopes
Nova grammatica elementar da lingua portu-
gueza» redigida segundo as iheorias modernas, e contendo
quadros synopticos muito úteis, cart. 160 réis.
Compêndio de arithmetica e systema métrico,
28.* edição, contendo 29 gravuras e mais de 2.000 exerci-
dos e problemas, reformado segundo os actuaes program-
mas, br. 200 réis, cart. 280 réis.
Resumo de arithmetica e systema métrico, 5.*
edição^ muito augmentada e contendo 13 gravuras, appro
vado pelo antigo conselho superior de instrucçâo publica,
br. 100 réis, cart. 180 réis.
Dois mil exercícios e problemas de aritlimeti-
ca e systema métrico, abrangendo os programmas do
ensino elementar e complementar, em br. 160 rs., cart. 240 rs.
Compendio de historia pátria, 13.' edição, refor-
mada, e contendo no fim uma noticia resumida dos factos
principaes de cada reinado, br. 160 réis, cart. 240 réis.
Compendio de historia sagrada, 2.' edição, illus
trada com muitas gravuras, approvado pelo antigo conse-
lho superior de instrucçâo publica, br. 160 réis, cart, 240 rs.
Leituras Correntes e Intuitivas : primeiras li-
ções sobre objectos. — !.■ parte, 9.» ediçSo, muito
augmentada, ornada com gravuras e vinhetas, dedicada ás
creanças de 7 a 9 annos, br. 160 réis, cart. 240 réis ; com
encad. de luxo para prémios e brindes, 300 réis.
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Noções elementares de geometria intuitiva, con
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- Rua. Augmta, 50, 52 e 54 — LISBOA
I
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